O secretário do Desenvolvimento Econômico do Estado da Bahia, Jorge Hereda, anuncia, nesta entrevista à Super Revista, uma futura privatização da Empresa Baiana de abastecimento (Ebal). Ele também fala sobre investimentos do governo do estado em novos empreendimentos, na ordem de R$ 70 bilhões, que beneficiarão diferentes áreas da economia. Para ele, as mudanças efetuadas na pasta que assume, pelo governador Rui Costa, amplia as possibilidades de trabalho ao afirmar que “desenvolvimento é um conjunto e não apenas ações segmentadas de indústria, comércio ou de serviço”.
Hereda ainda fala da consonância do pensamento dele com o do chefe do executivo baiano. o secretário analisa a autonomia das autarquias ligadas à secretaria, o potencial de crescimento da Bahia e a dinâmica da economia, em especial o setor de comércio e serviços, que muito tem contribuído com o crescimento econômico do estado. Ele afirma que este setor representa 60% do PIB baiano e 65% dos postos de trabalho. Enfim, Jorge Hereda mostra-se otimista com as perspectivas do momento, embora lembre da crise que o país enfrenta.
Super Revista – Quais as diretrizes que o sr. está implementando na sua gestão à frente da secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado da Bahia?
Jorge Hereda – Mesmo com a crise, a Bahia ainda lidera a geração de empregos do Nordeste e está entre os principais estados do país na atração de novos empreendimentos. Hoje, temos um potencial de investimentos, baseado em projetos que estão sendo implantados, cartas-compromisso e entendimentos em negociação, da ordem de mais de R$ 70 bilhões. somente em projetos de energia eólica são mais de 16 bilhões. Nosso maior desafio, e principal diretriz, é materializar esses investimentos, além de obter novos, ao longo desses próximos anos.
SR – O governador Rui Costa fez alguma recomendação especial?
JH – Quando o governador nos convidou, disse que a mudança de Indústria e Comércio para Desenvolvimento Econômico não era apenas semântica, mas de conteúdo. o governador pensa em desenvolvimento de forma articulada e transversal. E eu, também. Desenvolvimento é um conjunto e não apenas ações segmentadas de indústria, comércio ou de serviços. Desenvolvimento implica pensar em educação, formação de mão-de-obra, articulação com a agricultura, produção de alimentos, e a própria segurança alimentar. tem que se pensar também na logística, na infra-estrutura, na forma de financiar as empresas, na relação com a Fazenda, com a Desenbahia e com os bancos públicos.
SR – Na estrutura da sDE tem órgãos como a Juceb, Ibametro, sudic, CIs (subaé), CBPM e a Ebal. Quais as recomendações para atuação de cada uma dessas instituições?
JH – são autarquias ligadas à secretaria, mas com autonomia. Cada uma com a sua função específica, mas todas atreladas à mesma política de desenvolvimento. a Junta Comercial tem um papel muito importante no cenário econômico, porque ali é onascedouro das empresas. o Ibametro tem uma atuação direta na fiscalização das empresas e dos serviços, enquanto a sudic e o CIs estão envolvidos na política de atração de investimentos, principalmente nas questões de localização e infraestrutura.
SR – No caso específico da Ebal, que faz parte do setor supermercadista, o governador aventou a possibilidade de se desfazer dela. o que existe de concreto sobre essa questão?
JH – Uma empresa internacional de consultoria está fazendo a modelagem da passagem da Ebal do âmbito público para a iniciativa privada. É uma bem montada estrutura de comércio, que presta diretamente um serviço à sociedade, mas que será melhor gerenciada por quem é do ramo, pelo empresariado do setor supermercadista.
SR – Com relação à Juceb, que é um órgão vital na prestação de serviçosao empresariado, quais as ações que estão sendo implementadas para acelerar a abertura de novas empresas e modernizar o seu atendimento?
JH – Visitei a Juceb no final do mês de julho e constatei in loco a implementação de programas e ações que vão proporcionar a melhoria dos serviços prestados pela instituição. Dentre eles, os projetos Juceb on Line, Juceb Qualidade e Rede sim. É uma instituição vital para que qualquer política de desenvolvimento dê certo. Ela possui o maior banco de dados empresariais da Bahia, sendo responsável pela abertura de cerca de 40 mil empresas/ano. Hoje, possui 41 pontos de atendimento distribuídos pela Bahia, sendo que 34 deles no interior.
SR – o Ibametro tem uma ligação estreita com o setor supermercadista, no que concerne à fiscalização e ao cumprimento das normas legais de peso e medida. o que tem sido feito para orientar os estabelecimentos comerciais para que não incorram em delitos que venham prejudicar os consumidores?
JH – O Ibametro tem a função de assegurar o cumprimento da política de metrologia brasileira, atuando em conformidade com o Inmetro na garantia da qualidade de produtos e serviços. E graças à atuação do Ibametro/Inmetro temos hoje um padrão internacional de garantia e qualidade para o consumidor. Nosso objetivo é intensificar ações junto ao comércio e, principalmente, junto à comunidade, voltadas à informação e educação para o consumo.
SR – Entre as atribuições da sDE está a de atrair novas empresas para se instalarem na Bahia, proporcionando, consequentemente, o seu desenvolvimento e a geração de emprego e renda e arrecadação de tributos. o que a Bahia tem feito neste quesito?
