As chuvas que atingem a Bahia nesta semana estão reacendendo uma discussão que vai além da meteorologia. Por trás das nuvens carregadas e do céu nublado, há um protagonista muitas vezes esquecido: o oceano Atlântico. É dele que vem a maior parte da umidade que alimenta as chuvas em todo o estado, e é nele também que deságua grande parte da água que cai sobre a cidade.
Enquanto o estado enfrenta dias de tempo instável, com pancadas de chuva e aumento da nebulosidade, as equipes da Secretaria do Meio Ambiente (Sema) e do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) monitoram os efeitos dessa interação.
“O oceano é o principal reservatório de água e a maior fonte de umidade para a atmosfera. Quando o sol aquece a superfície do mar, parte dessa água evapora, sobe para a atmosfera e retorna em forma de chuva. Esse processo mantém vivos os rios, florestas e ecossistemas costeiros”, explica a oceanógrafa Paloma Avena, da Superintendência de Inovação e Desenvolvimento Ambiental (SIDA), vinculada à Sema.
A influência direta do Atlântico
Os ventos alísios, que sopram do mar em direção ao continente, trazem o ar úmido que se condensa e precipita, especialmente sobre o Recôncavo e a Região Metropolitana de Salvador (RMS). À medida que o ar avança para o interior, ele perde umidade e as chuvas tornam-se mais raras e concentradas.
No sul da Bahia, essa relação é ainda mais evidente. O relevo acidentado e a vegetação da Mata Atlântica criam condições ideais para a condensação do ar úmido trazido pelo oceano, intensificando as chuvas na região. O encontro entre o ar quente e úmido e as serras do litoral sul provoca precipitações frequentes, essenciais para manter os rios e a biodiversidade locais.
Já no norte e nordeste do estado, o regime de chuvas é influenciado principalmente por fenômenos atmosféricos como a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), uma faixa de nuvens que se forma sobre o oceano equatorial e que, em certos períodos do ano, se desloca para o sul, provocando precipitações intensas.
O interior da Bahia depende indiretamente do oceano. A umidade que chega até lá tem origem no Atlântico, mas é modificada pelo relevo — especialmente na Chapada Diamantina e nas áreas de Cerrado, que captam e redistribuem essa umidade por meio dos rios que nascem nessas regiões e deságuam no mar.
Além dos fatores naturais, o uso do solo também influencia esse equilíbrio. O desmatamento, a urbanização e a perda de áreas verdes alteram o microclima e o ciclo das chuvas. No centro e no oeste baiano, mais distantes do oceano, o clima é mais seco e as precipitações dependem de sistemas continentais e da umidade transportada da Amazônia, o que mostra como o Atlântico segue sendo o ponto de partida do ciclo da água em todo o estado.
“Falar de chuva também é falar do oceano”, reforça Paloma. “Tudo está conectado. Cuidar das florestas, dos rios e das cidades é também cuidar do oceano — o ciclo da água começa e termina nele.”
Do céu ao mar: impactos e monitoramento
Além de fornecer a umidade que alimenta as chuvas, o oceano e as áreas costeiras também sofrem as consequências do excesso delas. As águas que escoam das cidades para o mar carregam sedimentos, nutrientes em excesso e resíduos sólidos, alterando a salinidade e a turbidez das zonas costeiras. Essas alterações impactam ecossistemas sensíveis, como os manguezais e os recifes de coral.
Por isso, a Sema e o Inema realizam monitoramento da qualidade da água e acompanham os efeitos das chuvas sobre os ambientes costeiros, contribuindo para a gestão integrada entre os ecossistemas terrestres e marinhos.
Previsão do tempo
De acordo com o boletim meteorológico do Inema, esta quinta-feira (13) será marcada pela permanência de áreas de instabilidade sobre parte do Litoral da Bahia. Em Salvador, Região Metropolitana e Recôncavo, o tempo segue instável, com ocorrência de chuvas isoladas intercaladas por períodos de tempo seco. No Oeste, há possibilidade de pancadas de chuva entre a tarde e à noite, enquanto nas demais regiões o sol volta a predominar.
Na sexta-feira (14), as condições do tempo voltam a apresentar maior estabilidade em grande parte do Litoral, embora ainda possam ocorrer chuvas fracas e passageiras entre o Sul e o Recôncavo. Nas demais regiões, o predomínio será de sol, com elevação das temperaturas e redução dos índices de umidade relativa do ar.