12/04/2016
Fonte: A Tarde
Um líder pássaro é atingido pela desconfiança. Uma mulher escolhe a liberdade da corda no pescoço a fim de escapar das agruras de um relacionamento abusivo. Instrumentos do lúdico e reflexos da realidade, essas tramas não são de todo distantes entre si.
A primeira, permeada pelos mitos de criação da Terra e a relação do homem ancestral com a natureza, é tema central do livro infantil O Rei Mocho, do moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa. Já a segunda marca o enredo do conto de abertura de O Regresso do Morto, do também autor de Moçambique Suleiman Cassamo.
Mais do que dividir o país de origem, ambas as publicações integram o catálogo Vozes da África, uma aposta da brasileira Editora Kapulana em premiados autores de países africanos de língua portuguesa, e marcaram os lançamentos do mês de março da editora.
Diferentes na temática e no público de destino, as obras compartilham mais do que o objetivo de divulgar a produção intelectual de Moçambique. Nas páginas ricamente ilustradas, ambos os autores fazem um convite à reflexão sobre o papel do homem na história e no desenvolvimento da sociedade.
Moral e luta
Voltado para o público infantojuvenil, O Rei Mocho é o primeiro lançamento da coletânea Contos de Moçambique, série de publicações da editora que ressalta a cultura moçambicana. Na trama de Ungulani Ba Ka Khosa, a mentira recebe o papel de destaque.
A fábula, adaptação de um conto oral da etnia sena, mostra um pássaro, o Mocho, ser deposto do papel de líder após o ser humano semear a desconfiança perante outros pássaros, ao dizer que ele mentia para se manter no poder.
"O momento presente tem no homem o epicentro para as grandes áreas fraturantes do nosso universo, nomeadamente o universo ecológico", afirma o autor, que alterou a essência da história original ao colocar o ser humano enquanto força motriz da mentira.
"Como os contos tradicionais têm um grande valor moral, coloquei o homem como o grande desestruturador, de forma a refletirmos sobre o nosso papel na natureza e na sociedade", ressalta.
Ilustrando a saga do Mocho em meio às desconfianças dos homens estão as imagens do também moçambicano Americo Mavale, feitas em técnica de batique, uma pintura em tecido, reforçando a ideia de livros belos, conceito da editora Kapulana.
Além da própria narrativa, carregada de lições de moral, o texto de Khosa apresenta expressões da tradição oral africana, guiando o leitor pela cultura e linguagem do país.
Esse recurso também é explorado nos contos de Suleiman Cassamo em O Regresso do Morto, mas em outro contexto - aqui, a fábula educativa dá lugar à brutalidade encarada diariamente pelas mulheres africanas.
Publicado pela primeira vez em 1989, o livro traduz as observações de Cassamo sobre o tratamento dado às mulheres do campo em sua infância. "Eram vítimas duma tripla dominação: a primeira, decorrente da colonização a que o país estava sujeito; a segunda, por força dos estereótipos do mundo rural, da cultura e dos costumes da sociedade tradicional; a terceira, que emerge da anterior, a do marido".
"Testemunhei a tenacidade delas, de alguém que tudo sacrifica pelos filhos, luta pelo seu sustento e crescimento. A mulher inventa do nada o pão de cada dia para a boca do filho", ressalta Cassamo.
Nos contos, as histórias de protagonistas que lutam contra a violência e a fome são ilustradas pelo trabalho da artista brasileira Mariana Fujisawa, que transmite o sofrimento de cada drama.
Temática de raiz
A ideia de trazer a literatura africana para o Brasil partiu de Rosana Weg, diretora editorial da Kapulana. Com uma trajetória marcada pela docência, ela morou, entre 1982 e 1987, na África e, ao retornar para o Brasil, sentiu necessidade de compartilhar aprendizados.
"A maneira que encontrei para divulgar a cultura africana foi criando a editora", conta. "Estamos trabalhando com uma temática que não é tão abrangida no Brasil. A questão da cultura africana é inovadora, é um desafio", ressalta Rosana sobre as obras africanas. "É inovadora por apresentar uma coisa que deveria ser tão próxima de nós e não é".
Com uma meta de até dois livros publicados por mês, a Kaluana traz no catálogo não apenas obras de autores africanos, mas títulos científicos e bilíngues, com uma veia cultural e educativa.
Escritores de renome
Ainda que não tão conhecida no Brasil quanto a norte-americana, por exemplo, a literatura africana tem tido uma representação cada vez maior no mercado brasileiro.
Além de Ungulani Ba Ka Khosa (presidente da Associação dos Escritores Moçambicanos) e Suleiman Cassamo (Prêmio Guimarães Rosa, da França), nomes como Mia Couto (O Último Voo do Flamingo) e José Eduardo Agualusa (O Vendedor de Passados) são conhecidos dos leitores.