JH – Nos últimos anos, a Bahia deu um grande salto em seu desenvolvimento. o estado diversificou ainda mais o seu perfil econômico, oferecendo oportunidades de negócios em todos os setores da atividade econômica. Do petróleo ao agronegócio, passando por mineração, têxtil, calçados, bebidas, alimentos, turismo, construção. somente este ano, com todo esse clima negativista de crise, a Bahia já contabiliza R$ 7,65 bilhões em investimentos, com a geração de 14.725 novos empregos. Existe, sim, a crise, mas temos boas notícias também para dar.
SR – Polo de Camaçari, pela sua infraestrutura já consolidada, tem sido um local bastante atrativo para grandes projetos, como, por exemplo, o da Basf, Kimberly, energia eólica etc. Existem no momento outras empresas que estão chegando.
JH – O Polo Industrial de Camaçari é o maior do Hemisfério sul. Era somente petroquímico. Hoje, não. Fabrica fraldas, paredes de gesso, automóveis, pneus, perfumes, além de grandes centros de distribuição e de logística. o complexo acrílicoda Basf é o maior investimento da companhia alemã na américa do sul, da ordem de R$ 540 milhões, igual a uma planta gêmea que a companhia instalou em Nanjing, na China. ou seja, a Basf enxerga o Brasil com o mesmo potencial de mercado da China. É um investimento fantástico, que vai atrair outras indústrias que utilizam como matéria-prima o ácido acrílico. a Kimberly-Clark, como você citou, já está aqui, e outras, ainda na fase de projeto, estão em vias de implantação.
SR – O modelo de atração de investimentos é muito focado em desoneração de impostos, o que o governo da Bahia está fazendo para se afastar deste modelo e o que oferece de atrativo para atrair novos empreendimentos?
JH – A Bahia realmente conta com um pacote de incentivos fiscais, contudo, cada vez mais apostamos nos nossos grandes diferenciais: excelente localização geográfica, meio do caminho entre o sul/sudeste e o Norte/Nordeste; ambiente seguro para os negócios; excelente qualidade de vida; agilidade nos processos de licenciamento. Contamos ainda comum parque industrial consolidado e nos preocupamos cada vez mais em garantir uma infraestrutura logística para os novos negócios. Por exemplo, o governo do Estado está investindo R$ 8 bilhões em um projeto extraordinário de mobilidade urbana, que inclui metrô, VLt, vias transversais e vias urbanas. a grande diferença da Bahia é que aqui as regras são claras e respeitamos os compromissos assumidos. aqui é pode, pode; não pode, não pode.
SR – Existe, de fato, um movimento rumo ao interior? Mas para atrair grandes empreendimentos é necessário ter mão-de-obra capacitada disponível. Como o Estado está encarando esse desafio?
JH – A qualificação está diretamente ligada ao setor produtivo.Não adianta formar uma mão-de-obra especializada se não tivermos aonde empregá-la. Por isso a política de desenvolvimento tem que ser transversal: a economia avança por causa de vários fatores. a Bahia, principalmente a partir dos governos Lula e Dilma, reforçou a sua rede de escolas profissionais, com 26 IFBas, 11 unidades do senai e uma unidade do Cimatec, que é hoje o nosso principal suporte na área de capacitação profissional, sem contar que ganhamos mais cinco universidades federais, além da UFBa. Bom, temos a estrutura, agora precisamos ajustar a formação técnica e profissional com a demanda das regiões e das empresas.
SR – Quais as políticas da SDE para o segmento do comércio e serviços na Bahia, especificamente na área de supermercados?
JH – É tremenda a relevância do setor de comércio e serviços para a economia baiana, representando mais de 60% de participação no PIB estadual e mais de 65% da geração de empregos formais. E as políticas de fomento a esse segmento econômico, ao meu ver, são tímidas em comparação à sua pujança. Nós, como agentes públicos, temos que atender melhor às demandas do setor em questões tributárias, de capacitação empresarial e de mão-de-obra, tecnologia e inovação, acesso ao crédito e desburocratização, em parcerias com o senac e com o sebrae. Já contamos com uma câmara setorial voltada para a cadeia de supermercados, atacadistas e Indústria de alimentos, onde são formuladas estratégias e proposição de políticas públicas para o setor, mas precisamos avançar muito mais.
SR – Aliás, como o sr. vê este segmento na Bahia?
JH – Os números do setor de supermercados por si só já refletem a sua importância para aeconomia baiana. São mais de 38 mil trabalhadores, e faturou cerca de R$ 20 bilhões em 2014. apesar do cenário difícil, as vendas cresceram 2,24% no ano passado, número que deve se repetir este ano. Já passamos por dificuldades maiores no passado, com inflação galopante e prateleiras vazias por causa do desabastecimento. a economia é muito dinâmica e essa perspectiva positiva de crescimento do setor supermercadista em 2015 indica que teremos um fim de ano muito mais promissor do que o início. ademais, a desconcentração dos investimentos da região metropolitana para o interior doEstado, impulsionada principalmente pelos projetos de energia e mineração, vem criando um ambiente favorável para o desenvolvimento do segmento de mercados e supermercados. Prova disto é que o interior apresentou um aumento do número de estabelecimentos do setor maior do que a RMs (14% contra 9%, no período entre 2009 e 2013), sem falar nos grandes centros de distribuição que estão se implantando no estado, a exemplo da Le Biscuit, o Boticário, gbarbosa, americanas, tupã Construções, Magazine Luiza, Peixoto atacado e Cervejaria Petrópolis.