Setor de energia solar aguarda regulamentação

26/03/2012

DONALDSON GOMES


Crise na Europa: redução dos incentivos à produção de energia limpa por lá, muitos equipamentosparaprodução disponíveis, mas nada de compradores. O ano é o de 2012, entretanto o leitor mais atento há de lembrar que este cenário é idêntico àquele de 2008, quando o Brasil aproveitou a crise financeira no exterior como oportunidade para se posicionar entre os gigantes produtores de energia eólica. A comparação é inevitável entre especialistas e empresários. Eles olhampara o cenário com aquela sensação de já ter visto o filme antes. Muda apenas um detalhe: desta vez o alvo é a estruturação do mercado de energia solar.


O primeiro passo para a estruturação do mercado de energia solar do País é aguardado para os próximos meses com a possível publicação da regulamentação para o uso comercial da energia, através da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).


Procurada pela reportagem, através da assessoria de imprensa, a Agência não retornou os pedidos de informação, mas a publicação é dada como certa tanto nos meios empresariais, acadêmicos e até por representantes de governos. Depois da regulamentação, o próximo passo seria a realização de um primeiro leilão de energia. "Hoje o mercado está liberado apenas para quem produz para a utilização própria, sem a possibilidade de vender. Isso inibe os investimentos", avalia o coordenador da Câmara de Energia da Secretaria da Indústria, Comércio e Mineração (SICM), Rafael Valverde.


Investimentos


De acordo com ele, o cenário atual inibe os investimentos de quem vê a energia solar como um negócio. "O governo federal já deu sinais de que a regulamentação está para sair", aponta Rafael Valverde.


Depois da regulamentação, ele acredita que o caminhoda energia solar será idêntico ao da energia eólica, que em menos de uma década tornou-se uma fonte competitiva em termos de custos de produção. "Em 2009 o megawatthora custava mais de R$ 140, no último leilão chegou a R$ 96", lembra.


Matriz terá preços competitivos em seis anos


Que o primeiro leilão de energia solar está próximo, não há dúvidas. Mas ainda não deve esperar a venda de energia por preços competitivos em um futuro próximo, avalia o professor do mestrado em energia da Universidade Salvador, Osvaldo Soliano. "Não se deve imaginar um leilão competitivo em termos de preços. Precisa ter uma tarifa diferenciada", destaca. Para ele, os preços só se tornaram interessantes dentro de cinco ou seis anos.


Segundo Osvaldo Soliano, a resistência em relação à realização de leilões de energia solar é a necessidade de subsídios. Para o professor, o mais viável será a realização de leilões específicos inicialmente. "Mais cedo ou mais tarde, o Brasil vai findar realizando leilões para a energia solar", acredita.


Em outra frente, com a regulamentação da figura do microprodutor, através da chamada geração distribuída, também esperada para breve, deverá tornar os projetos mais frequentes. Ao contrário dos parques, quando um grande volume de energia é gerado em um mesmo lugar e conectado à rede de distribuição, neste modelo pequenos produtores de energia solar disponibilizam à rede o excedente de energia que produzem. Para o presidente da Associação Brasileira de Energias Renováveis e Meio Ambiente (Abeama), Roberto Baldini, a geração distribuída émais fácil de ser implantada. "Neste caso, o financiamento é de responsabilidade do usuário", diz. Um dos sinais de que o Brasil deverá mesmo investir na matriz energética foi a utilização do fundo de Pesquisa e Desenvolvimento das distribuidoras de Energia para a realização de projetos relacionados à energia solar, em um total de 50 megawatts. A Coelba, por exemplo, apresentou um projeto para implantar 1 megawatt.


Renova planeja investimentos


Responsável pela instalação de parques eólicos na região de Caetité, a Renova Energia estuda investir na produção de energia solar no interiorda Bahia. De acordo com o presidente da empresa, Mathias Becker, os mapas que medem a qualidade da radiação solar para a produção de energia no Estado indicam uma área de interesse do norte da região oeste da Bahia até a região sudeste.


"A energia solar hoje equivale ao que era a energia eólica entre 2006 e 2007. Nós estamos bastante motivados como potencial do mercado", destaca Becker. Além da descoberta do potencial, ele destaca a presença de outros fatores que favoreceram a expansão eólica e que agora seriam capazes de estimular o desenvolvimento da matriz solar. "A tecnologia evoluiu bastante e os países que incentivaram o uso da energia solar estão em crise e diminuindo os subsídios para o uso por lá", explica.


Com parques eólicos em fase final de implantação em Caetité, a Renova estuda inclusive a possibilidade de utilizar as duas matrizes energéticas de maneira complementar. Segundo Becker, os investimentos dependem apenas da regulamentação do mercado. "Como extrair energia do sol a gente sabe há muito tempo. A questão é como fazer isto a um preço competitivo", diz. De acordo com a SICM, existem várias empresas interessadas em apresentar projetos na Bahia. Algumas são produtoras de energia e outras produzem equipamentos.

Tags
destaque 2