No último século as mulheres se transformaram. E muito: o direito de votar e usar calças até o fim da tolerância com a violência doméstica. Agora chegou a vez dos homens, incluídos de forma crescente na luta por igualdade de gêneros. Um ponto de virada nos últimos anos foi o entendimento de que o padrão tradicional que define o que é ser homem, a tal “masculinidade tóxica”, é prejudicial não apenas para as mulheres, mas para eles próprios.
Não à toa, multiplicam-se ao redor do mundo cursos que reúnem homens interessados em aprender a deixar o machismo para trás. Desde o ano passado, surgiram no Brasil iniciativas do tipo, como o minicurso “Entendendo as masculinidades” e as rodas de conversa Memoh (homem ao contrário), ambos no Rio.
A ideia é quebrar estereótipos que não estão relacionados ao sexo biológico, mas a uma construção social: homem não pode chorar, tem que ser forte, tem que ser “pegador”, tem que gostar de esportes, não pode usar rosa, não pode brincar de boneca, não pode mostrar fragilidade.
Um dos participantes desses cursos, o analista de TI Felipe Bessa só se deu conta do fardo que carregava há três anos, quando passou a morar com a atual mulher.
- Cresci numa família tradicional, com todos os conceitos tradicionais, que você pode imaginar. O que “era de menino” e de “menina” era bem separado. Tanto o ambiente familiar como o de amigos era muito machista. E eu só fui perceber isso quando comecei meu relacionamento com minha atual companheira. Foi um choque de realidade. – lembra ele.
- A partir daí, entrei numa jornada de desconstruir meu machismo. Desde coisas pequenas, como fazer tricô. Eu fiz um sapatinho para o meu filho Bem, de 2 anos. Só isso já quebrou um monte de barreiras pra mim.
A Associação Americana de Psicólogos chegou a divulgar, há um ano, um documento alertando sobre os problemas causados pela masculinidade tóxica. “A socialização de meninos para corresponder à ideologia tradicional de masculinidade limita o desenvolvimento psicológico de homens e seu comportamento, resultando em pressões e conflitos relacionados ao papel de gênero e influencia negativa a saúde física e mental”, diz o texto.
São muitos os efeitos colaterais dessa masculinidade tóxica. Os dois principais, segundo o psicólogo americano Michael Kimmel, fundador do Centro de Estudos dos Homens e das Masculinidades da Universidade de Stony Brook, nos Estados Unidos, são a dificuldade de os homens falarem sobre sentimentos e o fato deles se suicidarem muito mais do que as mulheres. De acordo com o Mapa da Violência Flasco Brasil, a taxa de suicídio entre eles no país é quatro vezes maior do que entre elas.
- Corresponder a um ideal de masculinidade deixa os homens exaustos – afirma a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins. - É como precisar provar o tempo todo que é homem.
A especialista identifica uma crise de identidade na população masculina, como resultado direto das demandas feministas.
- Muitos homens não sabem bem o que é ser homem hoje. Eles foram condicionados de um jeito a vida toda, mas o homem “machão” está perdendo prestígio frente ao avanço do feminismo, então ele fica sem saber como agir. Antes, por exemplo, o homem tinha que convidar a mulher, ela tinha que dizer “não” e ele tinha que insistir. Era esse o script. Mas elas revolucionaram isso, e hoje o “não” é não mesmo. Nesse sentido, eles ficam sem saber onde estão pisando, porque as mulheres mudaram muito.
Para Regina vivemos hoje um período de transição: uma parcela significativa de homens já deixou as noções patriarcais para trás, uma segunda parcela está tentando fazer isso e uma terceira resiste.
- A mudança de mentalidade não acontece para todos ao mesmo tempo – diz a psicanalista. – Mas sou otimista. Os papeis de gênero foram criados para aprisionar tanto mulheres quanto homens, e a grande virada é perceber isso, o que já acontece com frequência especialmente entre os jovens.
Paternidade ativa
Muito da discussão sobre as novas masculinidades passa pela noção de paternidade ativa. Um dos expoentes dessa reflexão, o catarinense Marcos Piangers, autor do livro “O papai é pop” considera que o homem vive hoje um “despertar”.
- Os movimentos que as mulheres fizeram para ter mais autonomia, entrando no mercado de trabalho, questionando o romantismo da maternidade e exigindo respeito nos contatos sociais, obrigaram o homem a mudar. Isso pode despertar um homem mais sensível e feliz ou um homem ressentido – avalia ele. Eu adoraria que isso não fosse uma crise, mas para alguns é.
O escritor ressalta que a essência daquilo que os homens foram levados a acreditar que era uma masculinidade bem–sucedida acabou se mostrando um problema.
- Somos a maioria do sistema penal, morremos mais cedo, cometemos mais suicídio, matamos uns aos outros de forma violenta. Não acho que um homem é menos homem se ele cuida dos filhos, busca ser mais sensível, respeita as mulheres, faz terapia e conversa com os amigos sobre sentimentos. Acho que ele é mais homem.
Fonte: O Globo (Por Clarissa Pains)