Há quatro anos, o Brasil era pouco visitado pelos homens que comandam a indústria automobilística. As fábricas instaladas no país iam razoavelmente bem, davam lucro e, além disso, eles tinham ocupações e problemas de sobra nas matrizes, principalmente nos EUA. Mas, depois que a crise assolou a indústria automobilística nos países desenvolvidos, em 2008 e 2009, o Brasil passou a ser um destino mais frequente para esses executivos, curiosos em ver de perto como as subsidiárias brasileiras passaram imunes pela crise . Esta semana é a vez de Alan Mulally, presidente mundial da Ford, que tirou a semana toda para um verdadeiro tour pelas fábricas do Brasil e Argentina e encontros com os governantes dos dois países. O ponto máximo da viagem será amanhã à tarde, quando ele anunciará ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva um reforço de investimentos no país e o projeto de um novo veículo.
Foi há quatro anos que Mulally assumiu o comando mundial da Ford. Esta é a sua primeira visita ao Brasil desde então. O programa previa até uma esticada nas praias baianas, onde fica a principal fábrica da companhia. Mas a chuva atrapalhou. "Não faz mal", disse ontem o executivo, já em São Paulo. "Peguei dias ensolarados nas três das quatro vezes em que estive na Bahia". As outras três vezes em que ele passou por terras brasileiras foram nos tempos em que trabalhava para a Boeing.
Mulally trabalhou 37 anos na Boeing. É um dos "pais" do projeto da aeronave 777. Foi convidado por William Clay Ford, bisneto do fundador da montadora americana, a assumir o seu próprio lugar na presidência da empresa em setembro de 2006, quando o executivo da Boeing acabava de completar quatro anos como presidente da aviação comercial da fabricante de aeronaves. Mulally, hoje com 65 anos, foi o primeiro executivo sem nenhuma experiência na área automotiva a assumir um posto tão alto no setor.
"Acho que fiz a escolha certa", disse recentemente Bill Ford, hoje na presidência do conselho. Mulally é hoje um dos executivos mais respeitados na indústria automobilística. Fez com que a Ford recuperasse lucratividade e vendas sem precisar pedir socorro financeiro ao governo dos EUA, como fizeram GM e Chrysler. A falta de experiência com carros parece que não faz falta. Formado em engenharia com especialização na área aeroespacial, Mulally explica por que entende que comandar a Ford é a mesma coisa que cuidar da fabricante de aviões: "As duas empresas transportam pessoas com segurança, precisam de desenvolvimento tecnológico e, nos dois casos, estão em todo o planeta, com divisões de mercados territoriais bem semelhantes". E qual das duas é mais difícil de lidar? "Eu era o cara da Boeing; agora sou o da Ford", diz, sorrindo.
Em relação à produtividade, ele afirma que as fábricas brasileiras nada devem às da Índia e China, para onde estão também voltados hoje os investimentos de ampliação da indústria automobilística. Já em relação aos incentivos fiscais, outro motivo que levou a Ford para a Bahia - e que também a mantém por lá - Mulally se prepara para fazer um agradecimento especial ao presidente Lula amanhã. "Estamos satisfeitos com essa parceria com o governo brasileiro", afirma. Não é apenas por isso que ele pretende agradecer. A redução do IPI nos automóveis, entre dezembro de 2008 e o mês passado, fez as vendas crescerem, adicionando ao mercado total algo em torno de 300 mil veículos somente no ano passado. No quarto lugar, a Ford viu a participação crescer de 10,3% para mais de 11% em 2009. Mesmo assim, está longe das três maiores concorrentes (Volkswagen, GM e Fiat), que têm, cada uma, o dobro dessa fatia ou mais).
Em encontro com jornalistas, ontem, Mulally parecia ansioso para explicar os próximos investimentos. Mas a direção local alertou para a necessidade de guardar os detalhes para a conversa com o presidente Lula. Hoje, estará com a presidente da Argentina, Cristina Kirchner. A Ford já anunciou em novembro um plano de investimentos de R$ 4 bilhões para o Brasil entre 2011 e 2015. Mas amanhã ele anunciará um reforço no programa, além de um carro novo.
Foi na gestão de Mulally que a Ford se desfez de marcas estrangeiras de luxo. Depois de vender as inglesas Land Rover e Jaguar para a indiana Tata, há poucos dias, foi fechada a venda da sueca Volvo para a chinesa Geely. "Nosso foco agora está na marca Ford, a essência da visão de Henry Ford", afirma.
O mercado aguarda a modernização da picape pequena da marca, a Courier. Há também uma defasagem nos modelos como o Fiesta e o Focus em relação aos similares europeus. Recentemente a Ford da Índia lançou o Figo, nova versão do Fiesta. O esforço da companhia agora, diz Mulally, está no desenvolvimento de plataformas globais para toda a linha nos mercados de todo o mundo. E o Brasil, diz, se inserirá na estratégia. "É para isso que estou aqui", afirma.
Ford anunciará reforço do investimento no país
07/04/2010