Em entrevista de final de ano ao Bahia Econômica, o economista Armando Avena afirma que a Bahia terá um ciclo virtuoso de investimentos entre 2011 e 2014 e diz que a infraestrutura baiana é a melhor do Nordeste.
O economista faz uma análise dos investimentos públicos e privados previstos para o estado, e diz que a construção da Arena Fonte Nova e dos projetos de mobilidade urbana e infraestrutura previstos no PAC 1 e PAC 2 vão viabilizar um nível de investimentos alto.
Bahia econômica: Quais as perspectivas para a economia baiana em 2011?
Armando Avena – A Bahia vai entrar num ciclo virtuoso de ampliação dos investimentos entre 2011 e 2014. A afirmação está baseada nos investimentos que já vem sendo realizados e em dois aspectos fundamentais: a substancial melhoria na infra-estrutura baiana e o circuito de negócios que será gerado com a Copa do Mundo de 2014 e com os investimentos previstos no PAC 1 e no PAC 2.
B.E: Como qualificar esse ciclo de investimento?
A.A: Bom, em primeiro lugar vamos quantificar o potencial de investimento público e privado que vem por aí. Só os recursos previstos no PAC 1 e PAC 2 para a Bahia atingem a marca de R$ 50 bilhões, incluindo aí logística, habitação, saneamento, etc. Se contabilizarmos também os recursos que serão disponibilizados para a Fonte Nova e para as obras de mobilidade urbana em todas as suas modalidades e mais os investimentos anuais do tesouro do Estado, além dos financiamentos, vai ser fácil chegar a uma média anual de investimento no setor público entre 2011 e 2014 da ordem de R$ 10 bilhões/ano ou mais. Ora, só essa massa de recursos já garante a mobilização da economia. Além disso, o impacto da construção da Arena Fonte Nova e seus desdobramentos, em termos turísticos imobiliários e de serviços, vai gerar negócios e empregos em vários segmentos da economia soteropolitana.
B.E: E há perspectivas de investimentos privados?
A.A: Esses investimentos já estão ocorrendo e estima-se em R$ 10 bilhões o investimento privado que veio para a Bahia entre 2007 e 2010, mas isso vai se acelerar. Citando apenas os grandes investimentos, vale registrar a ampliação da Ford, investimento de R$ 2,8 bilhões que vai elevar a capacidade de produção da fábrica de 250 mil para 300 mil veículos/ano; a implantação do parque eólico, com investimento de R$ 150 milhões, em duas fábricas em Camaçari, e enorme potencial de ampliação; a implantação da nova planta da Veracel, no extremo sul, que representa algo como R$ 6 bilhões, os novos investimentos na Rlam, a possibilidade concreta da, se for bem negociada, implantação de uma planta de acido acrílico; os investimentos já anunciados pela Braskem da ordem de R$ 250 milhões e a possibilidade da empresa sediar a nova planta de plástico verde aqui. Isso sem falar na Bahia Mineração um super investimento a caminho. Além disso, temos a implantação do pólo naval, um investimento de R$ 1,5 bilhão, que vai estimular dezenas de indústrias a se instalarem na Bahia, e os investimentos do setor mineral baiano que tem tudo para se assumir a posição de 3º principal pólo de mineração no país. Para completar, com a melhoria na infraestrutura de estradas e portuária a área agrícola, que teve um 2010 especialmente favorável, vai deslanchar e as exportações vão aumentar.

B.E: Em que melhorou a infraestrutura na Bahia?
A.A: O governo Wagner deu um salto no que se refere à infraestrutura, especialmente nos dois últimos anos, e isso está aumentando a competitividade da economia baiana na atração de investimentos. Cito alguns desses avanços: a disponibilidade de gás natural, viabilizada com a operação de Manati e do Gasene, e fundamental para atrair indústrias; a recuperação da Salvador-Feira, a BR 116, do sistema BA 093 e de uma série de estradas que estão sendo construídas e/ou reparadas. Eu mesmo viajei pelo interior da Bahia em dezembro e verifiquei que estradas estão em excelente estado. Na área portuária a dragagem do porto de Salvador e Aratu, que agora podem receber navios de qualquer tamanho, vai aumentar a competitividade das nossas exportações e não vamos esquecer, que o Terminal de Contêineres de Salvador foi considerado o primeiro porto do Norte/Nordeste e o quarto do país em eficiência. Com isso e a conclusão da Via Expressa o gargalo portuário vai desaparecer e vão surgir estações aduaneiras fora do porto. Além disso, tem o anel ferroviário de Camaçarie foi assinada a ordem de serviço da Ferrovia Oeste Leste. Já o Porto Sul, cujo a parte privada está OK, começa a avançar na parte pública. Aliás, recentemente, a Revista Exame mostrou que a Bahia tem a melhor infraestrutura do Nordeste, e é preciso que os secretários de governo saiam pelo Brasil afirmando isso, afinal, não dá para atrair empresas com o empresariado dizendo que a infraestrutura baiana é péssima, especialmente por que isso não corresponde a realidade.
B.E: Mas ainda há muito o que fazer na área de infraestrutura?
