Urânio na água e solo de Caetité deve-se a fatores ambientais

13/02/2012


Em 2008, o Greenpeace denunciou a contaminação da água no distrito de Lagoa Real, em Caetité, devido à atividade de mineração de urânio realizada pela Indústrias Nucleares do Brasil (INB), classificada por aquela Organização Não-Governamental (ONG) como perigosa e poluente.


Moradora de Vitória da Conquista, cidade próxima à região uranífera, a física experimental Simara Campos decidiu investigar os impactos da mineração na região, principalmente devido à repercussão da campanha desenvolvida pela ONG junto à população local e das cidades vizinhas.


Como parte de seu projeto de doutorado na Universidade Federal de Sergipe, sob orientação da professora Susana de Souza Lalic, ela propôs estudar a região da mineração, realizando sob a sugestão de sua orientadora, levantamentos radiométrico em Caetité tendo como objetivo principal conhecer quais os reais efeitos da exploração de urânio e, consequentemente, sua influência no ambiente e na saúde da população que vive em seu entorno.


Durante dois anos, junto como as pesquisadoras Geângela M. Almeida, Roseli F. Genari e Susana O. Souza, coletou e analisou amostras de água e solo no entorno da mina de Caetité, desde Lagoa Real até o povoado de Maniaçu, distante 100 quilômetros.


A pesquisa concluiu que a alteração encontrada no meio ambiente é uma consequência natural da presença do urânio naquela localização e não devido simplesmente à exploração desse minério. Os resultados obtidos estão registrados no trabalho “Determination of the concentration of radionuclides in soil and water next the uranium mine of Caetité (BA)”, apresentado pelas pesquisadoras na seção de posters do X Encontro em Aplicações Nucleares (Enan), um dos eventos da Inac em 2011.


As conclusões dos estudos foram reforçadas com os resultados de um trabalho que gerou a dissertação de mestrado de Geângela M. Almeida, comparando as concentrações de radioisótopos encontradas em Caetité e no município de Santa Quitéria, no Ceará. Trata-se de outra região com grande disponibilidade de urânio, mas que atualmente ainda não é explorada.


“O solo da região de Caetité é muito rico em urânio e tório. Conseqüentemente, o que ocorre nas águas e no solo é um processo natural e não um processo de contaminação devido à exploração do urânio. Comparamos os dados de radiação ambiental de Caetité, que é uma região explorada, com os de Santa Quitéria, no Ceará, onde ainda não há atividade mineira, verificamos que os resultados encontrados são muito próximos. Isto é um indicativo que nos mostra que o que existe no local é influência da própria natureza e não consequência puramente de uma contaminação – afirma a pesquisadora e hoje professora adjunta da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.


Radioatividade natural – A radioatividade está presente na Terra desde a sua formação e todos os organismos vivos da natureza estão continuamente expostos à radiação ionizante. Elementos radioativos diversos são encontrados tanto na natureza (solo, água, pedras) e até mesmo dentro do corpo humano, em diferentes concentrações.


Algumas atividades humanas, como processo industriais ou mineração podem alterar a distribuição ou a concentração desses materiais radioativos, podendo por em risco a saúde dos organismos vivos ao redor. “Portanto, nos últimos anos, a atenção tem se concentrado sobre esses materiais e sobre as consequências radiológicas para o público em geral, bem como em locais de trabalho onde esse material é manuseado processado ou tratado”, diz o estudo.


No caso do urânio, a exposição à radiação acontece através da inalação ou ingestão. Segundo o estudo, a ingestão contínua do urânio, através da água ou de alimentos contaminados, traz diversos riscos à saúde, podendo levar a um acúmulo do elemento nos ossos, rins e todo o volume de medula óssea de células-tronco hematopoiéticas.


“Mesmo que a exposição ao urânio seja natural, a população precisa tomar medidas preventivas. É preciso, por exemplo, evitar a utilização de água proveniente de poços artesianos e, talvez, também do plantio na região”, alerta Simara Campos.


Foram analisadas amostras de solo e água de vários pontos dos municípios de Caetité e Santa Quitéria, e suas regiões circunvizinhas. As amostras de água e de solo foram coletadas em fazendas, que utilizam poços subterrâneos e cisternas para consumo animal - para irrigar a plantação e para consumo próprio - e solo onde é feito o plantio. Coletou-se, também, água na própria cidade, em praças e nas residências que utilizam água encanada. As amostras foram coletadas nos meses de fevereiro de 2010, em Caetité e maio de 2010, em Santa Quitéria.


Resultados e discussão – O Relatório Ciclo do Perigo – Impactos da Produção de Combustível Nuclear no Brasil, realizado pelo Greenpeace, conclui que há contaminação na água da região, pois duas amostras de água coletadas no entorno da mina de Caetité apresentaram concentrações de urânio superiores a 0,015 mg/L, concentração máxima de urânio permitida pela Organização Mundial de Saúde (OMS).


Segundo o estudo apresentado no X Enan, no entanto, deve-se considerar que os valores dessas concentrações nesse local já são naturalmente mais elevados que aqueles onde não há ocorrência de reservas de minerais de urânio.


O estudo mostra que as concentrações de urânio 238 (238U) detectadas na maioria das amostras não são superiores ao limite estabelecido pela OMS para a água potável, que é de 15 ppb, sendo as exceções os sítios P153 (Fazenda Rebouças) e P155 (Fazenda Boa Vista), que só atingiu o limite. “Ambos os “sites” estão localizados em duas fazendas no município rural de Lagoa Real, relativamente longe do local onde há exploração de urânio, e eles apresentaram concentrações muito mais elevadas do que a média de 238U nas dez amostras de água (a cerca de 3,7 ppm)”, afirma o documento.


