“Só se protege o que se conhece.” A frase, destacada durante a trilha ecopedagógica realizada na última quarta-feira (26) na Área de Proteção Ambiental (APA) Joanes-Ipitanga, unidade de conservação gerida pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), traduz a experiência prática vivida por quarenta alunos da Escola Municipal Bárbara Andréa. Os estudantes percorreram a área verde preservada que circunda o campus do IFBA em Simões Filho, a única instituição pública instalada dentro de uma APA na Bahia.
Com 3.400 m² de vegetação nativa e cerca de 1 km de percurso da trilha, a APA vem sendo utilizado há mais de duas décadas como ambiente de educação ambiental, pesquisa e vivência direta com o território que abastece a Região Metropolitana de Salvador. A trilha passa por pontos estratégicos ligados à biodiversidade local e aos mananciais que integram a bacia do Rio Joanes, responsável por 40% do abastecimento de água da capital.
Para o gestor da APA, Geneci Braz, iniciativas como essa fortalecem a proteção dos ecossistemas e reforçam o papel do IFBA no processo de gestão participativa. “A bacia do Joanes nasce em São Francisco do Conde e atravessa mais sete municípios até Lauro de Freitas. É uma área extremamente importante porque garante quase metade do abastecimento de Salvador e região. A presença do IFBA nesse território contribui para ampliar o cuidado com os ambientes naturais, especialmente em uma região marcada por fortes atividades humanas. Essa integração fortalece a gestão compartilhada e aproxima a comunidade da conservação”, afirma.
O campus integra ainda o Conselho Gestor da APA desde sua criação e, há 15 anos, desenvolve ações permanentes de educação ambiental. À frente do projeto de extensão Guardiões da APA, o professor Alisson Lima, docente da área ambiental e conselheiro da unidade de conservação, explica que a trilha funciona como uma atividade ecopedagógica que integra teoria e prática.
“Levamos nossos alunos para viver o território. Trabalhamos a proteção dos mananciais, dos rios Joanes e Ipitanga, e conscientizamos sobre a fauna, a flora e a história desse lugar, que envolve comunidades tradicionais e quilombolas, guardiãs dessa biodiversidade. Eles pesquisam, constroem mapas, produzem cartografia social e se reconhecem como parte desse ambiente. Sempre digo que só protegemos o que conhecemos, e o projeto nasce dessa ideia, aproximar o estudante do real, de uma caminhada ao ar livre que passa pela nascente do Rio Ipitanga e por trechos do Rio Joanes que cortam o campus”, explica.
A iniciativa ganhou força quando estudantes do próprio IFBA, inicialmente das engenharias, se interessaram em ampliar o projeto. Ângelo Leonardo, aluno de Engenharia Mecânica e um dos membros fundadores dos Guardiões da APA, afirma que a trilha também é um instrumento de comunicação com a comunidade do entorno.
"A APA tem uma grande importância de vegetação e fauna, justamente porque ela passou por vários processos de revitalização. A comunidade precisa ser alertada e comunicada sobre a importância dessa fauna e flora, onde existem animais silvestres que residem aqui e sobrevivem dessa vegetação, que tem grande importância para a cadeia alimentar desse ambiente", reforçou Leonardo. Ele acrescenta que existe ainda uma vegetação de grande importância cultural e ambiental, com plantações que possuem poder medicinal, como o barbatimão ou a canela de velho.
A diversidade de espécies que habita a área impressiona até estudantes mais experientes. Jorge Vilemar, também integrante do grupo, ressalta a diversidade de espécies que podem ser observadas durante o percurso. “A fauna inclui sabiás, lavadeiras mascaradas, beija-flores, gaviões, corujas, gambás, tatus, além de répteis e anfíbios como lagartos, cobras, rãs, iguanas e até jacaré-de-papo-amarelo. Tudo isso depende dos corpos d’água que existem aqui. Esse espaço é muito rico e merece ser conhecido e protegido”, afirmou.
Segundo os estudantes, o histórico da área ajuda a explicar por que a trilha tem papel tão importante na formação ambiental das novas gerações. Vilemar recorda que, antes da criação da APA, em 1999, a região era usada para "caça, exploração de areia e queimadas descontroladas, o que comprometeu a biodiversidade por décadas". Com o decreto de proteção, práticas de desmatamento e retirada de recursos naturais tornaram-se ilegais, permitindo que o ambiente se regenerasse. Hoje, placas educativas reforçam regras básicas para manter o espaço preservado, desde o descarte adequado de resíduos até a necessidade de entrar sempre acompanhado na trilha.
Além de instrumento pedagógico, a trilha funciona como porta de entrada para que estudantes do ensino fundamental, como os da Escola Bárbara Andréa, compreendam o valor dos ecossistemas que garantem água, biodiversidade e equilíbrio para toda a região metropolitana. Para Alisson Lima, esse é o grande sentido da atividade. “Quando o estudante entende o território, ele se torna um guardião dele. Essa é a essência da educação ambiental que praticamos aqui", salientou.
A experiência, que une história, ciência, cultura e cuidado, reforça o papel do Inema na gestão das unidades de conservação e evidencia o valor de iniciativas que mobilizam escolas, instituições públicas e comunidades no fortalecimento da consciência ambiental.