A.A: Claro, em se tratando de infraestrutura, sempre há o que fazer. Na área portuária, por exemplo, está em andamento a parceria com os empresários para a modernização do Porto de Aratu e deve ser concretizada em breve. É preciso, por outro lado, agilizar a implantação do Porto Sul e buscar alternativas de uso para o Porto de Ilhéus, que pode ser viabilizado através do complexo de papel e celulose. É preciso também viabilizar o contorno ferroviário do Paraguaçu e já existem recursos para isso previsto no PAC, e garantir a duplicação da BR 101 na Bahia, que também está prevista no PAC2. O governo também deve negociar com a Ferrovia Centro Atlântica de modo a que essa empresa volte a investir para melhorar a malha ferroviária na Bahia, especialmente a que liga nosso Estado a São Paulo e o trecho Juazeiro-Aratu . Mas creio que em termos de infra estrutura a Bahia está bem encaminhada e hoje já detém a melhor malha de serviços de infraestrutura do Nordeste, o que vai garantir o ciclo de novos investimentos a que me referi.
B.E: Qual o desafio para a economia baiana em 2011?
A.A: O desafio a superar é a reestruturação da base produtiva da Bahia, excessivamente vinculada ao setor serviços, que gera 64% do PIB baiano. A economia de serviços na Bahia é baseada em serviços de baixo valor agregado e, por isso, nosso PIB, embora com crescimento positivo, as vezes fica abaixo da média nacional. E nossa arrecadação de ICMS é baixa porque serviços gera pouco imposto, e, em termos de tributação, a Bahia permanece há anos na dependência de petróleo, energia e comunicações. Aliás, em entrevista recente, o governador Jaques Wagner identificou o baixo nível de arrecadação de impostos per capita da Bahia. O nível de imposto per capita da Bahia é de apenas 1,64 mil, enquanto em Sergipe, por exemplo, atinge 2,6 mil.

B.E: Como resolver essa questão?
A.A: Agilizando o processo de atração de empresas industriais e de base tecnológica. A solução para o problema é simples e passa pela necessidade de densificar a indústria baiana e implantar uma política mais agressiva de atração de indústrias, para atrair empresas de todo tipo, mas especialmente de 3ª e 4ª geração, e adensar nossa matriz industrial. Além disso, é preciso jogar toda a força da máquina pública no estímulo à ciência e a tecnologia, bem como na atração de segmentos tecnologicamente desenvolvidos, setores que vão criar a economia pós industrial baiana baseada em serviços de alto padrão.
B.E: Qual à sua opinião sobre a ponte Salvador- Itaparica?
A.A: Salvador é uma península cuja expansão vem se dando unicamente pelo vetor Norte, que já está em processo acelerado de saturação. E só existem dois outros vetores a serem explorados: a rodovia Salvador-Feira, a BR 324, que foi objeto de concessão pelo governo do Estado e sua modernização já está ocorrendo, e o vetor Oeste, viabilizado pela ponte Salvador- Itaparica. A ponte está sendo apresentada assim ao governo federal, como um projeto indispensável para viabilizar a integração da Bahia e para aumentar o fluxo econômico entre o Recôncavo e a RMS e, nesse contexto, pode entrar no PAC2. Além disso, a ponte viabiliza a expansão de Salvador e evita um travamento da cidade, já que hoje todo crescimento se dá em direção ao superpovoado litoral Norte. A ponte surge como novo eixo de planejamento baiano e metropolitano e sua construção incluí e fortalece a tendência que já existe de tornar a Cidade Baixa a próxima área de expansão urbana da capital baiana. Quando a obra em si, acho viável desde que haja uma engenharia financeira bem feita, uma PPP bem estruturada, que veja o projeto de forma ampla em sua perspectiva logística, imobiliária, turística, etc. A ponte é muito mais viável economicamente do que o trem bala, por exemplo. Além disso, duas empresas já apresentaram projeto de viabilidade econômica. É um bom sinal.
B.E: E quanto a questão urbana?
A.A: Essa é uma questão básica para a Bahia e em artigo recente afirmei que o Ministério das Cidades seria o mais importante para o nosso Estado. A Bahia tem apenas uma cidade com mais de 500 mil habitantes, enquanto Minas de São Paulo têm mais de dez. Essas cidades são fundamentais para dar apoio urbano ao desenvolvimento econômico e social das regiões. Será bom ter um ministro baiano articulado com o governador para investir nos pequenos e nos médios centros urbanos. A cidade de Feira de Santana, por exemplo, pode ser num “hub logístico”, capaz transformar em riqueza local toda a movimentação rodoviária que vinda do Sul ou do Norte passa obrigatoriamente pela cidade. Já a cidade de Vitória da Conquista precisa ser fortalecida para ser, não apenas como a capital do Sudoeste, mas também o pólo de união entre as economias da Bahia e Minas Gerais. Além disso, é preciso ter cidades pólos na região do Semi-Árido, a meio caminho entre o Oeste e Feira de Santana. Acho que o Ministro Mario Negromonte e o meu amigo Roberto Muniz, que segundo a imprensa será secretário executivo do ministério, podem fazer, em parceria com o governador Jaques Wagner, uma revolução urbana na Bahia.