Boa Morte ganha reedição de livro e DVD

14/06/2011
O Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), autarquia da Secretaria de Cultura do Estado (SecultBA), já finalizou a nova edição do livro e do videodocumentário-DVD “Festa da Boa Morte”.

A Festa da Boa Morte foi reconhecida oficialmente como Patrimônio Cultural através de decreto do governador Jaques Wagner em junho do ano passado (2010) e, por isso, o IPAC elaborou o livro, já que tem obrigação regimental de dar conhecimento público das pesquisas, textos e conhecimentos científicos que a sua equipe técnica multidisciplinar produz. O livro trás trechos do dossiê do IPAC que possibilitou o registro da Festa como patrimônio cultural imaterial.

A iniciativa integra a série de publicações do IPAC, em parceria com a Fundação Pedro Calmon (FPC), que possibilita a difusão da memória e reflexões sobre bens culturais intangíveis da Bahia, garantindo a salvaguarda de manifestações, como a Festa da Boa Morte, que são patrimônios culturais do povo baiano.

De acordo com o diretor geral do IPAC, Frederico Mendonça, a série intitulada ‘Cadernos do IPAC’ reúne trabalhos desenvolvidos pelas equipes de especialistas da instituição, além de trechos dos dossiês dos bens intangíveis. “O livro e o DVD colaboram também com a formulação da política pública de educação patrimonial já que são distribuídos em bibliotecas e escolas”, afirma Mendonça. O livro e vídeodocumentário foram distribuídos nas redes públicas de ensino, faculdades, universidades e entidades artístico-culturais.

O livro é composto por 124 páginas, 18 fotografias, no formato de 21 por29,7 centímetros, fechado. Dentre os textos e capítulos estão um artigo sobre Metodologia de autoria da coordenadora de Educação Patrimonial do IPAC, Ednalva Queiroz, um texto intitulado “Cachoeira: ponto de confluência do Recôncavo Baiano” de Magnair Barbosa, que também escreve o artigo “Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte: entre o Aiyê e o Orum”. Magnair contribui ainda com “Organização hierárquica e relação de poder”. A publicação ganha destaque com artigo do conceituado antropólogo e museólogo Raul Lody, intitulado “Abiyamo Obirin Di Oku: mãe, mulher, morte”. O livro é finalizado com os depoimentos das irmãs da Irmandade da Boa Morte e com o parecer técnico que permitiu o registro oficial da Festa como Patrimônio Imaterial.

POLÍTICA PÚBLICA de PATRIMÔNIO CULTURAL - Nos últimos quatro anos a Bahia se destacou como referência nacional por trabalhos que visam a salvaguarda dos seus patrimônios imateriais. Os lançamentos do IPAC são mais uma ação que reafirma essa posição.

“Através de decretos, o governador já possibilitou, de 2007 a2010, os reconhecimentos de Patrimônios Imateriais da Festa da Boa Morte em Cachoeira, Carnaval de Maragojipe nesta cidade e Festa de Santa Bárbara em Salvador”, relata o diretor Frederico Mendonça. Em 2011 foi a vez do lançamento do livro sobre o ‘Desfile dos Afoxés’ que também se tornou Patrimônio Imaterial da Bahia.

 

A distinção de imaterial ou intangível começou a ser utilizada a partir de 1997 pela Organização das Nações Unidas para Educação Ciência e Cultura (Unesco). Modos de fazer, ofícios tradicionais, celebrações, festas, danças e outras manifestações são exemplos de bens imateriais. O patrimônio imaterial abrange tradições que determinado grupo pratica e deseja preservar em respeito à ancestralidade, à importância do ato e com objetivo de resguardá-las.

“Com o registro oficial esses patrimônios imateriais passam a ter prioridade nos programas e linhas de financiamento cultural municipais, federais e até internacionais, facilitando a preservação dessas tradições”, enfatiza o gerente de Patrimônio Imaterial do IPAC, Mateus Torres.

