José Lopes
Depois de três anos de pesquisas e andanças pelo Brasil, a empresa portuguesa BM Viv decidiu instalar sua primeira fábrica para produção de painéis solares térmicos, fotovoltaicos e iluminação pública com módulos fotovoltaicos fora da Europa, no município de Entre Rios, no Litoral Norte da Bahia, cujo plano de negócios prevê investimentos de 35 milhões de euros em dez anos.
CEO da Viv Brasil, Licínio Lima falou com exclusividade para o site Gente & Mercado sobre os objetivos da empresa e como funcionará o cluster (aglomerado de empresas) voltado à produção de energias renováveis que será formado em Entre Rios. Ele analisou também a crise financeira na Europa, o uso de energias limpas em Portugal e fez suspense quanto ao lançamento de equipamentos inovadores no setor à base de fibras naturais produzidas na Bahia, como o coco e o sisal.
Por que vocês decidiram instalar a fábrica em Entre Rios?
Licínio Lima – Primeiro, quero dizer que essa pesquisa começou há três anos com a nossa primeira vinda ao Brasil. Fizemos contatos com empresários de São Paulo, mas não gostamos de toda aquela confusão e chegamos à conclusão de que se fôssemos para lá seríamos um dentre muitos. Ninguém daria conta da nossa presença. Continuamos fazendo análises do mercado e chegamos à conclusão, devido ao elevado potencial solar, que faria todo o sentido virmos para um estado que, digamos, não tivesse o mesmo nível de desenvolvimento de São Paulo, mas que pelo fato de termos um produto diferenciado, pudesse nos acolher bem e optamos pela Bahia. Depois, passamos à fase da escolha do município para onde iríamos. Este processo demorou quase um ano. Apresentamos nosso projeto à Secretaria Estadual da Indústria, Comércio e Mineração (SICM), onde fomos muito bem recebidos e tivemos a confirmação de que tínhamos escolhido bem. Isso nos deu estímulo para combater todas as dificuldades que um investidor estrangeiro encontra para constituir uma empresa em um novo país, mesmo falando a mesma língua, porque existem problemas com relação às leis, por serem diferentes do nosso país. A empresa já existe formalmente desde outubro, quando tomamos a decisão de qual seria o município onde ela seria instalada.
O município de Entre Rios ofereceu vantagens para a fixação de vocês…
L.L. - Para lhe ser sincero, não sei quais são as vantagens.
Um terreno foi cedido pelo município e a infraestrutura (rede de energia, água e esgoto) também será montada pela prefeitura.
L.L. – Mas isso os outros municípios também ofereceram. Foi uma opção de coração e, fundamentalmente, uma ação que, levando em conta nossa realidade de uma empresa que quer defender o meio ambiente, é no social que vamos apostar. E se dermos esse contributo, perdendo um pouco da nossa margem comercial em benefício de populações mais carentes, estamos empenhados a estar lá, ao lado dessa população.
Vocês mesmos irão formar a mão de obra?
L.L. – Sim, em parceria com o Senai. Mas nossa grande aposta é que a pessoas tenham uma formação sem precisar de uma grande habilitação acadêmica. E queremos formar pequenos instaladores para lhes dar a possibilidade de se tornarem pequenos empresários com o certificado de instalador Viv Brasil. Queremos criar essa rede de pequenos empresários espalhada pelo País, mas nossa aposta primeira será sempre no estado da Bahia e, a partir daqui, iremos para outros estados.
Há uma previsão de quando essa formação de mão de obra irá começar?
L.L. – Pelo nosso calendário,as obras das nossas primeiras instalações devem estar concluídas até janeiro e vamos começar no final de fevereiro a dar formação profissional.
Qual a previsão de conclusão das obras?
