O inverno na Bahia começou neste domingo (21), às 05h24 da manhã. Para este ano, os especialistas do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) apontam que a estação deve ser marcada pela influência do El Niño, que atua no Oceano Pacífico e tende a favorecer temperaturas acima da média no estado, principalmente na segunda metade do período. Mas, as mudanças trazidas pelo novo ciclo vão além dos termômetros. Em um estado que reúne biomas e ecossistemas como Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Restinga e Manguezal, o inverno gera respostas climáticas diferentes entre o litoral e o interior. Isso, por sua vez, influencia as paisagens, ciclos reprodutivos e estratégias de sobrevivência de uma parte importante da flora e da fauna.
O coordenador de Estudos de Clima e Projetos Especiais do instituto, Aldirio Almeida, explica que o inverno na Bahia é controlado pelos sistemas de alta pressão subtropical do Atlântico Sul. Esses sistemas atmosféricos, por onde o ar desce e se espalha, reforçam os ventos que vão em direção ao sudeste e criam um padrão climático quase oposto entre o litoral e o interior do estado. No Semiárido baiano, o inverno é um período de seca, com pouca chuva e uma grande diferença de temperatura entre o dia e a noite. Já no litoral, especialmente em Salvador e no Recôncavo, o inverno é o período do ano com mais intensidade de chuvas, devido à umidade trazida pelos ventos e à interação com o relevo costeiro.
"Há uma grande diferença entre o que acontece no semiárido e no litoral. Enquanto o semiárido passa por uma seca muito forte, o litoral, especialmente em Salvador e no Recôncavo, recebe as maiores chuvas do ano. Isso acontece porque o sistema de alta pressão subtropical do Atlântico Sul e os ventos de sudeste trabalham juntos. Esses ventos trazem umidade para a costa, mas ao mesmo tempo, fazem com que a seca no interior seja ainda mais forte", explica o coordenador.
Esse padrão deve ser reforçado pela atuação do El Niño ao longo dos próximos meses. Apesar da tendência de temperaturas mais altas que a média histórica, o frio intenso e característico dessa época do ano ainda deve ser sentido pelos baianos nos primeiros meses do inverno, com mínimas abaixo dos 10°C em áreas de maior altitude da Chapada Diamantina e do Sudoeste baiano. No Oeste do estado, a marca da estação é a grande amplitude térmica entre madrugadas frias e tardes quentes, enquanto a formação de neblina e nevoeiro é comum em áreas serranas e de vale, onde a umidade combinada à queda de temperatura favorece a condensação na atmosfera.
"A atuação do El Niño neste ano tende a acentuar ainda mais esse contraste, com temperaturas mais altas que a média histórica e impacto direto sobre a intensidade da estiagem no semiárido. Ainda assim, esperamos a ocorrência de temperaturas baixas nestes primeiros dias da estação", completa Aldirio.
Caatinga vive o auge da estiagem e exibe adaptações únicas
A Caatinga, bioma que ocupa a maior parte do território baiano, também é o que experimenta a mudança mais radical com a chegada do inverno. As espécies de plantas do único bioma exclusivamente brasileiro apresentam um conjunto de adaptações sem paralelo entre os ecossistemas tropicais secos do mundo. A flora responde à seca invernal com o fenômeno da deciduidade, onde a maioria das espécies de árvores e arbustos perdem as folhas como mecanismo de redução da perda de água através da transpiração, configurando a paisagem que deu nome ao bioma, "mata branca", em tupi.
A coordenadora de Gestão da Biodiversidade do instituto, Mara Angelica dos Santos, aponta que espécies como a catingueira (Cenostigma pyramidale), o juazeiro (Ziziphus joazeiro), uma das raras espécies que mantêm folhagem durante a seca, a aroeira-do-sertão (Myracrodruon urundeuva) e cactáceas como o mandacaru (Cereus jamacaru) e o facheiro (Pilosocereus pachycladus) revelam estratégias distintas em seus organismos para se adaptar ao período. As cactáceas tornam-se protagonistas na paisagem pela persistência de seus caules, que funcionam como reservatórios de água e fonte de alimento para a fauna durante a estiagem.
"A perda das folhas pelas espécies de árvores e arbustos não é um sinal de degradação, mas uma estratégia evolutiva sofisticada para reduzir a perda de água em um ambiente de estresse hídrico extremo. As cactáceas, por exemplo, funcionam como reservatórios vivos, sustentando parte da fauna durante esses meses mais secos", observa.
