Fábrica da JAC é um projeto ambicioso

28/11/2012

DONALDSON GOMES


Um dos principais responsáveis pela captação de investimentos empresariais para a Bahia, o secretário James Correia conta como foi a negociação para atrair o projeto da montadora chinesa JAC Motors. Nesta entrevista exclusiva, o secretário lembra da oposição dos produtores de veículos nacionais e da disputa com outros estados da Federação


O que representa o lançamento da pedra fundamental da JAC Motors?


É a consolidação de um processo que durou três anos para ser maturado, envolveu diversas articulações do governador com o governo federal e um grande projeto para a Bahia. Nós estamos definitivamente no cenário da indústria automativa.


Os projetos da Ford e da JAC Motors são concorrentes ou complementares?


Olha, a Ford é um projeto importante. Começou na Bahia de forma pioneira no Nordeste, depois ampliou e está nesta fase ainda porque se mostrou um projeto extremamente competitivo, mesmo na Bahia. A grande diferença do projeto da JAC, que a gente explora pouco, é que é um projeto ambicioso de um grupo nacional. É um projeto que prevê um centro de desenvolvimento, uma parceria com a China, mas pode significar não só um grande volume de empregos, mas um marco importante para a indústria nacional por consolidar um grupo brasileiro no controle de uma empresa que vai produzir 180 mil veículos.


Os chineses entrariam só com a marca?


Os chineses estão vindo para cá, nas reuniões que participamos na China, ficou combinado que eles vêm fazendo joint-venture (associação de empresas). É uma cultura diferente. A JAC vai contribuir decisivamente para a Bahia produzir mais de 500 mil veículos a partir de 2015. Essa é a marca que devemos ter no setor. Entre empregos diretos e indiretos, devemos ter 20 mil empregos. Já temos carros sendo projetados na Bahia, pela Ford. Devemos ter os próximos da JAC também.


Quando vamos começar a ter produção de tecnologia local?


Nós já temos. Muitas empresas que desenvolveram tecnologia de componentes, algumas se estabeleceram, outras foram compradas por grandes grupos. Aqui no Brasil, existe a produção de 40% local, mas é uma produção de empresas estrangeiras. A Vipal (com fábrica em Feira de Santana) é uma empresa nacional, agora vai fazer um investimento importante... (A empresa vai investir R$ 88 milhões e gerar 330 empregos na ampliação da planta industrial).


Em determinado momento o presidente da JAC Motors declarou que suspenderia a construção da fábrica por questões tributárias. O projeto esteve em risco?


Se não sai o regime automotivo nos moldes em que saiu não haveria condições de se viabilizar aquele investimento. Como é que você vai investir e bancar um IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) bem maior? O governador Jaques Wagner sempre teve muita confiança de que daria certo. Ele tem essa característica. Durante a ampliação da Ford, ele negociou por um ano no mais absoluto silêncio. Ninguém além dele sabia da negociação com o governo federal. Com a JAC também houve uma negociação longa, que ninguém tinha conhecimento. Ele e Sérgio Habib se encontraram no Chile e vieram conversando de avião até Salvador. O governador viu que é um grupo grande, que fatura quase R$ 6 bilhões por ano, tem mais de 100 revendas...


Mas de lá para cá, ainda haviam muitas dúvidas?


Sim, a empresa tinha propostas de outros estados, depois do anúncio tivemos o percalço do aumento do IPI, uma MP que criou as condições para a Fiat ir para Pernambuco. O governador ainda conseguiu incluir a Ford, mas o governo federal teve que fechar as portas e só deixou a Fiat.


A demora na publicação do decreto com o novo regime automotivo teve algum tipo de interferência política?


Olha, o aumento do IPI abalou muito a confiança dos chineses. Sérgio Habib já sabe como as coisas funcionam aqui. Agora, neste aumento do IPI teve uma tentativa clara de se estabelecer um monopólio. Coisa do tipo, 'neste clube que já produz, não entra mais ninguém'. Agora, ficou uma coisa tão insustentável que vários estados, a Bahia neste grupo, começaram a discutir.


O problema foi São Paulo?


Não, o problema foram as empresas. A Anfavea, que é muito forte, conseguiu convencer o Ministério da Fazenda de uma invasão de carros asiáticos no mercado nacional, quando na realidade se viu que isto não existe. As grandes empresas que já produzem aqui são as maiores importadoras.


As montadoras nacionais?


As montadoras que já estão estabelecidas aqui há mais tempo. O que importa é que até sair o decreto tivemos um momento de incerteza. Agora, o projeto já está em obras, a China, que tem 20%, cogita ampliar a participação no projeto. Nós torcemos que cumpra o cronograma.


Qual é a chance da JAC Motors se tornar uma nova Asia Motors, que teve o lançamento da pedra fundamental, mas não se instalou? A Asia Motors foi diferente. Ela recebeu os incentivos antes. O Estado tem ação judicial, o governo federal também, mas é uma situação complicada.


A Bahia tem alguma ação?


Não sei se tem ação, mas tem créditos a receber. Agora, se começar a fábrica e parar no meio, problema dele. Só vai gastar dinheiro. Hoje tem que vender com o IPI cheio e compensar depois, com a fábrica pronta.


Em termos de receita tributária, a fábrica traz algum benefício ou a Bahia está trocando empregos?


A fábrica tem um escalonamento em cima dos benefícios, mas nos primeiros anos nós estamos realmente abrindo mão de uma receita que teríamos, de ICMS, via um programa para incentivar a atração dos investimentos. Em relação aos fornecedores, vamos começar a ter um benefício sim de arrecadação. A JAC e a Foton devem gerar 10 mil empregos, o que vai representar um impacto grande na economia. Eu queria lembrar o seguinte: quando a Nissan foi para o Rio de Janeiro, o governo tirou dinheiro do bolso, eles deram créditos de ICMS. Isso o governador não aceita fazer. Posso dizer que concedemos o menor nível possível.


De quanto será a renúncia?


Eu não tenho esse número, mas é cinco a seis vezes menos que a Fiat recebeu em Pernambuco.


Até a JAC, a Bahia sofria muitas críticas por disputar investimentos na cadeia automotiva e perder. Houve uma autocrítica que motivou uma mudança de estratégia?


Não, houve uma estratégia muito forte. O governador fez um esforço muito grande, foi duas vezes à China, uma com a presidente Dilma, que deu respaldo ao pleito, e nós fizemos uma estratégia idêntica às outras empresas. Ninguém sabe, mas nós visitamos a Volkswagen. Fizemos uma proposta muito agressiva, mas eles preferiram ampliar no Paraná.


A ida da Fiat para Pernambuco é boa ou ruim para a Bahia?


Foi bom para a Bahia, que é muito maior que Pernambuco. Eles têm uma estratégia de marketing mais robusta. A Itaipava vai investir aqui R$ 1,1 bilhão. Lá são R$ 500 milhões. Nós temos uma refinaria construída lá com boa parte dos empregados baianos, por falta de mão de obra especializada lá. E essa refinaria deles sofre com uma série de atrasos. É ótimo que Pernambuco crie alternativas de investimentos porque isso fortalece o Nordeste.


Como está o processo de implantação da Foton?


Está bem, eles vão começar a produzir antes da JAC por conta do regime de CKD.


Quanto existe de investimento garantido no setor automotivo?


A ampliação da Ford é de R$ 2,5 bilhões, podendo chegar aos R$ 3 bi. A JAC, incluindo rede de concessionárias, R$ 1 bilhão, e a Foton, R$ 300 milhões. Temos a ideia de mais R$ 1,5 bilhão com mais 30 fornecedores para a JAC e a Foton.

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