De caldeireiro a pintor, profissional tem chance na indústria naval

19/03/2012

DONALDSON GOMES


A indústria naval baiana está ressurgindo na margem direita das águas calmas do Rio Paraguaçu. Mesmo na etapa final da construção das plataformas P59 e P60, sob a responsabilidade do Consórcio Rio Paraguaçu, o canteiro da Petrobras, em São Roque, distrito de Maragojipe, abriga 3,3 mil homens e mulheres, cujo trabalho resgata a vocação regional que ficou guardada - quase esquecida - por mais de 20 anos.


Cortar, colar e moldar modernas estruturas de metal é o destino do pequeno território a 180 quilômetros de Salvador. Para profissionais com qualificações para o trabalho com soldas, caldeiraria, mecânica, eletromecânica, montagem e pintura industrial, entreoutras funções, as terras que testemunham o contínuo encontro do Rio Paraguaçu com a Baía de Todos-os-Santos podem representar uma boa opção de futuro profissional.


Com 28 anos de experiência, metade deles na Refinaria Landulpho Alves, o técnico em mecânica e eletromecânica Joceval Barroso decidiu encarar o desafio da indústria naval. Deixou um salário melhor e a confiança obtida ao longo dos anos no local de trabalho anterior e foi para o canteiro de São Roque, onde trabalha inspecionando a montagem das plataformas P59 e P60. "Eu pedi para vir porque queria o novo. A área naval é o futuro", destaca.


Uma das funções de Joceval é nova no mercado de trabalho brasileiro. Ele trabalha no comissionamento, que consiste em acompanhar o processo de fabricação das estruturas e prepará-las para partir com o menor risco de danos. "O Brasil inteiro está construindo plataformas, e o comissionamento é necessário em todas", diz.


A demanda por profissionais na indústria naval varia em relação ao número de profissionais exigidos e ao perfil de atuação dos mesmos de acordo com o estágio das obras, explica o coordenador do empreendimento P59 e P60 da Petrobras, Antônio Raposo. Segundo ele, nas etapas iniciais, quando acontecem as obras civis para a montagem do canteiro, aparecem mais oportunidades para profissionais com menor nível de qualificação profissional. "Nós chegamos a contar com mais de quatro mil pessoas", lembra. Depois disso, à medida que o empreendimento avança para a montagem e finalização das estruturas, como é o caso atual em São Roque, a exigência passa a ser por profissionais cada vez mais capacitados.


Natural de São Roque, a inspetora de solda Carla Maria dos Santos foi crescendo junto com o canteiro. Ela entrou lá em 2006, trabalhando como taifeira, responsável por serviços de apoio, e começou a estudar para crescer. Enfrentou dificuldades para se qualificar, mas não desistiu. Além de ter sido uma das primeiras mulheres da comunidade a trabalhar na área de obras, especializouse em pintura e conquistou a certificação como inspetora. "Eu fiz a prova, não consegui inicialmente, mas nunca desisti", lembra.


Do total de 1,4 mil trabalhadores das plataformas, 75% são moradores


De 1,4 mil trabalhadores envolvidos diretamente na construção das plataformas P59 e P60, que estão em fase final de obras, 75% são moradores de cidades do Recôncavo baiano, de acordo com dados da Petrobras. Outros 15% são de outras regiões da Bahia, enquanto apenas 10% são de outros estados ou de outros países. Mesmo com as obras em finalização, a expectativa é que o canteiro permaneça em atividade, com a construção de estruturas e a manutenção de outras. Entretanto, existe grande expectativa quanto à possibilidade de a Petrobras exercer o direito contratual de encomendar uma terceira plataforma ao Consórcio Rio Paraguaçu, contratado para as obras das duas primeiras.


O movimento nas ruas de São Roque é intenso. A movimentação de construções e reformas toma conta de praticamente todas as ruas da cidade. Em menos de dois anos, a única farmácia do local teve que se modernizar para competir com os dois novos estabelecimentos do tipo que chegaram ao local. No mesmo período, a intensa movimentação de gente de fora estimulou a criação de quatro pousadas onde praticamente não havia opções de hospedagem. Morador de São Roque do Paraguaçu desde 1973, um dos mais antigos trabalhadores do local, Manoel Geraldo dos Santos, de 73 anos, resume melhor que qualquer número a importância que a indústria naval tem para o distrito de Maragojipe. "Quando fica sem obra, fica ermo. O pessoal se vale da pescaria", explica.


Influência na região


Embora São Roque e Maragojipe concentrem grande parte da influência econômica da indústria, a presença de trabalhadores de Nazaré das Farinhas, Cachoeira, Salvador, Alagoinhas, entre outras cidades, mostra que o raio de influência do empreendimento é bastante amplo. Morador de Nazaré das Farinhas, o técnico de soldagem Fábio Carvalho, 37 anos, lembra que o mercado naval não costuma respeitar fronteiras geográficas. "Tem gente de vários lugares", diz. Com o nível de qualificação que tem, ele mesmo está apto a ir para qualquer lugar. "Eu busco não só o curso. Quero sempre uma boa certificação", explica.


Saindo de uma jornada de 14 dias de trabalho, o técnico de mecânica Ivan de Carvalho, 36 anos, diz que o profissional precisa ter disponibilidade para viagens. "Quando a empresa precisa, a gente tem de ir mesmo", explica. Com mulher e uma filha de nove meses, ele reconhece que é difícil acostumar com a rotina. "Quando eu embarcava, a mulher chorava muito, mas é um sacrifício que a gente faz pela família", diz.

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