TRABALHO
DONALDSON GOMES
O som das máquinas que trabalham na preparação da área de 1,6 milhão de metros quadrados onde será instalado o Estaleiro Enseada do Paraguaçu (EEP), das empresas Odebrecht, UTC e OAS, já faz parte do dia a dia das 167 famílias da Enseada, localidade separada de São Roque pelo Rio Baetantã, afluente do Paraguaçu. A chegada do empreendimento, cuja instalação exigirá investimentos de R$ 2,3 bilhões e que deverá gerar três mil empregos diretos na construção, cinco mil diretos durante a operação e até 20 mil postos de trabalho indiretos, é vista com grande expectativa na região.
A instalação do EEP na Enseada do Paraguaçu está relacionada ao contratopara a construção de seis sondas, cujo custo estimado é de US$ 800 milhões, cada. Entretanto, a expectativa dos investidores é de canalizar para as margens do Paraguaçu uma carteira de projetos capaz de garantir a operação em ritmo intenso no local por mais de 30 anos. Para muitos, incluindo-se aí governantes, empresários e representantes de classe, estes novos investimentos na indústria naval podem marcar o ressurgimento econômico do Recôncavo, que ainda hoje olha para trás, saudoso dos tempos áureos da indústria do fumo.
O presidente do EEP, Fernando Barbosa, destaca o caráter estruturante do projeto para o Recôncavo. "É uma região escassa em oportunidades", lembra. Para ele, a formação de mão de obra necessária não deverá representar maiores problemas para a implantação do empreendimento. Na primeira fase, os trabalhadores serão formados pelo programa Acreditar, da Odebrecht, que já formou mais de 50 mil pessoas no Brasil e visa à utilização da mão de obra regional. "Durante a operação, nós também pretendemos priorizar a mão de obra local", garante. Para isso, o empreendimento pretende contar com programas públicos, como o Prominp e iniciativas do Estado. "Nós tomamos como referência o caso de São Roque, onde foi possível chegar a 55% de uso da mão de obra local", destaca Barbosa.
Faz uns 30 anos que o empresário Jorge Guedes, conhecido em Maragojipe como Jorge de Bena, não vê o comércio local movimentado como está hoje. "Hoje tem muita gente aqui que trabalha lá em São Roque", diz. Empolgado com a movimentação nas lojas de móveis e de materiais de construção, ele aproveitou o momento para construir um hotel de 64 leitos na cidade. "Pode pesquisar, é o melhor hotel do Recôncavo", comemora. E o melhor, está sempre ocupado. "Às vezes fica com 30, 35 quartos ocupados, mas tem épocas em que não tem vaga para ninguém", conta.
Na prainha em Enseada, Antônia Barreto Gonzaga tentava ensinar a neta de 11 anos a usar o jereré para pegar siri. Aos 61 anos, ela caminha para a aposentadoria como pescadora, porém não quer a mesma vida que teve para os dois filhos e dois netos. "Eu sei que vai mudar muito. Hoje já é difícil pescar, mas eu não quero meus filhos vivendo da maré", explica. A esperança de diasmelhores foi o que levou o pedreiro Rogério dos Santos Silva, 30 anos, a caminhar cinco quilômetros entre Conceição de Salinas e Enseada para entregar um currículo para trabalhar nas obras civis do estaleiro em Enseada. "É uma oportunidade de trabalhar com carteira assinada sem ter que sair para Salvador", diz.
Baía de Todos-os-Santos
Para o secretário do Planejamento do Estado (Seplan), José Sérgio Gabrielli, o projeto em Enseada do Paraguaçu complementa uma série de ações que deverão impactar a Baía de Todos-os-Santos. Além dele, Gabrielli enumera o projeto da ponte ligando Salvador à Ilha de Itaparica, o Terminal de Regaseificação da Petrobras e empreendimentos no Centro Industrial de Aratu e no Polo de Camaçari. "A gente precisa estimular a articulação para que o desenvolvimento aconteça com planejamento", diz.
Acesso a rede de esgoto, moradia de qualidade e saúde são desafios
Sem água potável ou serviços de saúde e educação apenas até a quarta série, a população de Enseada espera que a presença do estaleiro mostre ao poder público que os moradores do antigo quilombo existem. "Nas audiências públicas, disseram que haveria um posto de saúde e segurança", lembra a vice-presidente da Associação dos Pescadores e Marisqueiras Remanescentes de Quilombos de Enseada do Paraguaçu, Maria Auxiliadora dos Santos.
De acordo com o prefeito de Maragojipe, Sílvio Ataliba, questões como o acesso a rede de esgoto, moradia de qualidade e saúde são uma preocupação em todo o município. "A perspectiva do estaleiro já atraiu para cá um grande contingente de pessoas. Nós precisamos de ajuda para não haver um favelamento", diz. Segundo ele, a prefeitura exige o uso de 60% da mão-de-obra local para a concessão de incentivos municipais.