Em ação inédita, IPAC promove tombamentos de prédios modernistas e art déco na Bahia

01/06/2010

Enquanto Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras, já têm as suas edificações modernistas e art déco reconhecidas, há décadas, como patrimônios culturais dessas cidades, estados e, eventualmente, até do nosso país, cidades baianas como Salvador e Cipó – cujo centro histórico detém o maior conjunto art déco conservado do Brasil – esperaram por mais de 70 anos para terem suas edificações dessas linhas arquitetônicas reconhecidas pelo poder público estadual como patrimônio cultural da Bahia.



Em mais de quatro décadas de criado, o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), órgão da secretaria estadual de Cultura (SecultBA), nunca havia desenvolvido política ampla para a proteção de imóveis e conjuntos urbanos construídos sob a influência de arquitetos modernistas e art déco na Bahia. Visando diminuir esse déficit, desde 2007, está sendo implantada a ‘Política Pública de Patrimônio Cultural’ do IPAC que já atingiu cerca de 200 municípios baianos. Com essas ações Instituto já conseguiu aumentar nos últimos dois anos e meio em mais de 400% os serviços de salvaguarda de bens culturais, se comparados aos já realizados em quatro décadas pelo pode público estadual.



A Política de Patrimônio do IPAC inclui orientações técnicas, tombamentos e registros de bens culturais – sejam eles materiais ou imateriais – exposições, seminários e a execução de obras de restauração que já somam R$ 50 milhões investidos em território baiano. Segundo o diretor geral do órgão, Frederico Mendonça, o IPAC se esforça, ainda, para superar o déficit de demandas não atendidas desde a década de 1970. Um dos exemplos é a igreja de Brotas, em Salvador, que há 30 anos tinha solicitação de tombamento e, que com o programa de aceleração de atendimentos do órgão, foi tombado em setembro do ano passado (2009).



INEDITISMO – Mas são os tombamentos inéditos de edificações com estilos arquitetônicos art déco e modernistas, antes relegados e sem proteção legal do Estado, que mais têm chamado atenção de especialistas da área, como arquitetos, urbanistas, engenheiros civis, museólogos, artistas e gestores públicos do patrimônio cultural brasileiro, entre outros.



O centro histórico da Estância Hidromineral de Cipó – considerado o conjunto arquitetônico-urbanístico art déco e neocolonial mais conservado do Brasil – são exemplos dos novos tombamentos do IPAC. Em Salvador, os edifícios Oceania (Farol da Barra), Dourado (Graça), A Tarde e Sulacap (Praça Castro Alves), o cine-teatro Jandaia (Baixa dos Sapateiros) e Hospital Aristides Maltez (Brotas) já se encontram sob proteção de tombamento provisório do IPAC. “Salvaguardar significa proteger, conservar, preservar, e ao assegurar a permanência da memória de um povo e da sua cultura, o Estado cumpre uma das suas mais importantes funções”, ressalta Frederico Mendonça.



O diretor geral do IPAC informa, ainda, as bases legais de proteção do patrimônio cultural na Bahia. “O Artigo 216 da Constituição de 1988 relaciona a variedade de bens que compõem nosso patrimônio cultural, enquanto a lei de proteção do patrimônio histórico e artístico, no Brasil, foi regida pelo princípio do interesse coletivo”, diz Mendonça. Ele explica que a Constituição Federal de 1934 instituiu, pela primeira vez, a função social da propriedade como um princípio constitucional, nela, estabelecendo o direito de propriedade, embora garantido, não poderia ser exercido ‘contra o interesse social ou coletivo, na forma que a lei determinar’. Assim, fundamentado no interesse cultural da sociedade, os Poderes Públicos podem e devem criar restrições ao usufruto do direito de propriedade de determinado bem, visando à manutenção dos valores nele reconhecidos como dignos de preservação. “Por outro lado, ao tombarmos, estabelecemos um reconhecimento público que possibilita aos proprietários dessas edificações melhor acesso às diversas fontes de financiamento sejam elas municipais, estaduais, federais ou internacionais”, finaliza Mendonça.



