Aos 46 anos, o agricultor José Brito dos Santos descobriu que mandioca não serve só para farinha e tapioca. "Até remédio faz", surpreende-se. A Bahia, com a terceira produção do Brasil -- 3,4 milhões de toneladas em 2010 --, também está descobrindo o amido modificado. Com um investimento de R$ 3o milhões, a Aliança Cooperativa do Amido está implantando em Lage a Bahiamido, primeira indústria do tipo no Nordeste. Em outubro, entra em atividade o primeiro dos quatro módulos de produção -- cada um com capacidade de produzir 5o mil toneladas por ano e gerar renda para 2,5 mil pessoas.
Na próxima sexta-feira, será realizado um dia de campo no local, onde possíveis clientes irão conhecer o projeto. Existem negociações encaminhadas com empresas do ramo alimentício e indústrias de cosméticos de Feira de Santana e Salvador. A expectativa é que os primeiros acordos de compromisso e cartas de intenções sejam assinados durante a visita.
Logo no primeiro módulo de produção da Bahiamido, a Aliança, projetada pela Fundação Odebrecht, vai começar a redesenhar o mapa da produção de amido modificado no País. Hoje, 90% da produção está em um raio de 30o quilômetros a partir da cidade de Paranavaí, no Paraná, Estado que responde por 70,8% da produção, de acordo com dados da Associação Brasileira do Amido de Mandioca (Abam).
A microrregião de Santo Antônio de Jesus foi escolhida para abrigar o projeto da Aliança Cooperativa do Amido por conta da alta produção de mandioca. A área responde por zo% da produção.baiana, de acordo com o Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e, vale lembrar, uma das cidades -- Nazaré das Farinhas -- leva no nome o mais tradicional produto da mandioca.
"Nós sabemos da importância que a produção de farinha tem para o Estado e não iremos competir com ela", avisa o líder da Aliança, Anselmo Selhorst. Segundo ele, o projeto busca estimular o aumento da produção de mandioca, o que implica a utilização de novas áreas. "O trabalho de organização da cadeia é focado em áreas abandonadas e em pessoas que trabalham em regime de subsistência na cultura aa mandioca", explica.
Valores
Este era o caso de José. Da fazenda experimental do projeto é possível enxergar o canteiro onde ele plantava para a produção de farinha antes de se tornar uma das ioo famílias que já participam do projeto. "Levava para uma casa de farinha e tentava vender para o atravessador", lembra. Já perdeu as contas de quantas vezes viu o produto do trabalho desprezado em tempos de preços ruins. "Agora, pelo menos, tenho o dinheiro da feira garantido", afirma.
Enquanto outras culturas com potencial para a geração de amido apresentam gastos significativos com defensivos agrícolas, entre outros insumos, a cultura da mandioca exige investimento de 50%, aproximadamente, em mão de. obra, estima Anselmo.
A meta do projeto é oferecer aos participantes renda média entre R$ 1,2 mil e R$ 1,8 mil, quando a produção estiver a todo o vapor. Estes valores correspondem ao padrão de vida da classe média rural, diz o líder da Aliança.
O agricultor Hercílio Dias Nascimento, 33 anos, já está analisando a troca do trator por um mais moderno. "A renda melhorou, vou aproveitar para trocar a máquina por uma melhor", avisa.