Com nova proposta curatorial, o MAB rompe com a estética elitista do século XIX e amplia representatividade em novas exposições
O Museu de Arte da Bahia (MAB) está passando por uma profunda transformação em sua forma de expor e dialogar com o público. Com ambientes que reproduziam a atmosfera de residências aristocráticas e um acervo que remetia aos costumes da elite baiana do século XIX, o museu agora trilha um novo caminho, mais inclusivo e conectado com as demandas do presente.
Durante anos, a forma de expor o acervo do museu, evocava o universo doméstico das elites, com destaque para coleções como a do ex-governador Góes Calmon, gerando curiosidade e até confusão sobre a real função histórica do prédio. “O MAB está se abrindo para novas frentes, e furar bolhas, unindo o público que acompanhava o museu quando ele tinha uma vertente mais colonial e buscando trazer aqueles que antes não se sentiam representados”, diz Pola Ribeiro, diretor do MAB.
Após a pandemia da Covid-19, uma reforma estrutural no telhado forçou a suspensão da antiga exposição. Com a interrupção, abriu-se também a oportunidade para repensar a missão do museu no século XXI. A percepção crescente de que a expografia anterior já não representava a diversidade de públicos da Bahia motivou uma transformação na curadoria do espaço. A proposta agora é ampliar o discurso e valorizar os agentes que historicamente foram invisibilizados — incluindo os artesãos, trabalhadores e artistas marginalizados.
A reformulação, iniciada em 2015 com a abertura do auditório para atividades culturais como óperas, capoeira, dança, teatro e música, teve papel central na aproximação do museu com a população. “O MAB não pode ser apenas um espaço de contemplação da elite. Ele precisa refletir as múltiplas Bahias que nos constituem”, afirma a historiadora Camila Guerreiro, integrante da Comissão Curatorial de Acervo do MAB.
Essa movimentação foi fundamental para consolidar um espaço mais democrático, onde diferentes expressões artísticas e culturais ganham visibilidade. Com isso, surgiram também questionamentos sobre a representatividade do acervo e o papel social do museu.
A decisão foi clara: não reabrir o museu com a mesma lógica expográfica. Em vez disso, o MAB buscou parceria com universidades e convidou para compor a nova Comissão Curatorial do Acervo os professores Dilson Midlej e Alejandra Muñoz (professores da Escola de Belas Artes da Arte da Universidade Federal da Bahia - Ufba), Joseania Freitas (professora titular do curso de Museologia da Ufba) e Lysie Reis (professora da Universidade do Estado da Bahia - Uneb), além de Isabel Gouveia (Coordenadora de Educativo) e Celene Sousa (museóloga), ambas do MAB.
O objetivo é fazer uma revisão crítica de como essa coleção pode ser exibida, evidenciando questões relacionadas com preocupações atuais, como representatividade étnica, racial e de gênero. Juntos, eles vêm trabalhando em uma revisão profunda, pautada por uma abordagem contemporânea e crítica.
Entre os marcos dessa nova fase está a exposição sobre o artista Héctor Julio Paride Bernabó – Carybé, que serviu como ponto de partida para aproximar o museu do público local. A mostra foi bem recebida e revelou um movimento importante de identificação dos visitantes com a Bahia retratada por Carybé, fortalecendo o vínculo afetivo com o espaço museal.
A exposição “Vitória, um Corredor de Histórias” chegou para romper com padrões tradicionais, ao colocar no centro da narrativa os trabalhadores do Corredor da Vitória, uma das ruas mais emblemáticas de Salvador. O documentário e a exposição apresentaram os relatos de seis pessoas, compartilhando suas trajetórias e vivências, com o objetivo de democratizar o acesso ao espaço e reafirmar a importância desses profissionais para a construção da história e da identidade do local no qual o MAB está inserido.
A transformação do museu também envolve um esforço para atrair um público mais diverso a exemplo do Programa “Estudantes nos Museus”, parceria entre a Secretaria de Cultura da Bahia (SecultBA), via Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), e a Secretaria de Educação (SEC), com execução da Fundação Luís Eduardo Magalhães (Flem). O Programa visa trazer estudantes da rede estadual para dentro de um espaço ainda pouco explorado por esse público. “Temos testado experiências mais interativas e pensado o museu como um lugar de descoberta para as crianças. A ideia é que elas se sintam parte desse espaço desde cedo”, concluiu Camila.
Sendo assim, é evidente que a proposta do MAB vai além da reestruturação física, trata-se de um novo conceito, com atualização ética e simbólica de seu papel enquanto instituição pública de cultura. Ao revisitar sua própria história e questionar a ausência de determinados grupos e narrativas, o museu marca um novo modo de retratar a arte baiana e o seu compromisso com um acervo vivo e em diálogo constante com a sociedade.
O Museu de Arte da Bahia (MAB) é administrado pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), unidade vinculada à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA). Por: Camila Gomes e Raphael Suzart