Bahia aposta no uso do sisal

28/05/2012

JULIANA DIAS


Cerca de 96% do sisal baiano, conhecido também como agavesisalano, que hoje é jogado fora, passará a ser empregado na indústria alimentícia, farmacêutica, automobilística, moveleira e na construção civil. Os potenciais explorados do agave são capazes de produzir desde a bebida alcoólica destilada tequila a creme vaginal para tratamento da candidíase (doença sexualmente transmissível). Além disso, o aumento da exploração do agavesisalano, com a introdução do agave azul (oriundo do México), se tornará uma importante fonte de renda para a região sisaleira, quase sempre castigada por estiagens, como a que atualmente atinge os municípios da região. A ideia do aumento do aproveitamento do sisal surgiu com a visita de empresários mexicanos à região no ano passado. Eles viram na área sisaleira qualidades e potenciais para a produção do agave azul - única das mais de 200 espécies de agave, com as características apropriadas para a fabricação de tequila. Para a produção da espécie mexicana, são necessários de 800 até 1.700 metros de altitude, com temperaturas que variam de 26° C a 47° C. "Temos regiões no México bem parecidas com as nossas aqui, tanto em pluviosidade quanto em clima. Mas precisamos testar. Faz-se necessário trazer os produtos e fazer campos experimentais em localidades diferentes, preferencialmente não só do agave azul, mas de outras espécies", destacou o diretor-executivo da Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário da Região Sisaleira (Apaeb), Ismael Ferreira.


Convivência


Segundo Ferreira, o agavesisalano veio do México para a Bahia há mais de 100 anos. "Está na hora de experimentarmos outras opções em nossa região, local que chove pouco, não temos rios e até a água do subsolo é salgada. Essa realidade não podemos mudar, mas trazer para cá culturas adaptadas a essa região, isso pode ser feito", ressaltou. O secretário estadual da Agricultura, Eduardo Salles, aposta nas experimentações para o desenvolvimento do sisal na Bahia. "Essa solução, junto com o umbu, a palma, o caju e a mandioca, é atividade que convive bem com o semiárido. Precisamos estruturar melhor essas cadeias que são mais resistentes à seca, para não passarmos por situações como a que estamos vivendo", disse.

Campos para experiências serão instalados em 5 regiões


Em junho próximo, em um workshop, será assinado protocolo para a instalação de campos experimentais para testar as variedades do sisal em cinco regiões distintas do Estado. O workshop vai contar com a presença dos empresários mexicanos e técnicos das Embrapas (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) da Paraíba, Semiárido e Agroenergia.


As secretarias estaduais estão desenvolvendo também uma máquina estacionária que desagregará a fibra, o suco e a mucilagem (folha) do sisal - cada componente tem potenciais para a indústria alimentícia, farmacêutica, automobilística, moveleira e construção civil - e a instalação de uma biofábrica, em parceria com a Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) para produzir mudas sadias do sisal.


"Será uma média de um milhão demudas por ano dos três gêneros (híbrido 11648, agavesisalano e tequilano). Será uma ação transformadora", disse o secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), Paulo Câmera. A biofábricaserá instalada no campus da UFRB, em Cruz da Almas, com investimentos total de R$ 5,914 milhões. A previsão é que as instalações se iniciem dentro de 90 dias. O Banco Mundial é um dos apoiadores do projeto. A máquina estacionária custará R$ 1,29 milhão.


Baixos preços desagradam a agricultores da região


O sisal é o grande responsável pelo ganha pão do sertanejo na região sisaleira, localizada no semiárido nordeste do Estado (a pouco mais de 200km de Salvador).


A exploração das potencialidades do sisal na região é vista com bons olhos pelos agricultores. De acordo como diretor-executivo da Apaeb, Ismael Ferreira, o cultivo de sisal na região tem piorado a cada dia devido aos baixos preços.


"Costumo dizer que não se come o sisal, mas não se come sem o sisal. Mas a situação tem piorado a cada dia, os baixos preços não compensam os esforços dos produtores e trabalhadores. Hoje um produtor recebe por ano aproximadamente R$ 240/ tonelada. Os trabalhadores, no máximo R$ 100/semana. Daí a necessidade de buscar trabalho fora. Mas tem solução, é preciso vontade política para isso", ponderou Ismael Ferreira.


Com a utilização dos subprodutos do sisal, a expectativa dos produtores e agricultores é que a vida no semiárido se torne mais próspera, independentemente dos aspectos climáticos.

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