Mais do que as prateleiras das livrarias, os autores africanos marcam presença nos eventos literários. Em 2014, o angolano Ondjaki integrou os debates da Festa Literária Internacional de Cachoeira, a Flica. Já no ano passado, o queniano Ngugi wa Thiong'o foi destaque na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).
A primeira, permeada pelos mitos de criação da Terra e a relação do homem ancestral com a natureza, é tema central do livro infantil O Rei Mocho, do moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa. Já a segunda marca o enredo do conto de abertura de O Regresso do Morto, do também autor de Moçambique Suleiman Cassamo.
Mais do que dividir o país de origem, ambas as publicações integram o catálogo Vozes da África, uma aposta da brasileira Editora Kapulana em premiados autores de países africanos de língua portuguesa, e marcaram os lançamentos do mês de março da editora.
Diferentes na temática e no público de destino, as obras compartilham mais do que o objetivo de divulgar a produção intelectual de Moçambique. Nas páginas ricamente ilustradas, ambos os autores fazem um convite à reflexão sobre o papel do homem na história e no desenvolvimento da sociedade.
Moral e luta
Voltado para o público infantojuvenil, O Rei Mocho é o primeiro lançamento da coletânea Contos de Moçambique, série de publicações da editora que ressalta a cultura moçambicana. Na trama de Ungulani Ba Ka Khosa, a mentira recebe o papel de destaque.
A fábula, adaptação de um conto oral da etnia sena, mostra um pássaro, o Mocho, ser deposto do papel de líder após o ser humano semear a desconfiança perante outros pássaros, ao dizer que ele mentia para se manter no poder.
"O momento presente tem no homem o epicentro para as grandes áreas fraturantes do nosso universo, nomeadamente o universo ecológico", afirma o autor, que alterou a essência da história original ao colocar o ser humano enquanto força motriz da mentira.
"Como os contos tradicionais têm um grande valor moral, coloquei o homem como o grande desestruturador, de forma a refletirmos sobre o nosso papel na natureza e na sociedade", ressalta.
Ilustrando a saga do Mocho em meio às desconfianças dos homens estão as imagens do também moçambicano Americo Mavale, feitas em técnica de batique, uma pintura em tecido, reforçando a ideia de livros belos, conceito da editora Kapulana.
Além da própria narrativa, carregada de lições de moral, o texto de Khosa apresenta expressões da tradição oral africana, guiando o leitor pela cultura e linguagem do país.
Esse recurso também é explorado nos contos de Suleiman Cassamo em O Regresso do Morto, mas em outro contexto - aqui, a fábula educativa dá lugar à brutalidade encarada diariamente pelas mulheres africanas.
Publicado pela primeira vez em 1989, o livro traduz as observações de Cassamo sobre o tratamento dado às mulheres do campo em sua infância. "Eram vítimas duma tripla dominação: a primeira, decorrente da colonização a que o país estava sujeito; a segunda, por força dos estereótipos do mundo rural, da cultura e dos costumes da sociedade tradicional; a terceira, que emerge da anterior, a do marido".
"Testemunhei a tenacidade delas, de alguém que tudo sacrifica pelos filhos, luta pelo seu sustento e crescimento. A mulher inventa do nada o pão de cada dia para a boca do filho", ressalta Cassamo.
Nos contos, as histórias de protagonistas que lutam contra a violência e a fome são ilustradas pelo trabalho da artista brasileira Mariana Fujisawa, que transmite o sofrimento de cada drama.
Temática de raiz
A ideia de trazer a literatura africana para o Brasil partiu de Rosana Weg, diretora editorial da Kapulana. Com uma trajetória marcada pela docência, ela morou, entre 1982 e 1987, na África e, ao retornar para o Brasil, sentiu necessidade de compartilhar aprendizados.
"A maneira que encontrei para divulgar a cultura africana foi criando a editora", conta. "Estamos trabalhando com uma temática que não é tão abrangida no Brasil. A questão da cultura africana é inovadora, é um desafio", ressalta Rosana sobre as obras africanas. "É inovadora por apresentar uma coisa que deveria ser tão próxima de nós e não é".
Com uma meta de até dois livros publicados por mês, a Kaluana traz no catálogo não apenas obras de autores africanos, mas títulos científicos e bilíngues, com uma veia cultural e educativa.
Escritores de renome
Ainda que não tão conhecida no Brasil quanto a norte-americana, por exemplo, a literatura africana tem tido uma representação cada vez maior no mercado brasileiro.
Além de Ungulani Ba Ka Khosa (presidente da Associação dos Escritores Moçambicanos) e Suleiman Cassamo (Prêmio Guimarães Rosa, da França), nomes como Mia Couto (O Último Voo do Flamingo) e José Eduardo Agualusa (O Vendedor de Passados) são conhecidos dos leitores.
Mais do que as prateleiras das livrarias, os autores africanos marcam presença nos eventos literários. Em 2014, o angolano Ondjaki integrou os debates da Festa Literária Internacional de Cachoeira, a Flica. Já no ano passado, o queniano Ngugi wa Thiong'o foi destaque na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).