L.L. – Não depende só de nós, depende também da prefeitura, mas prevejo seis meses para a obra. Entretanto, queremos começar a produzir e a comercializar até 2012. Quando estivermos com todas as nossas instalações concluídas e formos iniciar a produção, vamos trazer uma inovação, que são equipamentos produzidos no Brasil, com o maior rendimento térmico e o melhor preço do mercado, porque somos da política de que temos que universalizar o acesso às energias renováveis. Ou seja, baixar a margem, porque eu também posso ganhar dinheiro tendo volume de vendas. Quero ter um outlet, com produtos de qualidade e baixo preço para dar acesso a todas as pessoas. Quero facilitar com que a classe média tenha acesso a isso, veja que é bom e vale a pena.
Esses equipamentos serão produzidos com fibras naturais como o sisal e o coco?
L.L. – Sim, dentro de dois meses devemos apresentar os equipamentos nessa área, em comunhão com o presidente do Grupo Intergovernamental de Fibras Naturais da FAO, Wilson Andrade.
A Bahia é o maior produtor de fibras naturais do Brasil. Isso contribuiu para a instalação da fábrica de vocês no estado?
L.L. – Não, isso é resultado de um trabalho em conjunto com o Senai.
Qual será a produção mensal de painéis?
L.L. – Temos que funcionar um pouco em função da demanda, porque os custos de armazenagem estão caríssimos e as empresas precisam ter capital de giro para sobreviver. O que posso dizer é que estamos preparados para uma demanda pequena, média ou muito grande. Nossa unidade de produção acompanhará o ritmo que o mercado nos impuser.
Vocês pretendem formar um cluster de empresas de energias renováveis em Entre Rios?
L.L. – Posso lhe comunicar em primeira mão que nosso projeto contempla as três áreas de negócio de nossa linha de produção – solar térmico, fotovoltaico e a iluminação pública – e, a exemplo do que acontece com a indústria de automóveis, mas em escala diferente, vamos ter um complexo de empresas subsidiárias que abasteçam nossa linha de produção na área da siderurgia, estruturas metálicas, construção civil, eletricidade e pretendemos atrair algumas pessoas que venham a interagir conosco. Fizemos o convite a empresários portugueses no sentido de virem conosco. Três vieram conosco, mas enquanto fazíamos a viagem, outros empresários surgiram quando souberam da nossa ideia. Agora são oito empresários, que representam nove empresas, além da nossa. Quando eu percebi a adesão, lancei-lhes um desafio: podemos unir esforços no sentido de nos tornarmos mais competitivos compartilhando um conjunto de serviços de que todos vamos precisar. Todos nós vamos precisar de um refeitório, de um balneário, de um show-room, de uma equipe de marketing de vendas, de secretariado e salas de reuniões. Porquenão construímos tudo isso juntos e compartilhamos os custos numa regra proporcional de utilização da estrutura, mas que não é nada de outro mundo? A idéia é criar uma SPE (Sociedade de Propósito Específico).
Qual o volume de investimentos previstos para a instalação do cluster?
L.L. – Honestamente, ainda não sei, porque eles ainda não fizeram planos de negócio. Foi tudo muito rápido. Posso lhe dizer que o nosso plano de negócios, para dez anos aqui no Brasil, prevê o investimento de 35 milhões de euros. É algo que poderá ser antecipado em função da demanda do que formos fabricar. O grosso do nosso investimento será nos primeiros três anos, o que passa pela construção da unidade fabril e das linhas de montagem. Depois, vamos dar uma atenção muito especial à educação ambiental. Vamos ter uma unidade móvel para percorrer o país todo, uma carreta, com todos os equipamentos que vamos produzir para geração de energia solar para permitir a interação dos alunos das escolas públicas e para que eles vejam que é possível produzir energia sem ser em larga escala, que podem ter água quente sem precisar de chuveiro elétrico. Evidentemente, que nossa aposta primeira é na formação ambiental dentro do estado da Bahia.
Vai ser um belo “case” de propaganda.
