Em entrevista ao Bahia Econômica, Jorge Cajazeira, Diretor de relações Institucionais de Suzano, expõe a atuação e a importância da empresa para a Bahia, fala sobre a cadeia florestal e anuncia um investimento de R$ 100 milhões para o Estado. Veja a entrevista.
Bahia Econômica – Qual a importância da Bahia nos negócios da Suzano?
Jorge Cajazeira – A fábrica de Mucuri é a principal unidade da Suzano no país. Dois terços da operação da companhia estão aqui na Bahia. É importante destacar que aquela região que está entre a parte inferior da fronteira com Espírito Santo até o município de Eunápolis é atualmente o maior pólo de celulose do mundo. Mas acho que a Bahia precisa acordar, pois o setor de papel e celulose se tornou uma potência no estado e hoje esse produto é líder nas exportações baianas . Entre as maiores empresas da Bahia, duas são do setor. Além disso, vale frisar que dois terços do faturamento da Suzano estão na Bahia.
BE – Qual o número de empregos que a Suzano gera direta e indiretamente?
JC – Aqui na fábrica o número está em torno de 1020 pessoas empregadas e mais cerca de 1000 na área florestal. Então, indiretamente, temos mais de 2000 pessoas. Mas esses dados estão relacionados somente ao setor florestal. Se forem incluídos os benefícios indiretos a conta é maior. O mais interessante é que o município de Mucuri está entre os dez maiores IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) do estado.
BE – A gente tem falado muito da Bahia Florestal e ela existe de fato, mas é pouco divulgada. Como você vê essa questão?
JC – Você tem razão, a Bahia Florestal existe e não é só no extremo sul. Temos aqui na região do norte a Bahia Pulp que produz celulose de alto valor agregado. Temos também na região de Inhambupe e Alagoinhas uma base florestal de alta qualidade. Hoje, a Bahia tem a maior base florestal para produção de papel e celulose do Brasil. Isso gera riqueza, gera divisas. A celulose tem colaborado muito para o desenvolvimento dessas áreas e se você visitar, por exemplo, a cidade de Teixeira de Freitas você verá como está a pujança da economia desse município.
BE – Muita gente fala que a atividade florestal é predadora. Outros dizem que ela é preservacionista. Como você avalia essa questão?
JC – Essa pergunta é recorrente e importante porque é bom esclarecer essa questão. O eucalipto no extremo sul da Bahia, entre ser plantado e ser colhido, leva seis anos e meio ou sete anos. Essa mesma planta na Austrália demora 21 anos. Na Suécia e Finlândia também são 21 anos. Então, em relação à Bahia, o europeu leva três vezes mais anos, três vezes mais gastos com terra, transporte e estrada. Com isso, eles não têm como competir com a gente. Eles não têm como reduzir em três vezes o custo de produção deles. Diante dessa realidade, eles disseminam o boato de que a atividade florestal no Brasil seca o solo, o que não é verdade e gera controvérsia. Isto enfraquece a nossa credibilidade e dificulta a nossa colocação em mercados mais competitivos. Dessa forma, os preços vão ser mais barganhados, vão exigir mais certificações ou vão fazer com que essas coisas fiquem mais complicadas. De certo modo, a empresa que tem a fama de ser prejudicial ao meio ambiente acaba vendendo por um preço muito pior do que as outras. Muitas ONGs começaram a divulgar esse boato. Só que as empresas de celulose se defendem com a ciência. Elas contrataram as principais escolas de agronomia de São Paulo e Minas Gerais onde teses de doutorado foram desenvolvidas, concluindo que o eucalipto plantado aqui consome muito menos ou igual a qualquer outro tipo de cultura. Hoje em dia, qualquer auditoria ambiental verifica que onde se mais preserva o meio ambiente é no extremo sul da Bahia.

BE – Vocês têm quantos hectares de área de preservação?
JC – Temos em torno de 60 mil hectares, mas o setor como um todo possui mais de 300 mil hectares de áreas de preservação na Bahia.
BE – Essa exigência de preservação que está em lei é pouco divulgada pelas empresas do setor florestal.
