02/12/2014
Na entrevista de emprego não se deve chegar atrasado. A saia curta, a maquiagem pesada e o boné, melhor deixar em casa, junto dos vícios de linguagem e dos erros de concordância. A Bahia e o Ceará têm hoje os melhores índices de aproveitamento do sistema público de intermediação de mão de obra do país, dizem suas respectivas secretarias de trabalho, graças a seus programas mais básicos - de orientação psicológica e de reforço em matemática e português.
Nos dois Estados, mais de 50% das vagas cadastradas no Sistema de Intermediação de Emprego (Sine) entre janeiro e setembro foram preenchidas, contra 25% da média nacional. No período, com cerca de 4 milhões de inscritos e 2,1 milhões de oportunidades captadas junto às empresas, o programa gerou apenas 533,8 mil contratações - 21,5% das quais nos dois Estados nordestinos. A baixa qualificação dos aplicantes, que motivou a reforma do sistema em ambos os locais, é apontada em quase todo o país como o principal entrave para o aumento da eficiência do Sine.
Na Bahia, as mudanças vêm sendo implementadas desde 2008. A principal delas, para a superintendente de Desenvolvimento do Trabalho do Estado, Maria Thereza Andrade, foi a contratação de 6 psicólogos e 27 estagiários estudantes de psicologia, hoje responsáveis por aplicar testes de aptidão e dar "feedback" - a chamada "devolutiva" - aos trabalhadores. Eles alertam, por exemplo, quando alguém precisa melhorar a comunicação, o português ou ganhar conhecimento em informática.
Depois dos primeiros meses de trabalho, detectadas as principais deficiências dos baianos que procuravam o Sine para se colocar no mercado de trabalho, a secretaria passou a formular cursos complementares de qualificação, recomendados pelos especialistas em paralelo a iniciativas do governo federal como o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico (Pronatec).
Atualmente são ministradas, por exemplo, oficinas de duas ou três horas de duração que funcionam como uma espécie de manual de boas maneiras - que tipo de roupa o candidato deve escolher para a entrevista, qual o tom de voz e o vocabulário mais adequados. Os chamados cursos breves, que se estendem por uma semana, ensinam desde oratória, redação e raciocínio lógico até atividades específicas, como a de técnico em vendas e auxiliar administrativo - que estão entre as vagas mais captadas pelo sistema.
Esse redesenho, para Maria Thereza, tenta driblar o problema ainda persistente da baixa escolaridade, bastante delicado no Nordeste. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2013, uma em cada quatro pessoas com mais de 15 anos é analfabeta funcional na região. "Muita gente que passa pelo curso vem nos agradecer dizendo que não sabia que falava errado", afirma a superintendente.
Assim como na Bahia, no Ceará o sistema não se mantém apenas com os repasses de recursos do Fundo de Amparo do
Trabalhador (FAT), mas com aportes feitos pela administração estadual. No caso cearense, a gestão do Sine é feita desde 2001 por uma organização social independente, o Instituto para o Desenvolvimento do Trabalho (IDT). Graças a esse arranjo, afirma Gilvan Mendes, presidente do Sine/IDT, o Ceará é um dos únicos Estados, por exemplo, onde o atendimento pode ser agendado pela internet.
Moradora de Maracanaú, nos arredores de Fortaleza, Alana Brenda Rodrigues conseguiu o primeiro emprego, em uma empresa de telemarketing, através do Sine, quando tinha 18 anos. No curso de uma semana que fez antes das entrevistas, ela aperfeiçoou a digitação e aprendeu sobre os "cuidados" que se deve ter quando se chega à empresa, da roupa à maneira de falar.
Depois de quase três anos na empresa, ela resolveu voltar a se dedicar aos estudos e hoje, aos 22, frequenta o curso de fisioterapia - ela é a primeira da família a cursar o ensino superior -, área em que sonha em trabalhar.
Além do acompanhamento psicológico e das chamadas oficinas de orientação - de onde saem as "dicas que muita gente poderia aprender em casa" -, Mendes, do IDT, ressalta o trabalho de gestão ativa das vagas. A partir da análise dos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que mostra, por exemplo, qual a sazonalidade do emprego em cada um dos municípios e quais setores estão puxando as contratações no Estado, os técnicos do IDT agendam visitas às empresas para induzir uma oferta maior de postos de trabalho.
Na Bahia, esse tipo de iniciativa está estimulando a abertura de cursos de qualificação específicos, para atender às demandas de grandes projetos, entre eles o do parque eólico de Brumado e o do polo naval do Recôncavo Baiano.
No Paraná, Estado onde o Sine também é referência, a experiência é um pouco diferente. Além da equipe formada por psicólogos e assistentes sociais, conta José Maurino de Oliveira Martins, diretor do departamento de economia solidária, microcrédito, artesanato e empreendedorismo, a rede tem conseguido atingir profissionais mais qualificados, entre médicos, engenheiros e administradores.
O esforço para dissolver o preconceito de empresas e trabalhadores em relação ao sistema público de intermediação de mão de obra, para Martins, passa pela rede bastante capilarizada, com 220 postos - tamanho aproximado da rede São Paulo, que tem um número quatro vezes maior de inscritos - e pela gestão ativa das vagas, garimpada muitas vezes pelos técnicos do sistema.
Rita dos Santos, analista de recursos humanos, cadastrou-se quando procurava uma oportunidade melhor de trabalho. "Não queria usar os sites tradicionais que armazenam currículo e cobram pelo serviço", afirma. Formada em administração e com pós-graduação em gestão de pessoas, a curitibana de 33 anos está há quatro meses no novo emprego, uma empresa de segurança, e diz não ser a única entre os amigos. "A gente encontra até vaga em multinacional", diz.