"Minha pergunta era: cadê as mulheres do futebol?"

07/07/2015
FONTE: A TARDE (Juliana Lisboa)

Formada em Educação Física, a baiana Enny Vieira Moraes resolveu fazer sua tese de doutorado sobre um assunto que a incomodava: o sumiço das atletas que integraram a primeira seleção brasileira, de 1991. O trabalho da hoje professora da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) acabou virando um livro (publicado pela Edufba), que faz parte da coleção "É Futebol". Para o livro, a autora procurou atletas baianas das décadas de 1980 e 1990 que abriram caminho para novas gerações de futebolistas. Durante a pesquisa, Enny percebeu que essas mulheres sofreram preconceito tanto por gostar de jogar futebol - visto como masculino no Brasil - e como pela falta vaidade e pela condição social pouco favorecida.

Na sua tese, você aponta que a cobertura do futebol feminino sempre teve um tom de deboche e de falta de seriedade, que persistiria nos dias de hoje. A que você atribui essa resistência da mídia e da sociedade?

Eu acho que é em virtude do preconceito. Tanto o futebol como outros esportes, como halterofilismo, rúgbi, levantamento de peso etc são considerados mais masculinos. E em relação à postura e ao perfil social dessas mulheres que jogam futebol, porque elas não estão dentro dos padrões de mulher culta, feminina. São negras, com pouca escolaridade e não têm compromisso em estar dentro dos padrões de beleza. Isso já não faz parte da feminilidade socialmente aceita. Fora que elas estão usando um espaço dos homens. Elas também têm músculos, que são aspectos considerados masculinos, são fortes, usam cabelo preso ou curtinho. Quando a gente coloca essas mulheres para aparecer, elas não têm boa recepção. Desde o século passado, em 1913, a gente tem mulheres praticando esportes, entre eles o futebol. E, mesmo assim, o futebol feminino avançou quase nada. Para mim, é porque a futebolista é a negação dessa mulher feminina, e a nossa sociedade é preconceituosa.

Influenciou isso o fato de as mulheres terem sido proibidas de praticar futebol de 1950 até 1979 ?

Acho que sim. Da década de 1940, ainda durante o governo de Getúlio Vargas, há estudos de pessoas que não tinham escolaridade, teorias sem qualquer embasamento científico, que esportes de luta e esportes como o futebol seriam danosos à constituição natural da mulher, que afetariam a natureza dela e até a reprodução. Isso reforça a ideia de que a mulher só pode assumir certos papéis, e isso acontece até hoje. Uma legislação que impede a mulher de praticar esporte é uma lei que discrimina e exclui. Mas isso não se aplica à tripla jornada de trabalho, por exemplo, porque a mulher pode trabalhar o dia inteiro, às vezes em dois empregos, e cuidar da sua casa e dos seus filhos.

Você comenta que as mulheres mais pobres foram as primeiras a romper o ideal de delicadas esposas, mães e donas de casa. Por quê?

Em camadas sociais mais precárias, você está fora de padrões normativos de comportamento. Elas têm mais condição de se expressar como mulher; e nesses esportes elas se encontram. No futebol elas se reconheciam, era uma coisa de identidade, de ver que tinham mulheres que nem elas, mas, pelo fato de estar em uma camada social mais baixa, você está mais livre. Não era cobrado delas que estivessem sempre belas, de unhas feitas, cabelos impecáveis. Mas o preconceito também chegava a essa mulher. E o preconceito se associava ao poder econômico e ao racismo. O espaço do futebol era democrático enquanto baba, no campinho de terra, porque ele não precisa de muita coisa para acontecer. E elas só estavam lá porque tinham habilidade: e ninguém as ensinou a jogar. Não existiam escolinhas. E elas começaram a se destacar para jogar com meninos, e se destacaram entre eles. E começaram a se dedicar mais. Mas elas não tinham acompanhamento familiar, apoio financeiro... Elas só tinham a infância mais livre.

Em sua tese, você aponta que o futebol feminino, mesmo com proibição, sempre teve boa média de público - por vezes, superior ao do masculino. Por que hoje não temos público para as jogadoras?

A mídia tem muita influência nisso. A quantidade de público do futsal feminino hoje é a mesma média de público do masculino. Em 1980, isso já acontecia, mas a CBF só reconhecia o (futsal) masculino. E a mídia se vale de que não há público para não divulgar as partidas. Agora, a partir do momento em que a jogadora sai de campo, o preconceito chega até ela. Mas em 1940 a mulher já jogava futebol em babas, jogos amadores e as pessoas já se reuniam para assistir aos torneios. Em 1990 também. Esse discurso, para mim, de que não há público, não é verdadeiro. Tem público, sim. A geração de Marta está na mídia. Acho que, daqui a uma geração, teremos mais meninas jogando futebol com mais naturalidade.