JC – Esse setor sempre foi business to business, ou seja, o setor vende celulose para a empresa que faz papel adiante. Antes, o setor nunca precisou fazer propaganda. Por outro lado, nunca se ouviu falar que o setor está em crise. Pelo contrário, ele sempre está ganhando muito dinheiro porque a celulose cresce com o PIB. Agora, com a China disparando, vende-se muita celulose. Por isso acho que o setor precisa se mostrar. Temos que mostrar a cara e a Associação dos Produtores de Florestas Plantadas do Estado da Bahia (Abaf) está trabalhando nesse sentido.
BE – A Suzano fez em 2006 um investimento de ampliação da planta em Mucuri. Vocês têm perspectivas de novos investimentos a curto e médio prazo na fábrica ?
JC – Sim, temos algumas previsões. Entretanto, para grandes investimentos existem gargalos que são as estradas. A BR-101 não comporta mais caminhão com madeira e celulose. É preciso que o PAC 2 (Programa de Aceleração do Crescimento 2) considere isto. Hoje, todo impedimento para ampliação dos investimentos está ligado às estradas. Exista um plano de se colocar mais uma planta para celulose, mas por enquanto isso não ocorreu por conta desse problema de infraestrutura. Mas a região vai receber um investimento de 100 milhões numa planta para produzir papel cortado desses que se compram no mercado que é feito em São Paulo, como o Report. Esse papel é cortado lá. Com esse investimento, ele vai ser cortado aqui. Isso gera ICMS para o estado
BE – A previsão para essa fábrica de papel de corte é para quando?
JC – Se tudo ocorrer bem, no ano que vem a gente vai começar os estudos finais e já estamos em fase final de negociação.
BE – A Suzano não tem problemas com os portos porque ela exporta através do porto de Espírito Santo, não é isso?
JC – Sim, nós utilizamos dois portos básicos: o porto de Vitória onde basicamente exportamos papel via contêineres - e lá tem um bom pátio para isto - e o porto privado da Fíbria. Portanto, nessa questão de porto nós estamos razoavelmente bem.
BE – Então, o grande problema de infraestrutura para vocês não é a energia e nem o porto, mas a estrada?
JC – Sim. Em energia nós somos auto-suficientes. O problema é realmente a estrada.
BE – Nós sabemos que com esse processo da Lei Kandir houve um acúmulo de créditos junto aos governos dos estados. Vocês têm créditos acumulados e há uma negociação com o governo do estado sobre isso?
JC – Nós temos créditos em torno de 60 milhões de dólares. A negociação está em andamento e a posição do governo tem sido muito simpática. Aparentemente, a gente fala “esse dinheiro é meu”, mas não é bem assim, pois o governo da Bahia não fica com esse dinheiro. A gente exporta por Espírito Santo onde muitas vezes a matéria-prima é comprada, como o óleo. Contudo, a negociação tem sido muito boa e está adiantada. Mas temos que entender também o lado do governo porque o dinheiro não esta com ele. O dinheiro está meio diluído.
BE –Fala-se muito do ICMS ecológico. Qual a sua opinião sobre esse ICMS?
JC – É uma proposta interessante e, considerando a região do extremo sul a qual conheço bem, destaco o seguinte. Hoje, em função da fábrica da Suzano está situada em Mucuri, praticamente toda arrecadação fica neste município. Atualmente, Mucuri arrecada entre 5 a 7 milhões de reais por mês e, em termos per capita, a cidade está entre as cinco melhores da Bahia. A 10 km de Mucuri está a cidade de Nova Viçosa onde temos plantações enormes de eucalipto e ela não tem tanto benefício decorrente dessa operação industrial. Então, ela ficaria com uma parte maior do ICMS para preservação ambiental, o que é muito bom porque isso incentiva a preservação da mata nativa, evita a depredação, inibe a retirada ilegal de madeiras e distribui melhor o imposto para os municípios. Tudo isso está na linha daquilo que a gente quer: preservação ambiental, desenvolvimento, redução de roubo de madeira nativa, etc.