Baianas produzem 1º documentário sobre mulheres na capoeira

01/02/2019
Para dar mais visibilidade às mulheres da capoeira e suas lutas, o grupo de estudos e intervenção Maria Felipas idealizou o documentário Mulheres da Pá Virada. A iniciativa tem o objetivo de retratar a história de 12 mulheres baianas que certamente deixaram sua contribuição para a capoeira. “A ideia surgiu a partir de nossas lutas. [...] Nós mulheres já passamos por situações de opressão, de violência e de silenciamento. Então percebemos que estamos em um momento que essas coisas não sejam mais cabíveis. Nós entendemos que esse doc é estratégico para o empoderamento da mulher na capoeira de agora”, avalia a pesquisadora e contramestra Lilu.

O projeto foi contemplado no Prêmio Capoeira Viva ano II, através da Fundação Gregório de Mattos com apoio da Prefeitura de Salvador. No entanto a quantia viabilizada foi para realização de um curta que inicialmente teria por volta de 20 minutos. No entanto durante o processo de produção, o coletivo sentiu a necessidade de dar visibilidade a mais mulheres e dobrar a quantidade inicial, que era de seis mulheres, para 12. Além de remunerar melhor a equipe responsável e as mulheres que participam do documentário.

Um filme com esta temática é pioneiro, já que, segundo as pesquisadoras do coletivo, não há um documentário que retrate as mulheres da capoeira como o foco principal da obra. “Embora existam alguns materiais que abordem o tema como o livro, A Mulher Entrou na Roda”, de Mestra Bel (Izabel Cordeiro); curtas no YouTube e trabalhos acadêmicos. Documentários sobre este tema ainda não são uma realidade”, avalia a contramestra Lilu.

A pesquisadora lembra que embora a mulher sempre tenha marcado presença na roda, nas mais diversas configurações da roda de capoeira, ela sempre foi alvo de preconceito dentro e fora da roda. Isso porque nas primeiras configurações de roda de capoeira, a mulher que participasse daquela expressão cultural seria considerada vadia.

Ela ainda lembra que além do preconceito externo, dentro das rodas as mulheres eram subestimadas e colocadas em uma posição de fragilidade e espera para ter o seu momento. O que só torna a luta da mulher na capoeira mais difícil, isso porque além da pressão social precisa lidar com a falta de oportunidade e invisibilidade nas rodas de capoeira.

Um indicativo de invisibilidade que motiva o trabalho do Grupo de estudos é o número de mestras de capoeira que é muito inferior ao de mestres, segundo a contramestra Lilu. “Por isso trabalhamos com os conceitos de invisibilidade e protagonismo, no documentário”, afirma.

A pesquisadora ainda avalia que apesar da mulher estar cada vez mais presente nas rodas, e as rodas femininas e feministas de capoeira crescerem a cada dia o preconceito ainda existe. “Até hoje eu vejo a escola colocar o balé para meninas, o futebol para meninos e a capoeira fica ali para as meninas ‘mais danadinhas’. Isso é, para mim, um jeito de nossa sociedade ainda manter esse preconceito”, aponta.

Por isso, a produção de um documentário como esse é tão importante para a comunidade de mulheres da capoeira. Para a viabilização do projeto, que agora contará com o dobro de mulheres entrevistadas, o coletivo abriu uma vaquinha online no Catarse que permanecerá aberta para doações até o final de março deste ano. Os interessados poderão colaborar com qualquer quantia acima de R$10 reais através do site. Para que o projeto seja viabilizado elas precisam de mais R$20 mil.

Fonte: Correio da Bahia