Os estudos para o registro de um bem imaterial duram de seis meses até dois anos, a depender do tema pesquisado. “O dossiê deve provar, através de reconstituição histórica, com registros documentais, imagéticos e depoimentos, que é um bem a ser considerado Patrimônio do Estado e não somente de uma localidade”, esclarece Torres.

As prefeituras são responsáveis por patrimônios de relevância municipal, o governo estadual por bens de representatividade para a Bahia, enquanto o governo federal fica com tutela dos bens de proeminência nacional. Mais informações são obtidas no site www.ipac.ba.gov.br ou na Gepel/IPAC via telefone (71) 3116-6741.

BOX opcional 01 – FESTA DA BOA MORTE: acontece anualmente na cidade de Cachoeira, a 110 km de Salvador, em meados do mês de agosto. Mas, a história da confraria religiosa da Boa Morte é mais antiga e segundo estima-se foi criada na capital em finais do século 18 ou início do 19, mas ao se sentir pressionada pelo general Madeira de Mello, que então comandava a cidade, transferiu-se para Cachoeira, que por cerca de três séculos foi a segunda mais importante cidade da Bahia. A irmandade é constituída por mulheres negras, e a festa de três dias realizada pelas irmãs obteve expressão internacional, talvez pelo forte apelo, características e contrastes racial, étnico e de gênero, em uma sociedade escravagista e patriarcal. Segundo estudos, a irmandade da Boa Morte manteve estreito contato com a do Rosário da Barroquinha. Pesquisas afirmam que os atos litúrgicos originais da Irmandade de cor da Boa Morte eram realizados na Igreja da Ordem Terceira do Carmo de Cachoeira, templo tradicionalmente freqüentado pelas elites locais. Posteriormente as irmãs transferiram-se para a Igreja de Santa Bárbara, da Santa Casa da Misericórdia, onde existem imagens de Nossa Senhora da Glória e da Boa Morte. Desta, mudaram-se para a Igreja do Amparo demolida em 1946. Daí saíram para a Igreja Matriz, sede da freguesia, indo depois para a Igreja da Ajuda. Não se garante o início exato da Irmandade, mas estudos apontam para o ano de 1820, na Igreja da Barroquinha, tendo sido os escravos e ex-escravos da nação Jeje que se mudaram para Cachoeira, os responsáveis pela sua organização. Outros ressaltam a mesma época, divergindo quanto à nação das pioneiras, que seriam alforriadas Ketu. De qualquer modo essas confrarias cultuavam santos católicos e orixás patronos dos seus afiliados. Ao tempo que aparentemente atendiam exigências eclesiásticas e legais, constituíam-se em verdadeiras associações de classe, reservadas, e por trás de suas aparências de fachadas davam curso aos interesses secretos dos seus membros. No caso da Boa Morte, integrada por mulheres bastante simples e quase todas idosas - entre 50 e 70 anos - os recursos arrecadados em vida buscaram sempre, a concessão de um funeral decente, cujo preparo, face à dupla militância religiosa de suas adeptas, exige rigor e entendimento, além de um certo pecúlio fúnebre. Durante o mês de agosto, uma longa programação pública atrai a Cachoeira gente de todos os lugares, com ceias, cortejos, missas, procissões, e até samba-de-roda. A festa tem calendário que inclui a confissão dos membros na Igreja Matriz, cortejo representando o falecimento de Nossa Senhora, uma sentinela, seguida de ceia branca, composta de pão, vinhos e frutos do mar obedecendo a costumes religiosos que interditam o acesso a dendê e carne na sexta-feira dia dedicado a Oxalá, criador do Universo, e procissão do enterro de Nossa Senhora da Boa Morte, onde as irmãs usam trajes de gala. A celebração da assunção de Nossa Senhora da Glória, seguida de procissão, em missa realizada na Matriz com música e dança que se prologam por diversos dias, a depender dos donativos arrecadados e das condições de pecúlio do ano.

 

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