Temperaturas acima da média e chuvas irregulares devem marcar os próximos meses na Bahia, mantendo a atenção das equipes responsáveis pela prevenção e pelo combate aos incêndios florestais. O cenário foi discutido nesta quinta-feira (5), durante reunião do Comitê Estadual de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais, realizada na sede da Secretaria do Meio Ambiente (Sema), em Salvador. O encontro também apresentou os resultados de ações integradas de fiscalização e perícia em áreas atingidas pelo fogo na Chapada Diamantina.
Durante a reunião, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) apresentou uma análise do El Niño e das condições climáticas esperadas para a Bahia entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. A previsão indica maior probabilidade de temperaturas acima da média em todo o estado, além de chuvas irregulares, com períodos de estiagem intercalados por episódios de precipitação mais intensa.
Os dados apresentados mostram que as águas do Pacífico equatorial estão significativamente mais quentes que o normal. Na região Niño 1+2, próxima à costa do Equador e do Peru, a temperatura está 4,6°C acima da média. Já na região Niño 3.4, utilizada como referência internacional para acompanhar o fenômeno, a anomalia chega a 2,5°C. O cenário aponta probabilidade superior a 83% de ocorrência de um El Niño entre os mais intensos já registrados.
Para a Bahia, a tendência é de chuvas dentro ou abaixo da média na faixa leste, no centro-sul e no oeste. No centro-norte e no nordeste, o período chuvoso ainda não terá começado. Essa distribuição irregular exige atenção porque, mesmo com a chegada das chuvas em algumas regiões, outras podem continuar enfrentando longos períodos de tempo seco.
“Embora o número de focos de calor apresente, historicamente, uma tendência de redução a partir de novembro, essa diminuição não acontece de maneira uniforme em todas as regiões. Áreas com pouca umidade, vegetação seca e períodos prolongados sem chuva ainda podem apresentar condições favoráveis à propagação do fogo”, explicou o meteorologista e coordenador de Estudos do Clima e Projetos Especiais do Inema, Aldírio Almeida.
Um exemplo desse comportamento foi observado em 2023, ano de El Niño forte. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apresentados pelo Inema mostram que os focos de calor na Bahia diminuíram aproximadamente 60,5% entre outubro e novembro e outros 31,5% entre novembro e dezembro. A redução está associada, entre outros fatores, à chegada das chuvas em partes do oeste e do centro-sul do estado. No entanto, regiões do centro-norte e do nordeste seguem um calendário de chuvas diferente e podem permanecer mais vulneráveis aos incêndios.
Fiscalização identifica desafios na investigação de incêndios
A reunião também foi marcada pela apresentação dos resultados da segunda fase de uma operação integrada de fiscalização e perícia em áreas atingidas por incêndios florestais na região de Lençóis, na Chapada Diamantina. A atividade, realizada no mês de outubro, reuniu equipes do Inema, do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CBMBA), do Departamento de Polícia Técnica (DPT), do Prevfogo e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), entre outras instituições.
O diretor de Fiscalização do Inema, Miguel Neto, destacou que a integração entre os órgãos foi importante desde o planejamento até a realização das vistorias. A troca de informações e experiências, especialmente com os peritos do Corpo de Bombeiros, permitiu acompanhar os procedimentos de investigação e conhecer de perto as dificuldades enfrentadas durante as atividades em campo.
Os trabalhos foram realizados entre os dias 13 e 24 de outubro, com vistorias nas áreas atingidas, análise das informações coletadas e elaboração de relatórios. Uma das áreas examinadas foi atingida por um incêndio que alcançou uma parte significativa do Parque Nacional da Chapada Diamantina e também uma pequena extensão de uma Área de Proteção Ambiental (APA) vizinha.
“As condições de acesso, o deslocamento em áreas de difícil chegada e o calor intenso tornam esse tipo de trabalho especialmente desafiador. A participação conjunta das equipes também contribuiu para ampliar o conhecimento sobre os procedimentos de perícia e investigação de incêndios florestais”, disse o diretor.
Miguel destacou ainda que um dos principais desafios, porém, continua sendo identificar os responsáveis pelo início do fogo. Mesmo com vistorias e relatórios técnicos, nem sempre é possível reunir elementos suficientes para determinar quem provocou o incêndio e como ele começou.
Programa reúne órgãos na prevenção aos incêndios
Criado em 2010, o Programa Bahia Sem Fogo é coordenado pela Sema e reúne ações de prevenção, monitoramento e combate aos incêndios florestais em todo o estado. A Secretaria também coordena o Comitê Estadual de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais, responsável por articular a atuação de instituições estaduais, municipais e federais.
Entre os órgãos participantes estão o Inema, o Corpo de Bombeiros Militar da Bahia, a Superintendência de Proteção e Defesa Civil (Sudec), a Casa Militar do Governador e diversas secretarias estaduais. Essa articulação permite compartilhar informações, planejar operações e organizar o apoio às equipes que atuam nas áreas afetadas.
Representante da Unidade Regional de Portal do Sertão do Inema, Fabíola Cotrim chamou atenção para a necessidade de ampliar a participação das instituições envolvidas, especialmente dos órgãos responsáveis pela responsabilização de quem provoca incêndios e das administrações municipais.
“O enfrentamento aos incêndios florestais exige a participação de diferentes instituições. É importante ampliar o envolvimento dos órgãos responsáveis pela responsabilização administrativa e criminal, assim como fortalecer a participação dos municípios”, destacou.
O programa também desenvolve atividades de capacitação de brigadistas, formação de peritos, orientação de comunidades rurais, campanhas de prevenção e fiscalização. As equipes recebem equipamentos de proteção e suporte logístico para as ações de campo.
Outra iniciativa é a Caravana Bahia Sem Fogo, que promove atividades educativas e de mobilização nos municípios, aproximando o poder público, as comunidades e os brigadistas voluntários. A programação inclui oficinas, distribuição de materiais informativos e entrega de equipamentos de proteção individual e coletiva para brigadas cadastradas.