L.L. – Volto a dizer que temos que criar consciência ambiental nas pessoas. Temos que dizer, por exemplo, que vale a pena substituir o chuveiro elétrico por um pequeno equipamento, um aquecedor solar de água, para que as pessoas possam tomar banho quente sem gastar energia elétrica. Se as pessoas não entenderem isso, vamos eclipsar as cidades, que qualquer dia terão apagões uns atrás dos outros. A rede de abastecimento de energia no Brasil é muito grande, mas o investimento nem sempre é feito de maneira a acompanhar de maneira sustentável o seu crescimento. Já tivemos situações de apagões no Brasil e se criarmos essa consciência ambiental, que permite – uma vez que tenhamos a tecnologia que estamos trazendo para o Brasil – alimentar até 2 MW de energia sem termos rede elétrica. Também temos cápsulas individuais para casas, de 500W a 2 MW, com um custo relativamente baixo. Um equipamento que abastece quatro lâmpadas, uma geladeira e uma televisão – e que durante muitos anos resolverá o problema de abastecimento de energia – sai por um mil euros (R$ 2,5 mil), com uma autonomia de 24 horas. O preço do equipamento varia, principalmente, em função do nível de autonomia que quisermos dar.
O anúncio da chegada da Viv Brasil coincide com o prolongamento da crise financeira na Europa. Vocês já previam essa crise?
L.L. – Já. Só os políticos portugueses e europeus não perceberam a crise, porque era uma crise anunciada. Quando as empresas estão descapitalizadas e o acesso ao crédito está caro e, não posso deixar de dizer, vivemos ainda uma geração que colhe os frutos das facilidades – e eu falo agora do meu país -, onde entravam recursos da União Europeia em grande quantidade, que eram utilizados de forma duvidosa (na construção de autoestradas para todos os lugares, obras loucas e faraônicas em aeroportos, subsídios a fundo perdido, etc), isso tinha que acontecer. Em vez disso, deveríamos ter investido nas pessoas, utilizando o método chinês que diz para ensinar a pescar e não dar o peixe. Nós fizemos todas essas asneiras, agora estamos pagando. Também destruímos nossa agricultura, nossa pesca e nossa industria e pensávamos que íamos ser um país de serviços, só que um país de serviços tem que estar de mãos estendidas à espera de quem venha comprar. E temos que comprar do exterior. Esse é mais um motivo de vir para o Brasil: a política fechada do Brasil. Eu sou empresário, vou precisar fazer negócios de importação e exportação, e o importante para um país é a riqueza interna que ele pode produzir. Quem estivesse prestando atenção sabia que isso ia acontecer. E em Portugal, tudo que precisamos vem de fora. Estamos chegando no Brasil já em vias de concretizar uma aliança com uma empresa angolana e, curiosamente e com orgulho, posso dizer que será pertinho da plataforma de Entre Rios, que vamos produzir e exportar para Portugal e Angola e isso porque aqui se dá importância ao conjunto de valores e princípios com os quais nós nos identificamos. E não sou traidor do meu país. Adoro o meu país, mas esta é a realidade. Também posso dizer que há uma classe empresarial má, que descapitaliza as empresas em proveito próprio, pensam que o dinheiro é deles, quando o dinheiro é das empresas. Depois, quando precisam de dinheiro, não têm porque gastaram. E isto é recorrente em Portugal.
No Brasil, isso também acontece.
L.L. – Como um empresário moderno, eu não acho isso correto. O Brasil tem um dos maiores grupos empresariais do mundo, as Organizações Odebrecht, e isso acontece porque foram empreendedores e muito ricos. A riqueza não faz mal nenhum, agora, que os empresários ricos ousassem empreender, porque ao empreender eles criam riqueza e distribuem essa riqueza. É grave quando alguém não forma riqueza e ainda colhe o pouco que foi produzido de maneira imediatista. Aí as empresas ficam impedidas de competir e começam a fechar. Não sei qual será o futuro da minha empresa em Portugal, mas há uma coisa que eu sei: continuamos saudáveis graças a essa visão: muito trabalho, muito trabalho e muito trabalho. Depois, respeitamos o dinheiro que a própria empresa gera.
Como está organizada sua empresa em Portugal?
