Por Sérgio Leo | De Brasília
Com o lançamento de um novo modelo global, o primeiro com engenharia concebida no Brasil, a Ford apresentou ontem, em Brasília, seu mais forte argumento para influir na nova política industrial em discussão no governo. O modelo anunciado ontem, do utilitário esportivo EcoSport, com desenho e engenharia criados no centro de desenvolvimento de produto na Bahia, reforça o argumento dos executivos da montadora em favor de uma política automotiva voltada a investimentos em pesquisa e desenvolvimento - em lugar da ênfase no aumento do conteúdo nacional, como sugere o governo.
"É esse o caminho que o governo quer: mais pesquisa e desenvolvimento no Brasil, mais engenharia, mais inovação e mais conteúdo local", disse o ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, que, com o governador da Bahia, Jacques Wagner, participou do evento, ao lado do presidente da Ford para América do Sul, Marcos de Oliveira. A Ford aproveitou a feira do automóvel em Nova Déli, na Índia, para lançar simultaneamente o carro nos dois países, mas não mostrou o interior ou o motor do veículo, que deve entrar no mercado a partir de junho.
O novo modelo, segundo Oliveira, faz parte dos US$ 2,8 bilhões em investimentos no país até 2015; será fabricado no Brasil, na Índia e na Tailândia e vendido a mais de cem países. Especialistas dizem que as mudanças no EcoSport se destinam a reconquistar o mercado perdido para concorrentes como o Duster, da Renault. Mas os executivos da companhia vem apresentando o novo carro ao governo como um modelo do que deve ser buscado na nova política industrial, em elaboração para o setor.
"O que tivemos até agora é uma ação de curto prazo, que vai até 2012", disse ao Valor o diretor de Assuntos Corporativos da Ford para a América do Sul, Rogélio Golfarb, ao mencionar o recente aumento de IPI para carros importados. "Não temos ainda uma política de longo prazo, estruturante; isso ainda está em conversas", disse. "A questão é como criar um processo que leve a significativas mudanças de competitividade."
O novo EcoSport aproveita a plataforma do NewFiesta, carro compacto da Ford, mas com adaptações e redesenho feitos pelos engenheiros de Camaçari, com apoio dos outros sete centros de desenvolvimento distribuídos pelo mundo. A mudança, segundo dirigentes da empresa, autoriza dizer, como anunciou Mercadante, que o carro tem engenharia, transmissão e plataforma criados no Brasil pelos 1,2 mil engenheiros que trabalharam no produto no país.
"Precisamos desenvolver tecnologia local, inclusive para usar recursos locais", disse, citando o uso de fibras vegetais (sisal) mescladas a plásticos adotado pela Ford nos painéis em seus caminhões recém-lançados no país. Tecnologia vinculada a biocombustível e minerais abundantes no país também são um caminho para aumentar o componente tecnológico produzido no país, exemplificou.
Até 2015, a Ford pretende produzir no Brasil só carros com plataforma global, ou seja, vendidos nos principais mercados no mundo. "Esse ano vamos introduzir três plataformas globais no Brasil", disse Golfarb. Ele defende que o governo estimule o uso de vantagens competitivas locais, incentivando a pesquisa e desenvolvimento.
A Ford e outras montadoras instaladas no país têm negociado com o governo novas regras para a política automotiva a ser adotada neste ano, que, segundo já adiantaram os ministérios do Desenvolvimento e da Ciência e Tecnologia, deverão ter maior exigência de partes e peças produzidos no Brasil, para os modelos beneficiados por crédito oficial, incentivos ou redução de imposto. O governo ameaça até mudar o método de cálculo do componente nacional, hoje baseado em percentuais do valor total da produção - o que inclui gastos com publicidade, mão de obra e outros fatores além do total de peças e partes.
"A questão de proteção (aos fabricantes nacionais) só tem eficácia em longo prazo quando feita simultaneamente a projetos de competitividade", disse Golfarb. "Temos de ambicionar fazer coisas que os outros não fazem", insistiu, apontando como exemplo o desenvolvimento de tecnologia local vinculado aos projetos de produtos globais da empresa.