Missão chinesa avalia qualidade do fumo produzido no Recôncavo

12/05/2011


Uma missão de técnicos do Ministério da Agricultura da China está desde segunda-feira na Bahia, percorrendo plantações e indústrias do tabaco instaladas no Recôncavo, para certificar a qualidade do fumo produzido no estado. Para aprovar a importação do produto baiano, a missão quer assegurar que a Bahia seja zona livre do mofo-azul, praga que causa a morte da planta, cultivada também na Ásia.


O presidente do Sindicato das Indústrias de Tabaco do Estado da Bahia (Sinditabaco), Ricardo Becker, lembrou que foi feito um trabalho exemplar de equipe, envolvendo o governo federal, o governador baiano, Secretaria da Agricultura e o próprio sindicato, para despertar o interesse dos chineses.


"Depois de quase um ano e meio de tentativas e de uma visita do governador Jaques Wagner à China, conseguimos trazer esta equipe de técnicos para vistoriar o nosso setor produtivo", afirmou Becker.


Valor agregado – Em um primeiro momento, os chineses estão interessados em comprar a produção das folhas de tabaco, matéria-prima para a fabricação dos charutos, mas o Estado está trabalhando para que o fumo beneficiado e com valor agregado produzido na Bahia também seja importado pela China.


Com a aprovação para a exportação, a expectativa da Secretaria da Agricultura (Seagri) é que a produção aumente 100%, consolidando a cultura do fumo para charutos, criando empregos e recuperando a economia do Recôncavo.


Referência – Para o diretor do Departamento de Saúde Vegetal do Ministério da Agricultura, Cósam Coutinho, a ação da Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab) também foi fundamental para a atração dos chineses.


"A Adab é referência para nós, não somente nesta questão do tabaco, mas também com o trabalho que se faz com o algodão, que nos auxilia no programa da mosca-das-frutas. A agência tem uma participação fantástica neste trabalho conjunto com o Ministério da Agricultura, no que diz respeito à natureza fitossanitária", afirmou.


O superintendente da Seagri, Raimundo Sampaio, disse que cabe agora à Bahia monitorar o processo e manter os produtores estimulados, sobretudo os pequenos agricultores familiares.


Característica – Sampaio lembrou que o tabaco é uma cultura que gera em torno de dois a três empregos por hectare e explicou que é necessário aproveitar esta característica quase que de manufatura para poder atender a este grande mercado, que é o chinês.


"Buscamos cada vez mais a redução de custos na produção, a melhoria na qualidade do produto e obviamente a fixação do homem do campo, sobretudo aqui nesta região do Recôncavo."


Para isso, afirmou, o Estado tem trabalhado na instalação de fóruns consultivos. No ano passado foi implementada a câmara setorial do fumo no estado, com a participação do empresariado, dos pequenos produtores, dos movimentos sociais, interagindo com bancos e com o suporte científico da Embrapa.


Produção de charutos baianos passa por controle rigoroso


Pode levar até dois anos para a folha do fumo ser transformada em charuto. Quatro meses após o plantio, o tabaco é colhido e passa pelo processo de secagem, fermentação, seleção, enfardamento e segue para a exportação ou para as fábricas da região. Todo o processo é monitorado com o controle rigoroso da umidade e temperatura dos locais de armazenamento.


A cadeia produtiva do charuto emprega 14 mil pessoas no Recôncavo, a maioria agricultores familiares, sendo 90% de mulheres. Rita de Jesus trabalha há 32 anos na produção e fala da importância da cultura do tabaco na sua vida. "Consegui criar meus três filhos, que puderam estudar. Já me aposentei e continuo trabalhando aqui na fábrica de São Félix."


Carteira assinada - A presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria do Fumo, Josenita Souza Salomão, 70 anos, há 50 sobrevive da atividade. "Todo mundo tem carteira assinada, recebe lanche, a jornada diária é de oito horas, de segunda a sexta-feira e, se tiver que trabalhar no fim de semana, recebe hora extra. As indústrias fornecem ainda adubo e assistência técnica."


Segundo Josenita, a cultura é rentável e o retorno é imediato, sendo mais vantajosa do que o aipim, o milho e a mandioca, que também são beneficiados após a colheita do fumo pelo adubo fornecido pelas indústrias do tabaco.


Reconhecimento na Europa


A produção de fumo na Bahia se concentra na região do Recôncavo, principalmente em Cruz das Almas. Cerca de três mil empregos diretos são gerados só neste município, mobilizando 5% da população em função da cultura do tabaco, cuja qualidade já é conhecida pelo mercado europeu e é tão boa ou superior à dos charutos cubanos.


A Bahia exporta 97% da produção de folhas de fumo, principalmente para a Holanda e a Alemanha.


No ano passado, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o estado produziu 6,15 mil toneladas numa área de 5,8 mil hectares, ocupando a quinta posição no ranking do país, atrás de Alagoas, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.


Com relação aos charutos, a Bahia produz hoje cinco milhões de unidades por ano em oito municípios: Cruz das Almas, Muritiba, São Félix, Cachoeira, Paraguaçu, Conceição do Almeida, Simões Filho e Salvador.

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