L.L. – Temos parceiros estratégicos na Espanha (na região das Astúrias e Barcelona) e com eles temos assinados protocolos que permitem termos nossa própria marca em Portugal para painéis fotovoltaicos e térmicos. Achamos que Portugal, por si só não tinha mercado para sustentar a construção de uma unidade fabril. Esta visão permitiu a vinda para um país como o Brasil, onde posso produzir e exportar com a minha marca até para chamada “linha branca”. Em Portugal, fazemos também grandes instalações de ar-condicionado em grandes centros comerciais e que espero trazer essa experiência ao Brasil. Também andei observando as casas e fiquei impressionado com a má qualidade térmica das edificações. Isso implica em maior gasto de energia, o que implica gastos e em poluição. E as casas das pessoas têm que ser construídas com cuidados ambientais e energeticamente sustentáveis.
Teria que haver uma política pública?
L.L. – Tem que ser por decreto. Não conheço direito a estrutura de elaboração de leis por aqui, mas espero, modestamente, dar essa contribuição, porque temos essa experiência, que é importante. Hoje, as casas em Portugal têm uma classificação energética e à medida que vão baixando é pior. Quando a casa é negociada, ela paga mais impostos quanto pior for sua classificação energética. É uma medida simples e que provoca aumento de receita da Fazenda, mas é uma medida que tem um impacto extremamente interessante. Uma casa padrão “A” tem que ter bons vidros, bom isolamento nas paredes, nas coberturas, equipamentos de produção de energia, de água, quando temos tudo isso, temos um edifício amigo do ambiente.
Você pode falar um pouco sobre a revolução que as energias limpas têm provocado na indústria européia?
L.L. – Eu posso dar o exemplo de Portugal, que está hoje, provavelmente, entre os três países da Europa com maior produção de energia limpa (eólica, solar e hídrica) por habitante, com 50% do total da energia produzida dessas fontes. E isto é determinante para diminuir o déficit da balança comercial, porque Portugal é um país dependente do petróleo e do gás. Imagine o que seria o Brasil sem petróleo? Não seria o mesmo Brasil que conhecemos hoje. Portugal, ao subsidiar, de certa forma, estas micro-gerações de energia limpa induz a essa revolução porque não ficaremos livres e independentes de petróleo de um dia para o outro, mas estamos contribuindo para isso.
Como você vê a utilização de energia nuclear?
L.L. – Portugal não tem usinas nucleares, mas não sou daqueles que se deixa assustar pelos acidentes. Procuro ter uma mentalidade aberta. Havendo a possibilidade de se utilizar a energia solar, eólica e das marés, acho que temos que ser prudentes e explorar primeiro aquilo que já temos. Se tivessem feito isso, os acidentes de Chernobyl e do Japão não teriam acontecido. Isso ocorre por iniciativa do grande capital, que só quer lucro.
Você acredita em grandes projetos para produção de energia solar, como o Desertec (que prevê a instalação de usinas solares e eólicas nos desertos da África e Oriente Médio), ou nos pequenos projetos de utilização de energia solar na casa das pessoas? Em outros termos, você prefere a venda no atacado ou no varejo?
L.L. – Nos pequenos e em que tenhamos consciência para isso. Pequenas cidades de 10 mil habitantes, 5 mil habitantes podem ser abastecidas unicamente por energia solar. Temos sistemas capazes de alimentar cidades de até 25 mil habitantes. Agora, se nós pudéssemos transformar a classe média brasileira em pequenos produtores de energia, cerca de 80 milhões de brasileiros, veja a quantidade de milhares de megawatts de energia que iríamos produzir neste país? E não posso deixar de dizer que pelo Protocolo de Kyoto quem produzir energia e injetar na rede elétrica pode ganhar crédito de carbono e vender para os países que ainda vão precisar produzir energia para se desenvolver. É um grande negócio. O continente africano vai passar a poluir agora para poder se desenvolver e muitos países da América do Sul também. Penso que há muito por fazer.