No Cerrado, bioma que abrange o Oeste e Sudoeste da Bahia, com importantes remanescentes no extremo sul do estado, o inverno coincide com a estação seca do bioma, marcada por baixa umidade relativa do ar e aumento da suscetibilidade a incêndios, muitos deles provocados pela atividade humana, mas com papel ecológico reconhecido na dinâmica evolutiva do bioma.
A flora do Cerrado exibe no inverno dois comportamentos dominantes. Por um lado, as plantas rasteiras e os pequenos arbustos entram em uma espécie de hibernação, onde a parte visível deles seca e morre para poupar água, mas as raízes continuam vivas debaixo da terra. Paradoxalmente, algumas espécies arbóreas, como o ipê-amarelo (Handroanthus ochraceus) e o ipê-roxo (Handroanthus impetiginosus), florescem exatamente no período de seca e desfolhamento, o que é interpretado como estratégia de maximização da eficiência da polinização: sem folhas competindo pela atenção dos polinizadores, a flor concentra todo o estímulo visual.
"A floração dos ipês durante a seca do Cerrado é um dos fenômenos mais bonitos e também mais estratégicos da nossa flora. Sem a competição visual das folhas, a árvore maximiza a atração de polinizadores justamente no período em que os recursos são mais escassos", destaca Mara Angelica.
Litoral vive a estação de maior umidade e produtividade biológica
Para os remanescentes de Mata Atlântica da Bahia, incluindo as formações de Restinga e Manguezal que recobrem boa parte da costa, o inverno representa a estação chuvosa, o que inverte completamente a lógica de estresse hídrico observada no interior. A precipitação mais abundante estimula ciclos fenológicos de crescimento, frutificação e renovação foliar em parte das espécies.
Nos manguezais, o inverno traz maior aporte de material orgânico e sedimentos pelos rios com vazão elevada, incrementando a produtividade do ecossistema estuarino e acelerando a ciclagem de nutrientes, o que beneficia diretamente a fauna associada. Já nas Restingas baianas, formações que acompanham a faixa litorânea sobre solos arenosos, a maior disponibilidade hídrica favorece a frutificação de espécies como a pitanga (Eugenia uniflora) e o araçá (Psidium sp.).
Salvador apresenta clima tropical úmido e, embora o inverno integre o período chuvoso da capital baiana, os maiores volumes médios de precipitação costumam ser registrados entre os meses de abril e maio. Junho também apresenta acumulados expressivos, mas, ao longo da estação, a tendência é de redução gradual das chuvas, especialmente entre julho e setembro. Ainda assim, o inverno mantém condições de elevada umidade e volumes de precipitação superiores aos observados em grande parte da primavera e do verão.
Esse regime pluviométrico tem implicações diretas sobre a vegetação urbana e os fragmentos de Mata Atlântica que persistem na cidade. Nesses fragmentos, a maior disponibilidade de água favorece a rebrota de espécies caducifólias, a germinação de sementes dispersas no verão e o aumento da cobertura herbácea. A umidade elevada beneficia também briófitas e pteridófitas, grupos vegetais que dependem da água para sua reprodução.
"Mesmo em fragmentos urbanos, como o Parque de Pituaçu, por exemplo, é possível observar os efeitos do inverno chuvoso sobre a vegetação remanescente de Mata Atlântica. A umidade favorece a rebrota, a germinação de sementes e a presença de grupos vegetais mais sensíveis, como briófitas e pteridófitas, que dependem de água para se reproduzir", observa Mara Angelica.
O inverno baiano é, portanto, um evento climático de duas faces. Para os biomas do interior, especialmente a Caatinga e o Cerrado, ele representa o ápice do estresse hídrico, com respostas adaptativas sofisticadas na flora que refletem milhões de anos de coevolução com a sazonalidade. Para o litoral, incluindo Salvador e os ecossistemas costeiros associados, o inverno é uma estação marcada pela elevada umidade e pela manutenção de condições favoráveis à produtividade biológica, ainda que os maiores volumes médios de chuva ocorram, em geral, entre o outono e o início do inverno. Compreender essa heterogeneidade é fundamental para qualquer estratégia de conservação, manejo ou educação ambiental no contexto baiano, e integra as ações de monitoramento climático e de biodiversidade conduzidas pelo Inema ao longo do ano.