03/08/2015
A produção de mamona na Bahia está passando por um momento de transição entre ser uma atividade exclusivamente desenvolvida no sistema de agricultura familiar para uma nova fase desta, com investimentos em tecnologia agrícola feitos pela Petrobras Biocombus-tível (PBio) e, mais além, com os primeiros projetos empresariais de olho no rico mercado desta oleaginosa.
Na Bahia, a expectativa dos produtores é grande depois do fim de três anos de seca. Em Feira de Santana, a Bioóleo, uma das maiores processadoras de mamona do país, aumentou em 20% o número de funcionários e pretende abrir novas vagas no 2- semestre. A fábrica compra a produção de 10 mil pequenos agricultores.
A previsão da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) é que a produção baiana de mamona supere este ano as 48 mil toneladas (38% a mais que em 2014).
O diretor operacional da Bioóleo, Carlos Antônio Bor-solan Gaspar, informa que a fábrica tem capacidade de 130 mil toneladas (t) de grãos de mamona por ano. "A safra deste ano está atrasada devido ao excesso de chuvas, atípicas para o período, mas que podem favorecer a sa-frinha de 2016. Irecê continua a ser a maior região produtora com 55 mil t, mas oque precisa melhorar é a qualidade do grão encaminhado para a empresa. Parte dele vem misturada com marinheiro (película que recobre os grãos), diminuindo a rentabilidade do óleo", diz Carlos Gaspar.
O presidente da Coopagril Vítor Araújo Azevedo, entidade que reúne cerca de 500 produtores da região de Irecê, explica que a cooperativa possui apenas duas batedeiras (que separa o grão da película) e não é possível atender a todos. "Gostaríamos que o governo abrisse uma linha de crédito para que os agricultores possam comprar seus próprios equipamentos", argumenta.
Para o diretor da Cooper-grãos Valdemar Adolfo da Silva - cooperativa também instalada na região de Irecê -, falta ao agricultor o hábito cultural de corrigir o solo. Isso faz com que a produtividade se mantenha baixa (de 600 a 800 kg/ha). Ele cita ainda que, embora a saca de mamona para a refinoquí-mica tenha apresentado aumento de 80% nos últimos anos, caiu muito de 2014 para 2015 (R$ 140 para R$ 75). "A mamona é um cultivo tradicional, que fixa o homem no campo e o remunera de forma correta. É preciso continuar investindo no produtor para que o cultivo se torne sustentável", defendeu.
PBio
De acordo com RaphaelLeão, diretor agrícola da PBio, a empresa faz gestão de suprimentos e produz bio-diesel com a matéria-prima disponível e de melhor custo. Trabalha ainda na diversificação de matérias-primas, com transferência de tecnologia e conhecimento aos agricultores familiares na região do semiárido.
"Para esses pequenos produtores, a empresa oferece assistência técnica agrícola aliada à garantia da compra de grãos. A parceria contribui para manutenção do Selo Combustível Social, o que garante competitividade no mercado de biodiesel e reafirma o compromisso da companhia com o desenvolvimento associado à susten-tabilidade”, explica Leão.
Ele acrescenta que, em convênio com a Embrapa, a PBio criou oito núcleos de Unidades de Teste e Demonstração (UTDs) com 21 unidades demonstrativas (uma matriz e 20 filiais) instaladas em pequenas propriedades rurais para acompanhara safra de mamona 2013/14. Implantados na Bahia, Ceará e Minas Gerais, os resultados preliminares demonstram a sustentabilidade do cultivo, com ganho de produtividade acima de 30%, quando aplicadas técnicas adequadas, respeitando as características de clima, de solo e a tradição de cultivo local, finaliza Raphael Leão.
Desafios
Liv Severino, chefe de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa Algodão, que estuda mamona há 18 anos, diz que o grande desafio dos produtores baianos é a falta de recursos. “A maioria deles não dispõe de novas tecnologias e de sementes mais produtivas”.
A Embrapa tem um projeto de melhoramento genético de variedades mais produtivas que rendem nos campos experimentais de 1 t/ha a 2 t/ha, a depender da chuva. "Existe um grande projeto de mecanização em implantação em Mato Grosso. Os agricultores baianos precisam se preparar para esta concorrência”, disse.
Óleo de rícino tem uso múltiplo
Conhecido popularmente como mamona, mamoneira, carrapateira, carrapato e rícino, é uma planta da família das euforbiáceas. O seu principal produto derivado é o óleo de mamona, também chamado óleo de rícino.
O óleo de rícino é obtido por extração fria das sementes, que contêm 45% a 50% de óleo. O material restante após a extração do óleo é a torta de mamona. Comercialmente, os óleos e tortas são obtidos pela prensa fria ou são tratados a vapor para desnaturar as toxinas. O alcaloide tóxico ricinina é encontrado nas sementes e nas folhas.
Uma importante propriedade do óleo de rícino é ser composto entre 80% e 90% de um único ácido graxo (ácido ricinoleico), que lhe confere alta viscosidade e solubilidade em álcool a baixa temperatura.
Produtos
Os usos de óleo de rícino, mudaram ao longo dos anos. Utilizado inicialmente para fins medicinais, como purgativo e como um lubrificante na indústria em geral, ganhou múltiplas utilizações através das pesquisas feitas por engenheiros do ramo químico. Foram desenvolvidos derivados como o sulfatada óleo de rícino ou peru óleo vermelho, primeiro detergente sintético, também usado em sabonetes.
Hoje, há mais de 600 produtos que têm o óleo de rícino em sua composição. Os derivados mais importante são base de: poliamida 11 (nylon 11), graxa, revestimentos, tintas, selantes, lubrificantes de aeronaves, emulsionantes, incapsulan-te, películas de plástico, componentes para vidro de segurança, produtos secativos e até próteses ósseas e plástico biodegradável.
Na área dos cosméticos e produtos relacionados, é muito utilizado devido à sua nãocomedogenicidade (não provoca a acne).
Produção cresceu nos últimos 5 anos na índia
Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), a produção de óleo de mamona da índia tem crescido nos últimos cinco anos, e a produção chinesa vem apresentando oscilações, com quedas frequentes. Além da maior área cultivada, a índia tem conseguido obter produtividades superiores à brasileira, com o máximo de 1.238 kg/ha alcançado em 2004.
Os principais países produtores de mamona são índia (74%), China (13%), Brasil (6,1%) e Moçambique (2,5%)
(2011, FAO), e os principais consumidores: China, Estados Unidos, França, Alemanha e Japão.
Exportação
No Brasil, a produção está concentrada na Bahia (67%), seguida do Ceará (15%), Minas Gerais (11%) e Pernambuco (3%).
No Brasil existe capacidade instalada para processar toda a safra anual de mamona. Como o consumo interno de óleo de mamona é relativamente pequeno, existe um excedente exportável. O país é o 2o-maior exportador mundial.