O profissionalismo do futebol feminino, que começou na década de 1980, coincidiu com outro tipo de preconceito em relação às mulheres no esporte: a homofobia. Você vê relação entre as duas coisas?

Eu acho que, quando essa imagem questionada começa a aparecer, as forças conservadoras se unem para que isso não apareça. João Saldanha, ex-treinador (da seleção masculina), disse: já pensou como é que uma mulher vai defender numa barreira com o peito? E como é que vai levar uma namorada em casa e dizer para seu pai que ela joga futebol? Essas meninas estão invadindo um espaço masculino. E é que tipo de mulher? É um espetáculo que a gente não quer ver. O universo esportivo era considerado exclusivo masculino, basta ver as primeiras edições da Olimpíada, que eram masculinas. Quando as mulheres entraram nesse universo, foram criticadas, não foi só no futebol. Em alguns estados, tentam fazer o resgate das mulheres no rúgbi, no skate, nas lutas. Essa é uma questão política, de luta, porque, embora essa negação tenha acontecido, a gente está tentando rever esse passado. Por mais que impedimentos acontecessem, elas estavam lá, resistindo. Mas, sim, uma coisa tem muito a ver com outra. E não reconhecer é o primeiro passo. A partir daí, tem outros obstáculos. Não tinha salário, era só um lanche, não tinha patrocínio. São coisas que combinam.

Feira de Santana acabou levando várias jogadoras para a seleção brasileira nos anos 1980 e 1990. O que motivou isso?

Quando comecei esse trabalho, comecei em Jequié. Sou formada em Educação Física, meu doutorado era em História. Minha pergunta era: 'Cadê as mulheres do futebol?'. Me incomodava não ter notícias. Em Jequié, por coincidência, ouvi que existia o futebol feminino por aqui. Voltei de São Paulo e comecei a procurar aqui as pessoas que me falaram que havia futebol feminino. Peguei o registro de pessoas que jogaram na década de 1970. Em Feira, cheguei a Solange, eu me lembro dela jogando. Eu a vi jogar. Não tinha rastro da história. Eu tive a 'iluminação' de encontrar essas histórias, porque não foi uma coisa fácil. Fui encontrando e, para minha surpresa, encontrei essa história completa da seleção que eu queria. Fiquei muito contente em poder revelar essas histórias e valorizá-las. Acho que, pela proximidade de Salvador, principalmente (havia feirenses na seleção). Na hora de fazer a peneira para a seleção, iam sempre para as capitais, por isso a proximidade era importante. Mas, no estado inteiro, as meninas jogavam bola, com homens inclusive.

Apesar do menor retorno, as meninas do futebol estrearam na primeira Copa do Mundo, em 1991, com o 'peso' da camisa verde-amarela, e a responsabilidade de devolver ao futebol brasileiro o prestígio que tinha sido perdido com o tempo (a última Copa vencida tinha sido a de 1970). Houve alguma esperança para o futebol feminino, de fato, ou apenas cobrança por resultados, como comumente acontece com outros esportes?

As meninas tinham talento de sobra. No (time) Radar, elas tinham sido campeãs, tinham 54 vitórias, acho, e as meninas sempre venceram todos os outros times no Sul-Americano. Já havia expectativa, até porque se começou a investir dinheiro para as viagens. Mas claro que sobrecarrega as meninas. Primeiro que ninguém nunca tinha ouvido falar e elas ganharam o Sul-Americano. Mas só de pensar que naquela época os EUA já tinham anos de tradição no futebol feminino... O Japão hoje tem tradição. O Brasil, país do futebol, não tem. Então se cobrava delas uma resposta sem investimento, e diziam que, se elas ganhassem, aí sim, haveria investimento. É o que se passa pela cabeça delas, que a culpa de não ter investimento hoje é delas. É perverso.

Depois do quarto lugar conquistado na Olimpíada de Atlanta, em 1996, o futebol feminino experimentou um breve avanço: mais clubes, mais torneios, patrocinadores, pré-temporada e salário melhor para as jogadoras. No entanto, isso não durou mais do que um ou dois anos e, depois, o projeto foi descontinuado. Por que, na sua opinião, isso aconteceu?

Não houve qualquer comprometimento, nem dos clubes, nem da CBF. Não vi isso acontecer de verdade. Não existe uma mídia que se interessa por futebol feminino. Eu adoro ver futebol (masculino). Mas também quero ver as meninas jogando, por que não? A mulher para jogar bola não é a modelo, que faz pose, que rebola. E a gente não quer ver isso. Elas são diferentes, não é? E qual é o problema nisso?