Grupo, de maioria quilombola, conhece a expografia dedicada à trajetória de Mãe Stella e ao protagonismo feminino nas religiões de matriz africana.
Com olhares atentos e curiosos, um grupo de estudantes do curso de Museologia da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) participou, na tarde desta terça-feira (2), de uma visita guiada ao Memorial das Matriarcas Odé Kayodé, no Centro Histórico de Salvador. Inaugurado há apenas seis dias, o Memorial ocupa a casa onde nasceu Mãe Stella de Oxóssi, primeira yalorixá homenageada no espaço criado para reverenciar as matriarcas das religiões de matriz africana.
Formado majoritariamente por estudantes quilombolas e oriundos da zona rural do Recôncavo, o grupo iniciou a visita na sala que reúne fotografias emblemáticas de Mãe Stella, registradas pelas lentes de Mario Cravo Neto, Agenor Gondim e outros fotógrafos. As imagens retratam momentos marcantes, como a chegada da ialorixá ao Benin e encontros com Jorge Amado, Carybé e Pierre Verger.
A emoção tomou conta do grupo ao chegar ao espaço que simboliza um roncó, um dos ambientes mais sagrados de um terreiro, destinado aos assentamentos dos orixás. Ali, a estudante Valtenora Conceição não conteve as lágrimas. “Estou emocionada porque sou filha de Ketu, de uma nação que muitas vezes é criticada, mas que resiste e se reinventa. Falar de Mãe Stella e ter a oportunidade de conhecer este acervo, com toda a representatividade que carrega… é arrebatador. Fala de Oxóssi, meu rei. É emocionante”, afirmou.
Toda a expografia do Memorial foi concebida em consonância com os fundamentos da nação Ketu. “Cada objeto e cada elemento exposto foram autorizados e cuidadosamente acompanhados por Mãe Ana de Xangô, atual ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá”, destacou a diretora de Museus do IPAC, Adriana Cravo. Ao rememorar a trajetória de Mãe Stella, Cravo enfatizou o papel do Memorial na reafirmação da herança ancestral afro-baiana.
“O Memorial é um espaço de reverência às matriarcas, fundamentais para a valorização das religiões de matriz africana. Em um momento de tanta intolerância religiosa, machismo e violência contra as mulheres, este lugar se apresenta como um contraponto, alinhado à luta antirracista e à representatividade de lideranças femininas. Mãe Stella é a primeira homenageada, idealizou este legado, e outras virão”, afirmou.
Protagonismo feminino
O protagonismo feminino, conceito central do Memorial das Matriarcas, dialoga diretamente com uma exposição curricular que está sendo desenvolvida por estudantes de Museologia da UFRB. “Os alunos estão pesquisando e escrevendo sobre mulheres, tanto na perspectiva religiosa quanto na do trabalho. O tema das matriarcas se conecta ao projeto de exposição deles e à reflexão sobre organização museológica, ações antirracistas e valorização do protagonismo feminino, muito presente na vida do Recôncavo. Foi uma visita extremamente rica”, explicou a professora Viviane Santos, vice-coordenadora do curso.
Fundamentado nos princípios da museologia social e comunitária, o Memorial coloca as comunidades tradicionais de terreiro no centro das ações de preservação e difusão de saberes, práticas e objetos simbólicos, fortalecendo a memória das matriarcas das casas primazes do candomblé. A iniciativa é do Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura (SecultBA), via Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), e da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais (Sepromi).
O espaço integra o complexo museal do Solar Ferrão, localizado na Rua Gregório de Matos, 45, no Pelourinho. Até a reabertura do Solar, prevista para janeiro de 2026, o acesso ao Memorial será feito pela Ladeira do Ferrão. O funcionamento é de terça a sábado, das 10h às 17h.
Ascom