As pesquisadoras ressaltam que sendo parte da região que contém grande parte do minério, a Fazenda Rebouças deve conter, naturalmente, altas concentrações de urânio em seu solo, e que através de processos naturais de lixiviação podem alcançar o lençol freático de onde se coleta a água para seus moradores.


Segundo o estudo, com base em parecer da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), ao analisar o potencial de contaminação para as comunidades do entorno, pode-se dizer que os lugares onde as altas concentrações de urânio na água foram detectadas estão localizadas em bacias hidrográficas diferentes, separadas por um divisor de águas importante (uma colina com algumas dezenas de metros). Também é importante notar que a Fazenda Rebouças está muito próxima a um reservatório de urânio importante, mas que ainda não está sendo explorado pela INB.


Em um relatório do Programa de Monitoramento da Qualidade da Água do Estado da Bahia foi avaliada a concentração de urânio em águas superficiais e subterrâneas nos municípios de Lagoa Real e Caetité. Os resultados mostraram duas amostras de água subterrâneas com concentrações acima dos limites máximos permitidos, entre todos os locais avaliados.


A conclusão do relatório era que os dados não permitem inferir se a atividade de mineração na região influencia as concentrações de urânio na água, já que não há limitação para a concentração de radioisótopos de ocorrência natural no solo.


Uma maneira de aumentar a concentração de elementos radioativos pode ocorrer sob certas condições do meio ambiente e da rocha que os contém (dependendo da pressão, temperatura e acidez etc.) O urânio é mobilizado a partir as rochas pelo intemperismo de uraninita (UO2). A ação das águas superficiais e subterrâneas causa a dissolução oxidativa da uraninita do íon solúvel uranilo (UO22+).


Em todo o mundo, de 27 mil a 32 mil toneladas de urânio são liberadas anualmente a partir de rochas ígneas, xisto, arenito e calcário pela erosão natural e intemperismo. Assim, acredita-se que a concentração de 238U determinada nos diversos pontos de coleta de água seja devida apenas a processos de lixiviação natural do solo que alcança o lençol freático de onde se coleta a água para seus moradores, afirma o estudo.


Conclusão - Segundo o estudo, os valores das taxas de dose efetiva da maioria dos locais estudados estão acima da média mundial determinada pela Unscear em 2000, que é 2,4 mSv/a. As maiores concentrações de nuclídeos estão naturalmente presentes nas amostras de solo, incluindo a concentração muito elevada de 232Th, sendo os principais contribuintes para o aumento da dose de radiação na mineração do entorno de Caetité.


O estudo conclui que a presença de radionuclídeos nas amostras de solo independente da exploração de minério, já que todos os pontos da região uranífera de Caetité apresentam concentrações em valores muito próximos.


Apenas um ponto de coleta de água em Caetité apresentou concentração mais elevada do que os limites recomendados pela OMS. A presença de radionuclídeos na água não decorre, necessariamente, segundo o estudo, da exploração da mina, já que os maiores valores encontrados se deram em uma fazenda em Lagoa Real, onde existe o minério (corpo de mina), mas que ainda não é explorado.


Uma das possibilidades de algumas amostras apresentarem elevado teor de urânio seria o fato que, quando ocorre chuva, esta lixivia a rocha que contém urânio e ele entra em solução e vai para o lençol freático. (V.D.)


COLETA E PREPARAÇÃO DAS AMOSTRAS


Foram analisadas 49 amostras, sendo 19 de água, coletadas diretamente das cisternas, de poços artesanais e das torneiras da residências da comunidade, 25 de solo, dois de telha preparadas com argila da região e três amostras cedidas pela INB, que são dois estéreis e um minério.


As amostras de água, inodoras, incolores e algumas de coloração amarelada, foram coletadas em garrafas PET transparentes, com capacidade para 250 ml. Após a coleta, foram adicionados à água 2ml de HNO3 (ácido nítrico), a fim de que a amostra se mantivesse íntegra, ou seja, que não houvesse a proliferação de microorganismos que causariam interferência na análise química das amostras. A seguir, as garrafas foram lacradas e devidamente etiquetadas. No laboratório, as amostras foram reservadas em local fresco, em temperatura ambiente até a realização das medidas.


Com relação às amostras de solo, foi coletado cerca de 1 kg de cada amostra. Para a coleta foi utilizada uma pá para a retirada da camada mais superficial de sedimentos. As amostras foram coletadas a cerca de 10 cm de profundidade.


As amostras de telha foram obtidas de uma telha de cada local e as de minério e estéril foram cedidas pela INB, que retiraram da mina de Caetité em exploração. Tanto as amostras de solo como as de telha foram guardadas em sacos plásticos e lacradas.


Para a determinação dos isótopos constituintes das amostras foi utilizada a técnica de espectroscopia de massa com plasma induzido acoplado ou ICP-MS (Inductively Coupled Plasma Mass Spectrometry). Trata-se de um tipo de espectrometria de massa altamente sensível e capaz de determinar uma série de metais e não-metais em concentrações muito baixas.


Todas as etapas de preparação química das amostras e de análise química por espectroscopia de massa com plasma (ICP-MS) foram realizadas no Laboratório de Cristais Iônicos Files Finos e Datação do Instituto de Física da Universidade de São Paulo.


A partir das concentrações dos radioisótopos obtidos nas amostras é possível calcular a dose gama (Dy), a taxa de dose absorvida (D) e a taxa de dose efetiva (H) a que a população está exposta.

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