Vinho de umbu é alternativa para os produtores do semiárido baiano

28/02/2011

NOVIDADE Hoje grande parte do produto é comercializada no Estado in natura ou como polpa



ALANA FRAGA



O semiárido nordestino - região responsável por aproximadamente 90% da produção nacional de umbu- surge como cenário para uma nova possibilidade do aproveitamento da fruta: a fabricação de uma bebida fermentada, o "vinho" de umbu. Embora este seja um título oficialmente destinado apenas às bebidas fermentadas derivadas da uva, assim ficou conhecida a bebida desenvolvida por um projeto de pesquisa do engenheiro de alimentos Breno de Paula, mestrando da Universidade Federal da Bahia (Ufba).



A pesquisa conta com a parceria da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Agroindústria de Alimentos, no Rio de Janeiro, e do Senai de Vassouras (RJ).



"O umbu é uma fruta típica do semiárido nordestino e pouco explorada comercialmente.



A ideia era dar outra alternativa aos que trabalham com o fruto para agregar valor a ele", explica o engenheiro, que apresentará o projeto na sua banca de mestrado em Farmácia na Ufba, em março.



Segundo Breno de Paula, o processo foi realizado com a polpa da fruta, da qual após as fases de correção da acidez e medição do teor de açúcar, parte para a fermentação com a levedura selecionada. Em seguida, são feitas as avaliações físicoquímicas e sensoriais para estar de acordo com a legislação específica. "O que difere a bebida de umbu para a da uva é o processo de clarificação do 'vinho', com a filtração convencional e com a microfiltração. Os resultados foram bem promissores, principalmente com o processo de microfiltração", explica Breno.



O "vinho" de umbu é do tipo suave e tem coloração e sabor semelhantes a um vinho branco. A sua graduação alcóolica varia entre 11° e 11,5° G.L. (O teor alcoólico de um vinho branco suave varia entre 8° e 12° G.L., a depender do tipo de uva).



Com 25 kg de polpa de umbu, é possível produzir cerca de 50 litros do "vinho". A depender do processo de produção, pode-se comercializar o litro da bebida por um valor entre R$ 8 e R$ 10.



Rendimento No semiárido baiano, na região de Uauá, a Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc) comercializa a saca do umbu in natura (45 kg) por R$ 17 - cerca de R$ 0,37 o kg. Já o suco produzido pela cooperativa é vendido a R$ 2,50 a garrafa com meio litro (com 20 kg de umbu, pode-se fazer até oito litros do suco).



"O umbu é uma fruta superperecível e perde-se muito rápido se não for consumido ou processado logo. Por isso o fermentado é um produto de grande potencial, porque não necessita ser conservado em refrigeração depois de pronto, o que é uma vantagem econômica para os produtores porque manter produtos refrigerados é bem mais caro", explica Virgínia Matta, pesquisadora da Embrapa Agroindústria de Alimentos e coorientadora da pesquisa do engenheiro de alimentos.



Ainda não há previsão para a execução do projeto para a produção do "vinho" de umbu na Bahia, conforme Breno, embora este seja possível com investimento por parte dos produtores e com o apoio de entidades. "Desde que haja interesse da comunidade em criar a estrutura para a fabricação da bebida, é mais umaalternativa de agregação de valor do umbu para a melhoria de renda", salienta.



Para Adilson dos Santos, presidente da Coopercuc, a possibilidade do uso da fruta para a produção de mais um produtos dentre os demais que já são fabricados, como geleia, sorvete e a polpa da fruta é uma boa opção. "Acho que seria muito interessante para os produtores daqui porque o nosso carro-chefe é o umbu", comenta Santos.



Segundo a pesquisadora Virgínia, é importante fazer o estudo da viabilidade técnica, econômica e comercial do produto (fermentado) no intuito de beneficiar os produtores.



"O ideal é que eles estejam organizados em associações e cooperativas", diz.



Com 25 kg de polpa de umbu é possível produzir cerca de 50 litros do "vinho".



Pode-se comercializar o litro da bebida por um valor entre R$ 8 e R$ 10


Cooperativa aposta em nova linha de produtos


Outras possibilidades para o uso doumbu estão sendo testadas pelos produtores do semiárido com a ajuda de pesquisadores.



A calda de umbu para sorvete já foi desenvolvida e agora aguarda os detalhes finais de embalagem para ser enviada e comercializada em São Paulo. Para a criação do produto, que é uma das três novas linhas que a Coopercuc está preparando para aquecer o mercado de derivados da fruta, a cooperativa contou como apoio de um empresário paulista.



Do suco concentrado do umbu, a cooperativa pretende desenvolver também o suco pronto da fruta. Para isso, conta com a ajuda de uma fabricante de sucos prontos do município de Lagarto, em Sergipe. "Do suco concentrado, faltam apenas alguns detalhes para transformá-lo no pronto, com a finalidade principal de fornecer para a merenda escolar", explica o presidente da Coopercuc, Adilson dos Santos.



Além do suco pronto e da calda de sorvete, a cooperativa espera também produzir o umbu desidratado. Para isso, segundo Santos, é necessária a aquisição do desidratador, equipamento para fazer o umbu desidratado, cujo "custo é alto e não temos condições ainda de adquirir".



Anualmente, a cooperativa comercializa cerca de 200 toneladas da fruta in natura para fabricantes de suco e em feiras livres. Outras 250 toneladas do umbu são processadas para a produção de doces, compotas, polpas, geleias e sucos.



Plantio Praticamente todo o umbu que é utilizado pelas cooperativas baianas tanto para a comercialização in natura quanto para a fabricação de derivados é extraído da caatinga.



Mas uma parceria entre a Embrapa, a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA) de Juazeiro e a Coopercuc já iniciou o processo de plantio da fruta.



Segundo o gerente regional da EBDA de Juazeiro, Fernando Moura, cerca de duas mil mudas de umbu foram entregues no ano passado aos produtores e mais cinco mil estão previstas para este ano.



A planta produz frutos depois de cerca de oito anos.


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