19/07/2016
“Trabalhei nesse serviço com dizesseis ano de idade. Vim dexá depois que a vista incurtô que num dava pra rastejá um rês den’do mato, num dava pa inxergá, numa bichera, se tinha bicho vivo ou se era morto, com idade de sessenta e oito ou setenta. Agora, trabaiá passano privação, purque os home num pagava bem, os home num pagava bem o sirviço da gente. Só trabaiava pa matá, pa insculhambá; agora, num fazia questão de vê a gente dispido e nem cum fome, e nem nada disso. Era uns home que... sem dó. E a gente... Agora, eu num sei quem fez maiô negócio, se foi eles ou se foi eu, né? Entregá a Deus e dexá pra lá.”
Vaqueiro Fiel/ Jeremoabo
O estado da Bahia foi o primeiro no Brasil a reconhecer o ofício do vaqueiro como patrimônio cultural (em agosto de 2011), através do Conselho e da Secretaria Estadual de Cultura. Como parte das ações para reforçar esse reconhecimento, a Galeria do Solar Ferrão (Pelourinho) recebe a exposição fotográfica “Imagens dos Vaqueiros da Bahia” que fica aberta ao público de 20/07 a 14/08. Com seu gibão e chapéu de couro, alpercatas, alforjes, surrões e facão sempre amolado, o vaqueiro é uma figura emblemática do sertão baiano, do nordeste e de outras regiões do país.
A exposição é composta por imagens resultantes do projeto “Histórias de Vaqueiros: Vivências e Mitologias”, reunindo 44 fotografias de Josué Ribeiro, Bauer Sá e Elias Mascarenhas, com curadoria de Washington Queiroz. Além das fotografias, a exposição traz ainda reproduções de falas de vaqueiros, com textos que tratam sobre o seu dia a dia, sua relação com o trabalho, com os animais, com o meio ambiente, além de reflexões sobre a vida, o amor e a morte, sempre em sua singular linguagem.
Estas imagens trazem à tona o não reconhecimento com que têm sido tratados os brasileiros que viveram e vivem nas brenhas, nos matos, no território rural. Protagonista do maior fenômeno sócio-cultural-econômico de fixação e unidade em toda a região Nordeste e em outras regiões do país, o vaqueiro foi o bandeirante que pontuou o território baiano com locais de pouso e currais que se transformariam nas primeiras cidades do interior da Bahia e do Nordeste. Para tanto, a partir do século XVI, a “civilização do couro” ou civilização vaqueira criou, recriou e cria saberes, procedimentos.
O ofício - Em 09 de agosto de 2011, através do decreto nº 13.150, o Oficio de Vaqueiro tornou-se Patrimônio Imaterial da Bahia, inaugurando o livro de Registro Especial dos Saberes e Modos de Fazer, respaldado pela Lei Estadual nº 8.895/2003, regulamentada pelo decreto nº 10.039/2006, instituindo normas de proteção e estímulo à preservação do Patrimônio Cultural da Bahia. O Oficio de Vaqueiro foi o primeiro registrado no Livro de Registro Especial dos Saberes e Modos de Fazer, portando, histórico.
No entendimento do Conselho e da Secretaria Estadual de Cultura, o ofício do vaqueiro comporta toda uma significativa dimensão cultural, pois reúne valores, comportamentos, simbologias, ritos, ideários, modos de vestir e se alimentar, sonoridades de trabalho etc. A atuação dos vaqueiros teve e continua tendo um relevante papel na configuração territorial e cultural da sociedade brasileira e, em particular da Bahia.
SERVIÇO:
MOSTRA: “Imagens dos Vaqueiros da Bahia”
Data: 20/07 a 14/08
Local: Centro Cultural Solar Ferrão
Endereço: Rua Gregório de Matos, 45, Pelourinho, Salvador
Tel.: (71) 3116- 6743
Visitação: terça a sexta, das 12h às 18h; sábados, domingos e feriados, das 12h às 17h
Centro Cultural Solar Ferrão
Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o casarão construído entre o fim do século XVII e início do XVIII possui seis andares e abriga a Galeria Solar Ferrão, o Museu Abelardo Rodrigues e quatro coleções: a coleção de Arte Popular (ampliada pela arquiteta Lina Bo Bardi) que reúne peças representativas da cultura popular do Nordeste coletadas entre as décadas de 50 e 60; a Coleção de Arte Africana Claudio Masella, que mostra a riqueza estética e a diversidade da produção cultural africana do século XX; a Coleção de Instrumentos Musicais Walter Smetak, suíço que marcou a história da música brasileira, influenciando movimentos como a Tropicália; e a Coleção de Instrumentos Musicais Tradicionais Emília Biancardi, que mostra um acervo dividido em três módulos temáticos: Instrumentos Musicais do Mundo, Instrumentos Musicais Indígenas e Instrumentos Musicais Africanos e Afro-Brasileiros. O Solar Ferrão integra os espaços administrados pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), da Secretaria de Cultura do Estado (SecultBA).
Núcleo de Comunicação - Ascom Dimus
Diretoria de Museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia
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