Técnica de restauração de azulejos é considerada única na Bahia

27/05/2011

Os azulejos da Casa das Sete Mortes, datados dos séculos XVII e XIX receberam cuidados especiais de desinfecção de microorganismos, reintegração de lacunas e confecção de novas peças graças à restauração do IPAC


 


O Instituto do Patrimônio Artístico Cultural da Bahia (IPAC), autarquia vinculada à Secretaria de Cultura do Estado (SecultBA) restaurou no ano passado (2010) a Casa das Sete Mortes, considerada com um dos mais significativos imóveis da área tombada pelo governo federal do Centro Histórico de Salvador (CHS). No entanto, a maior parte das pessoas não sabe o esforço técnico necessário para recuperar um monumento como esses. A importância da casa é tanta que ela também é tombada individualmente como Patrimônio Nacional pelo Ministério da Cultura (MinC).



Uma das etapas mais curiosas que diferenciou esta obra foi a restauração e reintegração dos azulejos existentes nas paredes da edificação. O processo de restauro foi realizado em três longas fases com a participação de dezenas de técnicos especializados e operários.



Tudo começou pela fachada de azulejos originários do século 19 aplicados na parede da frente da casa. Foi necessário fazer a dessalinização deles para retirada dos sais marinhos que atacam as peças. Depois foi feita a desinfecção de microorganismos, quando os azulejos foram levados ao forno e colocados a uma temperatura de 400ºC para matar os fungos e cianobactérias, que atacavam as peças.



Outro processo importante, pois foi um tratamento inusitado, foi a reintegração cromática a quente, ou seja, a complementação das partes e lacunas dos azulejos quebrados ou inexistentes que são reintegradas com tinta para cerâmica e levadas ao forno. O processo de reintegração de azulejos mais conhecido e utilizado sempre foi feito a frio, como uma pintura normal. Mas, nessa obra do IPAC os técnicos utilizaram tinta para cerâmica na recomposição das falhas, efetuando queima a 900º juntamente com a pintura original, criando assim um corpo uno e, portanto, mais resistente e duradouro. Dessa forma, a parte restaurada se integra com a pintura original, beneficiando as peças, fazendo com que elas sejam protegidas, preservadas por mais tempo, otimizando os recursos financeiros aplicados.



“A técnica é a mesma da cerâmica tradicional, mas essa foi a primeira vez que se utilizou reintegração de lacunas na Bahia. A equipe técnica da empresa Sertenge discutiu muito com a fiscalização do IPHAN e do IPAC antes de chegar a esta ideia, ou seja, foi um trabalho coletivo. Em toda peça restaurada deixamos os vestígios das modificações”, comenta Orlando Ramos restaurador responsável por estas intervenções de restauro artístico na Casa das Sete Mortes.



Já com os azulejos internos do pátio – os mais antigos do imóvel e originários do século 17 – passaram por outro processo de recuperação. Foram descobertos cerca de 7,3 mil fragmentos de azulejos que estavam enterrados no chão da casa por ocupantes anteriores do imóvel para servir de contra-piso. “Mas era necessário recuperá-los e colocá-los de volta às paredes”, diz Orlando Ramos.



Daí, foi escolhida para recuperação desses fragmentos outra técnica de restauração, com a complementação de massa específica. “Reintegramos então, as falhas a frio, na técnica conhecida como ‘pontilhismo’, que deixa patente a intervenção dos restauradores”, completa o especialista. Para se ter ideia do trabalho, gastaram-se três meses somente para a realização de testes de procedimentos com as tintas a frio e cerâmicas, no intuito de encontrar as técnicas e tonalidades mais adequadas.



O projeto de restauração integrou a iniciativa de recuperar cinco monumentos do CHS. A Casa das Sete Mortes, o Palácio Rio Branco e a Igreja do Boqueirão, já inaugurados pelo governador Jaques Wagner no ano passado (2010), além da Igreja e o Cemitério do Pilar e a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, esses últimos ainda em obras.



Para a restauração da Casa das Sete Mortes foram investidos cerca de R$ 3,1 milhões. A verba foi do Programa de Desenvolvimento do Turismo no Nordeste (Prodetur 2) do Ministério do Turismo, através de financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), com a contrapartida do Governo da Bahia e aporte do BNB (Banco do Nordeste) de um terço do valor total, com repasses da secretaria estadual de Turismo e coordenação geral do IPAC.



Fernando Strouri, turista de Brasília em passeio pelo Pelourinho ontem com sua esposa Márcia, ficou impressionado com os detalhes da restauração e a riqueza arquitetônica do imóvel. “Não entendo de restauração, mas é importante saber o que esta sendo feito dos nossos bens culturais, essa casa é maravilhosa e todo mundo deveria ver de perto”, diz Fernando. Desde há 100 anos atrás a casa já era de propriedade da Casa Pia e Órfãos de São Joaquim, e visitas podem ser agendadas através dos telefones dessa entidade filantrópica sediada em Salvador: (71) 3313.5783 e 3313.5783.



BOX opcional: Mito e Realidade - Dentre as várias lendas que existem sobre o nome Casa das Sete Mortes, o real está documentado no Arquivo Público da Bahia registrando que em 1756 foram ali assassinados a facadas o Padre Manuel de Almeida, dois escravos negros e um homem pardo liberto. A apuração durou anos, variando os acusados, sem punir ninguém.  Localizada na Rua do Passo n°24, a casa tem, na fachada principal, sete entradas, três portas na parte inferior e quatro janelas na parte superior. Foi tombada em 1943, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), como patrimônio nacional. O solar tem grande valor histórico e arquitetônico, por ter influências construtivas ibéricas, inglesas e até mouras. Com dois pavimentos, a casa possui um pátio interno revestido de azulejos seiscentistas, fachada constituída de azulejos portugueses do século 19, vestíbulos de azulejos também do séc. 19 e janelas com ornamentos portugueses, entre outros ricos detalhes.



Assessoria de Comunicação IPAC – em 27.06.2011 – Jornalista responsável Geraldo Moniz (drt-ba 1498) – (71) 8731- 2641 – contatos: (71) 3117-6490, ascom.ipac@ipac.ba.gov.br – Facebook: Ipacba Patrimônio – Twitter: @ipac_ba