Estudantes de Museologia da UFRB visitam o recém-inaugurado Memorial das Matriarcas

03/12/2025
Visita de estudantes da UFRB ao Memorial das Matriarcas
Foto: Fernando Barbosa/IPAC

Grupo, de maioria quilombola, conhece a expografia dedicada à trajetória de Mãe Stella e ao protagonismo feminino nas religiões de matriz africana.

Com olhares atentos e curiosos, um grupo de estudantes do curso de Museologia da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) participou, na tarde desta terça-feira (2), de uma visita guiada ao Memorial das Matriarcas Odé Kayodé, no Centro Histórico de Salvador. Inaugurado há apenas seis dias, o Memorial ocupa a casa onde nasceu Mãe Stella de Oxóssi, primeira yalorixá homenageada no espaço criado para reverenciar as matriarcas das religiões de matriz africana.

Formado majoritariamente por estudantes quilombolas e oriundos da zona rural do Recôncavo, o grupo iniciou a visita na sala que reúne fotografias emblemáticas de Mãe Stella, registradas pelas lentes de Mario Cravo Neto, Agenor Gondim e outros fotógrafos. As imagens retratam momentos marcantes, como a chegada da ialorixá ao Benin e encontros com Jorge Amado, Carybé e Pierre Verger.

A emoção tomou conta do grupo ao chegar ao espaço que simboliza um roncó, um dos ambientes mais sagrados de um terreiro, destinado aos assentamentos dos orixás. Ali, a estudante Valtenora Conceição não conteve as lágrimas. “Estou emocionada porque sou filha de Ketu, de uma nação que muitas vezes é criticada, mas que resiste e se reinventa. Falar de Mãe Stella e ter a oportunidade de conhecer este acervo, com toda a representatividade que carrega… é arrebatador. Fala de Oxóssi, meu rei. É emocionante”, afirmou.

Toda a expografia do Memorial foi concebida em consonância com os fundamentos da nação Ketu. “Cada objeto e cada elemento exposto foram autorizados e cuidadosamente acompanhados por Mãe Ana de Xangô, atual ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá”, destacou a diretora de Museus do IPAC, Adriana Cravo. Ao rememorar a trajetória de Mãe Stella, Cravo enfatizou o papel do Memorial na reafirmação da herança ancestral afro-baiana.

“O Memorial é um espaço de reverência às matriarcas, fundamentais para a valorização das religiões de matriz africana. Em um momento de tanta intolerância religiosa, machismo e violência contra as mulheres, este lugar se apresenta como um contraponto, alinhado à luta antirracista e à representatividade de lideranças femininas. Mãe Stella é a primeira homenageada, idealizou este legado, e outras virão”, afirmou.

Protagonismo feminino

Estudantes de museologia da UFRB visitam Memorial das Matriarcas
Estudantes da UFRB visitam sala com fotos emblemáticas de Mãe Stella de Oxóssi, no Memorial das Matriarcas. Foto: Fernando Barbosa/IPAC

O protagonismo feminino, conceito central do Memorial das Matriarcas, dialoga diretamente com uma exposição curricular que está sendo desenvolvida por estudantes de Museologia da UFRB. “Os alunos estão pesquisando e escrevendo sobre mulheres, tanto na perspectiva religiosa quanto na do trabalho. O tema das matriarcas se conecta ao projeto de exposição deles e à reflexão sobre organização museológica, ações antirracistas e valorização do protagonismo feminino, muito presente na vida do Recôncavo. Foi uma visita extremamente rica”, explicou a professora Viviane Santos, vice-coordenadora do curso.

Fundamentado nos princípios da museologia social e comunitária, o Memorial coloca as comunidades tradicionais de terreiro no centro das ações de preservação e difusão de saberes, práticas e objetos simbólicos, fortalecendo a memória das matriarcas das casas primazes do candomblé. A iniciativa é do Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura (SecultBA), via Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), e da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais (Sepromi).

O espaço integra o complexo museal do Solar Ferrão, localizado na Rua Gregório de Matos, 45, no Pelourinho. Até a reabertura do Solar, prevista para janeiro de 2026, o acesso ao Memorial será feito pela Ladeira do Ferrão. O funcionamento é de terça a sábado, das 10h às 17h.

Ascom

 

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