Sinopse:



Edifício Dourado - Segundo pesquisa dos alunos da Universidade Católica de Salvador, foi edificado entre 1936 e 1938, pela Cia Brasileira de Construções, primeira construtora e incorporadora baiana, tendo como responsáveis os engenheiros Carlos costa Pinto de Pinho, Frederico Espinheira de Sá e o arquiteto Arezio Fonseca. Na ocasião do nascimento de um dos seus filhos, Heitor Dourado inaugurou em 25 de julho de 1938, o edifício em homenagem a sua esposa que retornava do hospital para ocupar o novo lar. Até 1971 o edifício foi moradia exclusiva dos filhos, quando então teve o primeiro dos dois apartamentos vendidos a pessoas que não pertenciam à família. A construção possui estrutura de concreto armado, ainda com paredes murais dobradas. A fachada principal foi implantada praticamente sem recuo, edificada nos limites frontais do lote. Atualmente existe uma faixa estreita de canteiro central, delimitada por um gradil de ferro. Sua tipologia, coerente com a tecnologia utilizada na época, é constituída por dois blocos iguais e simétricos, separados por um corpo central, onde está situado o pequeno saguão de entrada no térreo, com a caixa do elevador contornado pela caixa de escadas, permitindo acessos a cada um dos três apartamentos existentes em cada andar. Sua fachada é marcada pela composição do corpo principal, composta por dois cilindros sacados, no nível do térreo, que separam a escadaria de acesso, como se fosse um pórtico. Na parte superior à caixa saliente segue verticalmente até o topo do prédio, marcada por um pano de parede formado por uma sucessão de linhas verticais, em baixo relevo, dividindo os apartamentos superiores, com terminação escalonada. Completando o entablamento, com tratamento externo no estilo Art Déco, as fachadas laterais e a principal são marcadas por estreitos frisos horizontais demarcando os limites de cada pavimento1.



Edifício Oceania - Em 1932 foi elaborado o projeto arquitetônico pelo escritório Freire & Sodré, que passou a ser edificado pela empresa baiana Cia. Brasileira Imobiliária e construções S/A, d os engenheiros Carlos costa Pinto de Pinho, Frederico Espinheira de Sá e o arquiteto Arezio Fonseca. Provavelmente, em decorrência a eclosão da 2.ª Guerra Mundial, sua construção só foi concluída 10 anos depois, sendo inaugurada em 10.08.1943. Foi o primeiro prédio a ser construído voltado para a Baía de Todos os santos, promovendo uma perspectiva de modernidade e criando um novo paradigma de ocupação espacial para a cidade, destinado a atender uma clientela da sociedade baiana com alto poder aquisitivo. O edifício possui 12 andares 48 apartamentos residenciais distribuídos nos pavimentos superiores, além de subsolo, loja, sobreloja e auditório, com cassino, que não chegou a ser instalado. O prédio se notabilizou por ter sido um dos primeiros a utilizar concreto armado e a possuir altura considerável para a época, destacando-se na época como o “primeiro arranha-céu da Bahia” . O prédio foi ainda pioneiro em adotar soluções arquitetônicas funcionais para a distribuição dos espaços construídos. Por outro lado, adotou uma ornamentação mais discreta e dentro de um estilo mais sóbrio, como preconizava o movimento da Art Déco, precursor do modernismo no país1.



