Luiz Francisco* Especial para o Correio
Responsável por 24% do PIB (Produto Interno Bruto), 37% das exportações e 30% dos empregos gerados na Bahia, o setor agropecuário aposta na industrialização para agregar valor às cadeias produtivas, reduzir a migração para os grandes centros urbanos e acabar com uma contradição que trava o desenvolvimento do setor e o crescimento do estado.
"Estamos entre os maiores produtores de laranja, guaraná e algodão do país e não possuímos indústrias de processamento . Temos de partir para a agroindustrialização porque, definitivamente, a Bahia não pode ser mais apenas produtora e exportadora de matéria-prima" , admite o secretário estadual da Agricultura, Eduardo Salles.
Para alavancar o processo industrial no estado, o diretor da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb) e diretor executivo da Associação Baiana de Produtores de Florestas Plantadas (Abaf), Wilson Andrade, defende incentivos fiscais e investimentos em tecnologia.
Planejamento -"Precisamos de um polo moveleiro e de fábricas para processar o milho e o algodão, por exemplo. Não adianta ter uma indústria isolada, precisamos fabricar produtos com alto valor agregado e isto somente acontece quando implantarmos polos para vários setores", defende.
A Bahia tornou-se um dos mais importantes polos de produção de celulose do Brasil com crescimento da área de florestas plantadas na região.
Andrade afirmou, ainda, que o trabalho do governo estadual para atrair novas indústrias é importante. "Tudo o que for feito para trazer empregos e gerar divisas para o nosso estado terá o apoio dos empresários", finalizou.
No Oeste baiano há recordes de safras, mas a produção muitas vezes é industrializada fora do estado. Para dar mais impulso à agroindustrialização da região foi assinado protocolo de intenções para construir complexo industrial em Barreiras.
O presidente da empresa Chongqing Dragonfly Oil, Hu Junlie, lançou recentemente a pedra fundamental da indústria Universo Verde, braço direito da empresa chinesa no Brasil - um investimento de R$ 300 milhões. Tem capacidade para triturar 1,5 milhão de toneladas de soja por ano, quase 42% da produção anual da safra 2010/2011.
Melhores índices - Em Luis Eduardo Magalhães, outro setor ganha fôlego com a industrialização. A avlcola Mauri-céa vai abater inicialmente em
sua unidade 150 mil frangos por dia e gerar 2 mil empregos diretos. "Nosso objetivo é verticalizar as cadeias produtivas, criar empregos e melhorar a qualidade de vida no campo", afirmou Eduardo Salles. O seminário Agenda Bahia debate Agronegócio, com foco em Industrialização e Economia Climática no próximo dia 14.
A Agrovale (Agroindústria do Vale do São Francisco) é uma das maiores empregadoras privadas da Bahia, com 4.360 funcionários. "Se a nossa empresa não estivesse funcionando em Juazeiro, muitos desses funcionários seriam obrigados a deixar a cidade para trabalhar em outros municípios ou até mesmo em outros estados", lembra o diretor da Agrovale e também presidente do Conselho Nacional da Agroindústria (Coagro), Carlos Cavalcante Farias.
"Além de gerar riquezas para pequenas e médias cidades, a agroindustrialização contribui para reduzir o inchaço nas metrópoles. Exerce um papel fundamental na redução das desigualdades sociais e nos índices de violência", avalia Cavalcante. Segundo o presidente da Coagro, no entanto, a Bahia somente vai conseguir agregar valor à sua produção "quando investir em industrialização".
Para secretário, legislação limita investimento na Bahia
Para o secretário Eduardo Salles, há um entrave para ampliar a agroindustrialização na Bahia. Parecer da Advocacia Geral da União (AGU), divulgado no ano passado, limita a venda de terras brasileiras a estrangeiros ou empresas brasileiras controladas por estrangeiros.
Segundo o parecer, as empresas que têm esse perfil estão impedidas de comprar imóveis rurais com mais de 50 módulos - o tamanho varia entre 250 e 5 mil hectares, conforme a região.
O advogado-geral da União, Luís Inácio Lucena Adams, alegou que entre as motivações da medida estão as recentes valorizações de commodities agrícolas, a escassez mundial de alimentos e a ten dência de ampliação do mercado de biocombustíveis.
Segundo ele, a decisão segue exemplo de outros países, que impõem limites à compra de terras. Mas, para o secretário, essa decisão "trava os investimentos na agropecuária do estado".
Segundo Salles, cinco grandes empresas querem investir "milhares de dólares e euros" na Bahia, mas não o fazem por causa da legislação.
Indústria movimenta economia
Com exceção do gerente da fábrica, todas as 200 vagas foram ocupadas por mão de obra local. A unidade é do Grupo Coringa, com capacidade para processar 200 mil toneladas de milho por ano.
"O benefício que estes trabalhadores trazem para o comércio local é muito grande, porque fazem a economia girar", acrescentou o presidente do grupo, José Alexandre dos Santos.
O investimento feito pela empresa na fábrica baiana, que fica na cidade de Luis Eduardo Magalhães, no Oeste do estado, foi de RS 50 milhões. A sede do Coringa fica em Arapiraca (AL).
Polo Petroquímico mudou a economia baiana
Diretor da Abaf, Wilson Andrade lembrou que a instalação do Polo Petroquímico de Camaçari, na década de 70, é um exemplo de uma verticalização industrial bem-sucedida. "O governo, grupos estrangeiros e empresários brasileiros tiveram todas as condições para realizar seus investimentos".
Wilson Andrade disse, ainda, que os portos e as estradas que cortam a Ba hia funcionam de forma precária. "O governo precisa resolver estes dois grandes gargalos para que os empresários tenham um estímulo a mais".
O otimismo demonstrado pelo secretário Eduardo Salles (Agricultura) em relação ao processo de industrialização do agronegócio reflete apenas parcialmente o pensamento de Wilson Andrade, um dos diretores da Federação das Indústrias do Estado da Bahia.
"A iniciativa privada está disposta a participar de todo o processo, mas o governo precisa investir em infraestrutura e dar segurança jurídica às empresas", afirmou.