Nos primeiros nove meses deste ano, a importação de produtos industriais aumentou 42% em relação ao mesmo período de 2009. Embora reclame desse aumento de concorrência externa, é a própria indústria a principal responsável por essas compras, revela um estudo do professor Nelson Marconi, da Fundação Getulio Vargas (FGV). Mais do que isso, as compras ocorrem dentro de uma mesma cadeia produtiva, o que torna o aumento das importações uma espécie de "autofagia" industrial que desarticula toda uma rede de fornecedores.
Marconi separou a produção industrial por grau de agregação tecnológica (commodities, derivados de commodities, baixa e média baixa tecnologia e média-alta e alta tecnologia) e procurou identificar, em cada categoria, onde o segmento compra seus insumos. Ele constatou, por exemplo, que quase metade das peças, máquinas e insumos adquiridos pelas fábricas de manufaturados de média-alta e alta tecnologia vem do próprio segmento, isto é, dos fabricantes de bens de média-alta e alta tecnologia.
Situação semelhante ocorre entre os produtores de bens de baixa e média-baixa tecnologia, onde o equivalente a 31,6% dos insumos adquiridos vêm do próprio setor. Essa participação é três vezes superior a do segundo setor que mais fornece insumos para esse grupo, o de derivados de commodities agrícolas e minerais, que fornece o equivalente a 11,9% das matérias-primas. No segmento mais avançado, que produz bens manufaturados de média-alta e alta tecnologia, a maior parte dos insumos, o equivalente a 46%, sai do próprio setor - mais que o dobro dos 20,6% fornecidos pela indústria de média-baixa e baixa tecnologia.
"A indústria calçadista adquire couro como insumo, e ambos estão inseridos no segmento de média-baixa e baixa tecnologia, tal qual as fábricas de vestuário, que compram tecidos das têxteis", afirma Marconi, que trabalhou com os dados mais recentes das contas nacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes a 2007.
A situação é semelhante ao que ocorre nos segmentos de menor valor agregado do parque industrial brasileiro - fabricantes de derivados de commodities agrícolas e minerais, como os produtores de alimentos processados, refino de petróleo e o processamento de grãos, como café e açúcar. Nesse segmento, o equivalente a 31,3% dos insumos saem do próprio setor, e outros 43,9% diretamente do campo e das minas - as fazendas produtoras de commodities agrícolas e as minas que fornecem os metais.
A crescente competição com importados tem alterado o modo como as coisas funcionam. No segmento de alta tecnologia, os insumos adquiridos do exterior já representam, no mínimo, 22,5% do total consumido pelo setor para produzir seus bens. "No mínimo", porque esse grau da participação de importados no setor refere-se a 2007, quando o saldo comercial brasileiro fechou o ano em US$ 40 bilhões - em 2010, o saldo deve ficar em torno de US$ 15 bilhões. Entre todos os segmentos da indústria, foi entre os produtores de bens de média-alta e alta tecnologia que os insumos importados passaram por seu maior salto - 60,9% nos dez anos entre 1997 e 2007.
"O salto das importações está desarticulando as cadeias produtivas, uma vez que os setores estão se autodesmontando", diz Marconi, para quem a valorização cambial tem sido "decisiva" para acelerar e amplificar esse processo. Ao longo de 2007, ano que serviu de base para o estudo, o dólar foi de R$ 2,13 para R$ 1,77, valorização que culminou em R$ 1,56, em agosto de 2008, antes da explosão da crise mundial, que levou o dólar a atingir R$ 2,33, três meses depois.
"O governo, que agiu corretamente durante a crise, perdeu, no entanto, a oportunidade de manter o câmbio mais desvalorizado, uma vez que não houve repique inflacionário naquela ocasião", diz Marconi. Ao longo de 2009, o dólar perdeu mais valor, caindo a R$ 1,80, cotação que voltou a cair em 2010 - R$ 1,70 foi a cotação de segunda-feira.
Além do câmbio valorizado, os bens importados têm inundado a indústria nacional, porque a desaceleração do crescimento mundial reduziu a demanda em outros mercados e levou os produtores mundiais de diversos bens a reduzir os preços de exportação para ganhar novos mercados. O Brasil, em crescimento, virou alvo preferencial dessa política.
"Vamos continuar vivendo com câmbio muito valorizado", avalia Marconi, para quem é preciso, ao novo governo, "uma política industrial que dê prioridade às compras entre os setores, para aquecer todas as cadeias de fornecedores ".
Produção cai, mas uso da capacidade instalada segue elevado
A queda da produção da indústria desde março ainda não foi suficiente para afetar o nível de utilização da capacidade instalada no país, que continua elevado, chegando a 85,2% em outubro, segundo a última Sondagem Industrial da Fundação Getulio Vargas (FGV). Economistas, contudo, ainda esperam uma queda mais acentuada do índice por conta da maturação de investimentos e da continuidade das contratações.
"A tendência para os próximos meses do ano é que o nível de uso da capacidade instalada da indústria caia um pouco", diz Douglas Uemura, economista da LCA Consultores, mesmo considerando a estimativa da consultoria de que a produção cresça 0,5% em setembro sobre agosto. O movimento é positivo, segundo ele, porque, como o uso da capacidade está acima da média histórica, de 83,2%, o crescimento poderia significar pressões inflacionárias. No levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o uso da capacidade instalada vem caindo lentamente desde maio.
"O que se espera é uma redução do indicador neste ano, já que dados da produção de bens de capital indicam aumento da capacidade de produção", comenta Rafael Bacciotti, analista da Tendências Consultoria.
A produção industrial de agosto foi 2,6% inferior a de março, mês que registrou pico de atividade industrial deste ano, mas a sondagem da FGV mostra leve aumento da utilização da capacidade instalada das empresas, passando de 84,3% para 84,9%. Essa é uma situação não usual, já que a queda da produção, aliada ao avanço nas contratações, deveria resultar num menor aproveitamento dos recursos das companhias.
Economistas ouvidos pelo Valor não conseguem detectar uma razão clara para esse movimento. Para Aloisio Campelo, coordenador de sondagens conjunturais do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV, há um descompasso entre a percepção dos empresários sobre o uso da capacidade instalada e o aumento da produção verificado em março, já que o levantamento foi realizado no meio do mês, o que poderia ter deixado escapar parte do aquecimento. "A comparação mensal pode ser complicada nesses casos. Se abordássemos as indústrias até o fim do mês, talvez tivéssemos captado o aumento do uso da capacidade em março", diz ele.
A avaliação de Campelo é baseada no comportamento do nível de uso da capacidade instalada em abril, que cresceu 0,8 ponto percentual, chegando a 85,1%, o que poderia ter refletido o crescimento da produção em março, já que em abril houve recuo de 1,12% na atividade da indústria. Em maio, o índice de uso da capacidade caiu para 84,9%. Na média móvel trimestral, ele se mantém no patamar de 85% há seis meses. "Há seis meses a indústria está andando de lado", diz Campelo.
A atividade da indústria foi marcada neste ano por um pico em março - cujo aquecimento é atribuído principalmente ao fim da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre automóveis e eletrodomésticos da linha branca -, uma arrefecida em abril, maio e junho, e novo aquecimento em julho por influência da Copa do Mundo. Em agosto, o recuo da produção foi de 0,1%.