Edifício A TARDE - No ano de 1912 foi fundado o Jornal A TARDE, com sede na Rua Manoel Vitorino, n.º 21. Em 1924 foi iniciada a construção da nova sede na Praça castro Alves, pela empresa E. Kemnuit & Cia Ltda. Engenheiros Associados, obra concluída em 1930, quando foi inaugurada. Sua construção deve-se a iniciativa do Dr. Ernesto Simões Filho, considerado como um dos primeiros prédios de “cimento armado da cidade”, também considerado como o edifício “maior e mais moderno da época na cidade”. O prédio é composto por sete pavimentos e mais um subsolo. Na lateral voltada para a Rua 24 de Maio a fachada é praticamente cega, salvo pelas antigas instalações das salas de impressão do jornal que ficavam ali localizadas. Já na lateral voltada para a Rua Ruy Barbosa, localizava-se o antigo cine Glória, depois Cine Tamoio, no amplo espaço coberto por uma abóbada de aresta. Atualmente esta área é ocupada pela comunidade cristã Paz e Vida, que foi a parte desmembrada do prédio. Sua fachada principal está voltada para um pequeno largo e apresenta o corpo central vertical em forma de semi-círculo em relevo, ultrapassando o alinhamento do prédio, apoiado em um portal que contém a porta principal encaixada em uma grande escada, com terminação em arco pleno. O pavimento térreo é composto de espaços destinados a lojas, que se abrem para a Praça castro Alves e para a Rua Ruy Barbosa, através de grandes vãos vedados por portas de ferro de enrolar, encimadas por bandeiras de ferro trabalhadas. O acesso principal é feito por através de uma porta de ferro também trabalhada, localizada no centro, que forma um eixo de simetria com relação ao restante do edifício. Esta porta dá acesso ao hall de entrada, onde está localizado o poço dos dois elevadores, contornado pela caixa de escadas. Todo este conjunto de elementos simetricamente distribuídos, onde prevalecem à simplicidade de linhas e formas geométricas, caracterizam a presença marcante dos princípios da Art déco, que determinam o tratamento das feições do prédio1.



Hospital Aristides Maltez - Construído na década de 40 e inaugurado em 1951, o edifício principal foi desenvolvido em quatro pavimentos básicos na ala direita, concentrando a recepção e os serviços voltados ao público no pavimento térreo, destinando os pavimentos superiores para os apartamentos dos internos em tratamento. Sua tipologia é constituída por extensos corredores longitudinais, existentes em cada pavimento, dando acesso aos apartamentos voltados para a Avenida Dom João VI. Em função da declividade do terreno em que foi implantada a ala esquerda, esta possui desenvolvida em três pavimentos. Além das rotundas, características volumétricas e tipológicas, outra característica que lhe confere uma feição especial é a existência das varandas frontais dos apartamentos, sustentadas por um conjunto de colunas circulares, implantadas ao longo de toda a fachada principal, seguindo um ritmo harmonioso, em todos os apartamentos, além do valor paisagísticos do conjunto arquitetura e jardins1.



EDIFÍCIO CARAMURÚ - Trata-se de um edifício comercial, de volume prismático, construído no bairro do Comércio pela companhia Prudência e Capitalização. Este edifício, de inquestionável valor arquitetônico, foi concebido pelo arquiteto carioca Paulo Antunes Ribeiro e representa um dos primeiros e principais exemplares da arquitetura moderna filiada à corrente do Rio de Janeiro construído em Salvador. Prova desse valor é a sua premiação na Primeira Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo de 1951, assim como a sua divulgação em artigos de importantes revistas internacionais como a francesa L’Architecture d’anjourd’hm em 1952 e a italiana Domun, em 1954. Na concepção teve como elementos significativos seus brises-soleil, dispostos nas duas fachadas voltadas para o poente, cuja solução peculiar (grandes painéis metálicos dispostos em planos alternados ao longo de 7 pavimentos) trava-se do diferencial do edifício, o seu acesso impactante por um saguão de dois pavimentos duplo com um mezanino de linhas curvas, sua cobertura em terraço jardim, que deveria proporcionar um visual verde ao observador a partir da cidade Alta, e servir de referência para as futuras edificações do Comércio. Nessa cobertura havia ainda painel de Mário Cravo e foi implantado um apartamento para a diretoria da Companhia, além de um volume cilíndrico correspondente à caixa do elevador. Há pouco tempo, as placas metálicas do brises-soleil foram saqueadas, servindo de alerta para a necessidade de medidas de preservação. 2  Informações extraídas no texto enviado pela PPGAU_UFBA/FAPESB e pelo Núcleo DOCOMOMO/PPGU-UFBA.



