No Dia Mundial de Combate à Desertificação, seminário em Juazeiro fortalece construção de estratégias para atualização do Plano Estadual

18/06/2026
No Dia Mundial de Combate à Desertificação, seminário em Juazeiro fortalece construção de estratégias para atualização do Plano Estadual

A desertificação é um dos principais desafios socioambientais enfrentados pelas regiões semiáridas do planeta e tem se tornado ainda mais preocupante diante dos efeitos das mudanças climáticas. Na Bahia, onde mais de 80% do território está inserido em áreas suscetíveis ao fenômeno, o tema ganhou destaque nesta quarta-feira (17), Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, durante seminário promovido pela Secretaria do Meio Ambiente (Sema), em Juazeiro.

Realizado em parceria com a Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), o Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), a Agência Regional de Mobilização Social pela Convivência com o Semiárido (Agendha) e a Escola Família Agrícola do Sertão (EFASE), o encontro reuniu mais de 100 pessoas, entre representantes do poder público, instituições de pesquisa, organizações da sociedade civil, movimentos sociais, estudantes e comunidades para discutir estratégias de enfrentamento à degradação das terras e fortalecer ações de convivência sustentável com o Semiárido.

Durante a abertura, o superintendente de Políticas e Planejamento Ambiental da Sema, Luiz Araújo, destacou a importância de construir soluções a partir da escuta das populações que vivem nos territórios afetados. Em uma fala marcada por referências à própria história familiar no Semiárido, ele defendeu o fortalecimento dos conhecimentos acumulados pelas comunidades locais.

"As raízes do problema também são as raízes da solução. Não estamos aqui para trazer respostas prontas, mas para construir alternativas junto com as pessoas que vivem nesses territórios e conhecem sua realidade", afirmou.

O seminário também integra o processo de atualização do Plano de Ação Estadual de Combate à Desertificação da Bahia (PAE-BA), instrumento que orienta as ações de prevenção, mitigação e recuperação de áreas suscetíveis à desertificação no estado.

Durante a programação, o diretor de Políticas e Planejamento Ambiental da Sema, Tiago Porto, apresentou o panorama das políticas estaduais relacionadas ao tema e destacou que as mudanças climáticas vêm alterando a dinâmica climática da região, exigindo constante atualização das estratégias de enfrentamento à desertificação.

"As áreas de Semiárido estão se expandindo e temos observado regiões cada vez mais secas. Vivemos um cenário de muitas incertezas climáticas, com secas mais prolongadas e chuvas cada vez mais irregulares. Por isso, a atualização do plano é fundamental para incorporar novas realidades, ouvir os territórios e definir ações mais eficazes para enfrentar esse desafio na Bahia", ressaltou.

Durante a manhã, os participantes acompanharam o painel Panorama da Desertificação na Bahia, que reuniu especialistas para discutir os impactos da degradação das terras, as experiências de revisão dos planos estaduais de combate à desertificação no Nordeste e os desafios para a atualização do PAE-BA.

Na ocasião, foram apresentados resultados de estudos sobre a degradação das terras no território baiano, com foco no bioma Caatinga. Os dados indicam que aproximadamente 9 milhões de hectares encontram-se em condições de degradação que variam de moderada a muito alta, com maior concentração no território de identidade do Velho Chico, abrangendo regiões como as bacias de Irecê, Xique-Xique e Barra.

A professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), além de pesquisadora do MapBiomas, Deorgia Souza, destacou que os levantamentos revelam um cenário preocupante para o estado, mas também apontam caminhos para a conservação ambiental.

"Identificamos cerca de 9 milhões de hectares em condições de degradação moderada a muito alta na Bahia. Ao mesmo tempo, os dados mostram que áreas ocupadas por povos e comunidades tradicionais tendem a apresentar menores níveis de degradação, reforçando a importância desses territórios para a conservação da Caatinga", destacou.

Segundo a pesquisadora, fatores como as características dos solos, a baixa pluviosidade observada ao longo das últimas décadas e as condições climáticas relacionadas à disponibilidade hídrica estão entre os principais elementos associados ao avanço da degradação das terras.

Nos últimos anos, o avanço das mudanças climáticas tem ampliado a preocupação com a desertificação. O aumento das temperaturas, a irregularidade das chuvas e a ocorrência de eventos climáticos extremos elevam os riscos para a disponibilidade hídrica, a produção agropecuária e a conservação dos ecossistemas do Semiárido, reforçando a necessidade de ações voltadas à adaptação climática e ao uso sustentável dos recursos naturais.

Além dos debates técnicos, a programação incluiu uma feira de economia solidária com produtos da agricultura familiar e da sociobiodiversidade, apresentações culturais, momentos de mística e valorização da cultura sertaneja, além de espaços voltados à troca de experiências desenvolvidas nos territórios do Semiárido. A proposta foi promover uma imersão na realidade da região, reunindo conhecimento científico, saberes populares e iniciativas concretas de convivência com as condições climáticas locais.

No período da tarde, o seminário promoveu o Carrossel de Experiências, metodologia participativa que permitiu a circulação dos participantes por diferentes salas temáticas organizadas a partir dos cinco eixos estruturantes do PAE-BA. As discussões abordaram temas como gestão sustentável das terras, adaptação às mudanças climáticas, pesquisa e inovação, melhoria das condições de vida das populações afetadas e fortalecimento da governança institucional.

Para Adriana Nascimento, representante do IRPAA e integrante da Comissão Nacional de Combate à Desertificação, a atualização do plano estadual representa uma oportunidade para contemplar a diversidade dos territórios baianos e fortalecer a participação social na construção das políticas públicas.

"A Bahia é um estado muito grande e possui características muito diversas. É importante que esse processo considere as demandas dos diferentes territórios para que o plano represente efetivamente a realidade baiana", salientou.

A construção participativa do plano vem sendo realizada por meio de diferentes estratégias de escuta social. Na terça-feira (16), equipes da Sema realizaram uma visita técnica à comunidade de fundo de pasto Malhada de Areia, em Juazeiro, onde dialogaram com moradores e conheceram experiências locais voltadas à convivência com o Semiárido e ao enfrentamento dos processos de degradação das terras. As contribuições levantadas durante a atividade também serão incorporadas ao processo de atualização do PAE-BA.

A coordenadora da Unidade Regional Sertão do São Francisco do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), Manoela Bezerra, também ressaltou a importância da participação do órgão no processo.

"O tema da desertificação está diretamente relacionado à atuação do Inema. Estar aqui nos permite fortalecer nossas ações e ampliar o diálogo com as comunidades e territórios mais afetados por esse processo", pontuou.

As contribuições levantadas durante o seminário servirão de subsídio para a Oficina de Atualização do Plano de Ação Estadual de Combate à Desertificação da Bahia, que será realizada nesta quinta-feira (18), no Espaço Plural da Univasf. A atividade dará continuidade às discussões iniciadas no seminário e reunirá representantes de instituições públicas, organizações da sociedade civil, pesquisadores e demais parceiros para revisar propostas, aperfeiçoar diretrizes e definir ações prioritárias para o enfrentamento da desertificação no estado.

A expectativa é que os resultados das oficinas contribuam para a consolidação de uma nova versão do PAE-BA, fortalecendo as estratégias de prevenção, mitigação e recuperação de áreas degradadas e ampliando a capacidade de adaptação dos territórios baianos diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas.

Fonte
Valquiria Siqueira - Ascom Sema/Inema
Galeria: