Mulheres da PCBA ressaltam importância da representatividade

12/03/2021

Gerações e gerações de brasileiros se acostumaram a rotular profissões como ‘de homem’ e ‘de mulher’. Mecânica? Homem. Ensino infantil? Mulher. Chefias em geral? Homem… Décadas de luta, entretanto, resultaram em um processo de equilíbrio de forças que, embora ainda não seja suficiente, já mostra o caminho para o futuro. Com a Polícia Civil não é diferente. Apesar de as mulheres terem representado apenas 31% e 34% dos nomeados nos últimos dois concursos da instituição, a vivência das servidoras mostra que a representatividade feminina nas forças de segurança já ecoa para as próximas candidatas a delegada, escrivã ou investigadora.


Nomeada em 2001, Ana Virgínia Paim é a titular da Delegacia para o Adolescente Infrator (DAI). Embora seu ‘plano A’ quando estava na faculdade fosse o Ministério Público, a experiência da atividade policial pesou na hora de definir seu futuro.


Passei, fui trabalhar e acabei me encantando com a atividade, com o fato de poder ter um contato direto na vida das vítimas de um delito. A profissão me escolheu”, recordou-se. Esta mudança de planos, entretanto, causou estranhamento dentro da família. “A preocupação maior era com a segurança. Existia aquele folclore dos delegados antigos, tipo xerife, que iam para a rua trocar tiro todo dia. Mas, à medida que o tempo foi passando e eles observaram que não era bem assim, que as operações policiais não são diárias dentro da Polícia Civil, já que nossa atividade é de polícia judiciária, de investigação, realmente quebrou essa resistência familiar”, acrescentou.


Delegacia para o Adolescente Infrator

Ana Virgínia é delegada titular da DAI

 

Em diferentes intensidades, a escrivã Rosele Xavier e a investigadora Caroline Viterbo enfrentaram desafio semelhante em casa. A primeira, nomeada em 2017, cursou fonoaudiologia, um curso mais próximo das expectativas que seus pais nutriam. Mas o nível de alinhamento com os sonhos dos pais mudou à medida que os concursos passaram a fazer parte do seu cotidiano.


Quando decidi que estudaria para carreira policial, para minha família foi muito tranquilo, porque a polícia ainda não era uma realidade: eu estava só estudando para concurso. Venho de uma família de militares, estudei em um colégio militar, cresci neste universo. E a visão deles mudou quando a polícia virou realidade, quando passei no concurso. Minha mãe e meu pai ficaram muito apreensivos pelo fato de eu ser mulher, por ser uma profissão de risco, uma profissão dita masculina e composta em sua maioria por homens. Bateram muito nesta tecla”, recordou-se, ressaltando que hoje sua carreira é muito bem aceita em casa – mas nem tanto fora dela. “Vejo ainda muito essa questão de 'essa profissão não é para você' vinda de alguns dos meus amigos homens. Muitos até hoje falam para eu fazer outra coisa. Algumas amigas também, desde o início, falavam: 'Você é doida, profissão de homem, de risco'. É dos dois lados ainda isso”, afirmou Rosele, lotada em Itapetinga, no Núcleo de Atendimento à Mulher.


Caroline, por sua vez, conta que a reação de seus pais foi de susto e descrença. “Quando abriu o concurso da PCBA, eu já estava estudando havia um tempo, passei, e minha mãe ficava falando: 'Mas depois você pode fazer concurso para promotora, para defensora pública. Por que não faz concurso pra juíza? Pra procuradora?" E eu sempre falava que só queria a área policial. Mas, depois que fiz a Acadepol, eles tiveram de aceitar que eu não estava aqui por acaso, não por ter sido simplesmente o concurso que abriu. Foi algo planejado e um objetivo que eu tive a bênção de alcançar. Meus planos são apenas crescer dentro da instituição”, comentou a investigadora da Delegacia Territorial de Porto Seguro.


Caroline é investigadora em Porto Seguro

Caroline já coleciona boas lembranças da carreira de investigadora

 

Representatividade: passado e futuro


Ana Virgínia fez parte da turma que extinguiu a função dos delegados calça-curta – aquele não concursado, sem formação jurídica. Ela recorda que, por conta deste contexto específico, o preconceito era muito maior por ela ser nova do que por ser mulher. No entanto, ela logo percebeu que havia uma separação virtual: unidades como a Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos (DRFRV), a de Furtos e Roubos (DRFR), a de Tóxicos e Entorpecentes (DTE) e a de Repressão a Furtos e Roubos de Cargas em Rodovias (Decarga) eram consideradas masculinas.


Em um primeiro momento, existiam certas delegacias que eram 'para homem', onde as mulheres não ocupavam espaço. E muitas mulheres desbravaram esses espaços, mostraram que eram capazes tanto quanto os homens de ocupar aquelas tarefas. E, ao mesmo tempo, existiam delegacias para serem ocupadas por mulheres. Existia essa divisão, esse certo preconceito. Aos poucos, as mulheres foram se firmando, fizeram trabalhos primorosos, e caiu por terra essa questão. Ao longo do tempo, isso melhorou muito. Obviamente, por ser uma profissão dita, entre aspas, masculina, por ter aquela coisa da virilidade, enfim, ainda existem alguns resquícios deste preconceito”, destacou.


Quando participou do curso de formação, Ana Virgínia não se identificou apenas com a atividade policial, mas também com algumas delegadas. “Algumas que ministraram aulas para a nossa turma se mostraram profissionais em quem eu procurei me inspirar ao longo da minha carreira. São pessoas que até hoje estão na ativa, delegadas que hoje têm 30 ou mais anos de carreira, com o mesmo vigor, a mesma vontade de trabalhar, e que realmente demonstram a qualidade da mulher na atividade policial, a liderança que ela é capaz de realizar e como ela é capaz de fazer a diferença dentro da instituição”, disse.


Rosele é escrivã em Itapetinga

Formada em fonoaudiologia, Rosele é escrivã em Itapetinga

E não só dentro da Polícia Civil – conforme contou Caroline. A investigadora conta que, apesar de ter pouco menos de três meses como servidora pública, já esteve em situações que a orgulharam como mulher policial. Numa delas, foi abordada pela mãe de uma garota que sonha vestir a camisa da Instituição um dia.


Eu tinha acabado de chegar de uma diligência e estava almoçando em um restaurante, com o distintivo e o boné da polícia. Aí uma senhora pediu licença e disse: 'Desculpa atrapalhar seu almoço, mas eu queria pedir uma coisa. Meu marido insistiu para eu não vir até aqui, mas eu sou teimosa. Estou impressionada de ver você como policial civil. Queria pedir a permissão de tirar uma foto sua, porque a minha filha fala desde cedo que quer fazer concurso para polícia, assiste filmes, séries, comenta em casa, e eu te vi agora. Será que eu poderia tirar uma foto sua?'”, lembrou. “Como faz diferença na vida ter pai e mãe que incentivem seus sonhos”, acrescentou.


Caroline e Rosele, que trabalham no interior do estado, acreditam que ser uma mulher policial parece ter um impacto diferente fora de Salvador. A investigadora comenta que a presença feminina nas forças de segurança ajuda a mudar a mentalidade de quem ainda tem preconceito. “Meus colegas até me chamam a atenção: as crianças ficam muito impressionadas quando veem uma mulher na viatura, olham para dentro do carro. Os comentários entre as mulheres, quando olham para mim, também. E eu sempre percebo os olhares de surpresa”, disse.


A escrivã completa que a dedicação e paixão pela atividade faz com que o estranhamento pouco a pouco vire admiração. “Ajuda a mudar esta visão de que a polícia é para homem, que mulher não dá conta disso ou daquilo. Vai mostrando que tanto mulheres quanto homens são capazes. Polícia é vocação: você tem que gostar do que está fazendo e fazer da melhor maneira possível. (…) Sei que chama muito a atenção das mulheres quando sabem que eu sou policial. Ficam muito interessadas em saber como é a rotina. As mulheres que convivem comigo, hoje, já têm uma outra visão sobre o que é uma mulher na polícia”, concluiu.


Ascom-PC/Felipe Paranhos