Os efeitos da pandemia do Covid-19 atingem diferentemente homens e mulheres inclusive no meio acadêmico. Levantamento do Movimento Parent in Science, intitulado “Produtividade Acadêmica durante a Pandemia: efeitos de gênero, raça e parentalidade”, revelou que apenas 4,1% das mulheres docentes com filhos estão conseguindo manter a produção acadêmica remotamente. Entre os homens com filhos o percentual sobe 14,9%.
Quase 15 mil cientistas, entre discentes de pós-graduação, pós doutorandas (os) e docentes/pesquisadores brasileiros responderam ao questionário durante os meses de abril e maio de 2020. O objetivo foi mapear o impacto da pandemia visando o desenvolvimento de ações e políticas que impeçam o aprofundamento de desigualdades de gênero e raça na ciência.
Os docentes sem filhos conseguiram produzir mais, entretanto os efeitos da pandemia atingem de forma desigual homens e mulheres. Entre as mulheres docentes 18,4% conseguiram trabalhar remotamente e entre os homens 25,6%. Considerando as categorias raça e gênero apenas 3,4% das docentes negras com filhos conseguiram trabalhar remotamente contra 4,4% das docentes brancas. Entre homens negros com filhos o percentual foi de 12,2% contra 15,8% dos docentes brancos com filhos.
Os pesquisadores concluíram que especialmente para a submissão de artigos científicos, as mulheres negras (com ou sem filhos) e as mulheres brancas (com filhos até 12 anos) foram os grupos cuja produtividade acadêmica foi mais afetada pela pandemia. A produtividade de homens, especialmente sem filhos foi a menos afetada.
O levantamento revelou também o percentual de docentes que conseguiu submeter artigos científicos como o planejado. Os pesquisadores concluíram que especialmente nesse item, as mulheres negras (com ou sem filhos) e as mulheres brancas (com filhos até 12 anos) foram os grupos cuja produtividade acadêmica foi mais afetada pela pandemia. A produtividade de homens, especialmente sem filhos foi a menos afetada.
As mulheres negras com filhos foram as que menos conseguiram cumprir o prazo: 46,5% contra 47,2% das mulheres brancas, com filhos. Já 61% dos homens negros com filhos conseguiram apresentar artigos contra 67,2% dos docentes brancos. Segundo o estudo, quantos mais jovens os filhos, menor o percentual de docentes que conseguem submeter seus artigos.
Os docentes brancos sem filhos foram os menos afetados pela pandemia. Segundo o levantamento 77,3% deles conseguiram apresentar artigo como planejado contra 67,9% dos negros. Entre as docentes sem filhos, 58,9% das mulheres brancas apresentaram artigos contra 48,7% das docentes negras.
Sugestões
O Moviment Parent in Science apresentou sugestões para as agências de fomento e as universidade a fim de reduzir as desigualdades de gênero e raça na academia, como: aumentar o prazo para submissão em editais de fomento; flexibilizar o prazo para prestação de contas e relatórios de projetos; elaborar editais específicos aos grupos mais atingidos, para evitar um aumento da disparidade de gênero e raça, agravando uma situação crítica que já existe; aumentar o tempo de análise do currículo para mulheres com filhos, em editais de financiamentos e concursos; programar os horários de reuniões, considerando o horário escolar no qual mães e pais devem dar suporte a seus filhos; redistribuir, sempre que possível, a carga horária didática e atividades administrativas de maneira a não sobrecarregar os grupos de cientista mais atingidos pela pandemia.