Art Déco - Conjunto de manifestações artísticas, estilisticamente coesa, que se iniciou na Europa e se difundiu pela América do Norte e do Sul, inclusive chegando ao Brasil, a partir da década de 20. A expressão Art Déco se traduz no interesse pela decoração. Suas linhas seguem uma simetria, havendo integração / articulação entre arquitetura, interiores e design (mobiliário, luminárias e serralheria artística). Quando curvas, delineavam um arco bem definido, em formas aerodinâmicas, e quando retas tinham a precisão de uma régua, com formas geométricas. Observa-se que alguns elementos decorativos recorriam, de forma estilizada, a modelos clássicos da antiga Grécia, artefatos egípcios, arte oriental e estilo marajoara, além de uma grande variedade de outras influências 1. O art déco apresenta-se de início como um estilo luxuoso, destinado à burguesia enriquecida do pós-guerra, empregando materiais caros como jade, laca e marfim. É o que ocorre, nas confecções do estilista e decorador Paul Poiret, nos vestidos "abstratos" de Sonia Delaunay (1885 - 1979), nos vasos de René Lalique (1860 - 1945), nas padronagens de Erté. A partir de 1934, ano de realização da exposição Art Déco no Metropolitan Museum de Nova York, o estilo passa a dialogar mais diretamente com a produção industrial e com os materiais e formas passíveis de serem reproduzidos em massa. O barateamento da produção leva à popularização do estilo que invade a vida cotidiana: os cartazes e a publicidade, os objetos de uso doméstico, as jóias e bijuterias, a moda, o mobiliário etc. Se as fortes afinidades entre arte e indústria e entre arte e artesanato, remetem às experiências imediatamente anteriores da Bauhaus, a ênfase primeira na individualidade e no artesanato refinado o coloca o art déco nas antípodas do ideal estético e político do programa da escola de Gropius, que se orienta no sentido da formação de novas gerações de artistas de acordo com um ideal de sociedade civilizada e democrática2. 1  Ver - CENTRO DE ARQUITETURA E URBANISMO DO RIO DE JANEIRO. Guia da Arquitetura              Art Déco no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Casa da Palavra: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 2000.



Arquitetura Moderna - O Modernismo foi um movimento artístico e cultural que se iniciou na Europa e começou a ter seus ideais difundidos no Brasil a partir da primeira década do século XX, através de manifestos de vanguarda, principalmente em São Paulo, e da Semana da Arte Moderna, realizada em 1922. O movimento deu início a uma nova fase estética na qual ocorreu a integração de tendências que já vinham surgindo, fundamentadas na valorização da realidade nacional, e propondo o abandono das tradições que vinham sendo seguidas até então, tanto na literatura quanto nas artes. Apesar da grande repercussão que a arquitetura e Arte Moderna obtiveram, vale ressaltar que o Movimento Moderno não se limitou a essas duas áreas. Foi um movimento cultural global que envolvia vários aspectos, entre eles sociais, tecnológicos, econômicos e artísticos. O Modernismo arquitetônico surgiu na Europa devido à necessidade de se encontrar soluções para os problemas que vinham sendo gerados pelas mudanças sociais e econômicas que a Revolução Industrial causou. Já no Brasil, as primeiras obras Modernistas surgem quando apenas se iniciava o processo de industrialização, portanto não se habilitava a solucionar necessidades sociais. No entanto, segundo Lúcio Costa, o Modernismo brasileiro justifica-se como estilo, afirmando a identidade de nossa cultura e representando o "espírito da época". No campo da arquitetura, o Modernismo foi introduzido no Brasil através da atuação e influência de arquitetos estrangeiros adeptos do movimento, embora tenham sido arquitetos brasileiros, como Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, que mais tarde tornaram este estilo conhecido e aceito1.



Assessoria de Comunicação – IPAC - Em 01.06.2010


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