Umbu ajuda a sustentar economia do semiárido baiano

19/05/2016

Todo baiano aprende desde cedo quando está chegando o verão: nas ruas e feiras livres das cidades, na capital e no interior, balaios carregados de umbu – ou imbu – anunciam um delicioso dezembro doce-azedo. Essa fruta verde, redonda, de polpa carnuda, suculenta, rica em vitamina C e caroço muito duro, secularmente sempre ajudou a sustentar a economia do semi-árido, seja na Bahia, Sergipe, Pernambuco, Alagoas, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Piauí e norte de Minas Gerais.


Nos idos de 1897, um certo carioca de Cantagalo se embrenhou pelo sertão da Bahia, entre Canudos e Monte Santo, cobrindo a Guerra de Canudos para o jornal O Estado de São Paulo. Euclides da Cunha, que transformaria seu relato da batalha no monumental épico Os Sertões, conviveu de perto com a caatinga e não titubeou ao escrever: “O umbuzeiro e a árvore sagrada do sertão”.


É tão sagrada que e uma árvore que deve ser protegida pela lei. No ano passado, a deputada Neusa Cadore apresentou o projeto de lei estadual no 21.135/2015, que tramita na Assembleia Legislativa da Bahia, com o objetivo de tornar o umbuzeiro como espécie de interesse comum e imune de corte. Alem disso, propõe também que a planta seja considerada como rara e ameaçada de extinção. E só pode ser santa uma árvore verdejante, carregada de cheirosas flores brancas – que alimenta as abelhas – e frutos como bolas de gude gigantes, no meio de uma paisagem “seca e amarela, coberta de cactos, ossadas e seixos”, como bem descreve em “Infância” (1945) outro gênio da literatura brasileira: Graciliano Ramos.


A água acumulada em suas raízes presta-se ao combate de verminoses e da disenteria. A casca do tronco e dos galhos é utilizada pelo sertanejo no combate às diarréias, blenorragias, hemorróidas e afecções da garganta.

O sagrado umbuzeiro, árvore com até 7 m de altura, de galhos retorcidos e copa frondosa, e a aposta principal da Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaca – Coopercuc – nos três municípios do alto sertão da Bahia, para que a convivência com a seca – e não contra ela – seja ainda menos agreste.


Riqueza para o caatingueiro


Com capacidade de se desenvolver sob sol forte e com pouca água, a árvore é um exemplo de sustentabilidade e fonte de renda para mais de 500 famílias e 262 associados ligados a Cooperativa, fundada em 2003. “O umbu é fonte de riqueza para o caatingueiro, mas não queremos somente uma riqueza temporã. Queremos que ela ajude o nosso sustento o ano inteiro, a vida toda. O semiárido e viável e da pra viver aqui, sim”, diz Adilson Ribeiro, presidente e um dos fundadores da Coopercuc.


Para que o umbu não seja apenas uma fruta exótica nos cestos das feiras baianas, nos meses de dezembro, janeiro, fevereiro e março – distribuído por atravessadores – e possa agregar valor e render dividendos econômicos sempre, a Cooperativa apostou na industrialização, criando a linha de produtos Gravetero e transformando o fruto em polpa, nego bom (doce típico servido em pequenos pedaços com açúcar cristal), suco, doces, compotas, geléia, pasta concentrada e, até, numa improvável cerveja de umbu.


Batizada de Saison Umbu, a bebida é resultado da associação da Coopercuc com a empresa mineira especializada em cervejas com frutas e especiarias brasileiras cultivadas em comunidades nativas, a Experimento Beer, de Belo Horizonte. A cerveja foi lançada em 2015, na sétima edição do Festival Regional do Umbu, em Uauá, e não deu pra quem quis: toda a produção anual se esgotou rapidamente. A Saison tem 10% da fruta em sua composição e 6,2% de álcool. A acidez, doçura e perfume do umbu equilibram-se com os aromas e sabores frutados, cítricos e condimentados da refrescante Saison – estilo de cerveja originado na Bélgica que, tradicionalmente, inclui em sua produção ingredientes como sementes, especiarias e frutas.


Novos investimentos


Para fazer frente aos novos desafios, a Coopercuc está investindo, em parceria com o Governo do Estado, através do programa Pro-Semiárido, R$ 3 milhões na construção de uma nova unidade agroindustrial dedicada ao suco, polpa e concentrado de umbu.


“Recebemos no ano passado a visita de um industrial da Alemanha que quer importar polpa de umbu, maracujá da caatinga, manga e goiaba. Com a nova fabrica, deveremos triplicar a nossa produção para aproveitamento de mais de 600 toneladas/ano de umbu”, diz Ribeiro.


A médio prazo, a implantação de uma cervejaria para a produção direta da Saison Umbu também está na mira da Cooperativa. Um dos cooperados, o técnico em Alimentos Emanuel Messias Almeida, 20 anos, vai fazer um curso na Escola de Cervejaria, em Blumenau/ SC e, depois, viaja para Pelotas/RS para estagiar em uma cervejaria da agricultura familiar.


Mulheres à frente


Fundada em 2003, a história da Coopercuc começou muito antes, na década de 1980, quando freiras ligadas a Pastoral Rural da Diocese de Paulo Afonso e Juazeiro se associaram a ONG Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), com sede em Juazeiro/BA, para organizar o trabalho produtivo das mulheres e garantir a segurança alimentar das famílias de Curaca, Uauá e Canudos no Projeto Pro-CUC.


O sentimento religioso muito forte nessa terra de Antonio Conselheiro facilitou a ação do IRPAA, com o trabalho de “catequese” feita pela Pastoral. “O trabalho de base feito pelas mulheres, principalmente, facilitou tudo. Entre 1999 e 2000, montamos uma barraca nas feiras de Uauá, Curaçá e Canudos para vender os doces e o resultado foi extraordinário. Era o caminho para garantir sustentabilidade e renda para as famílias”, explica o vereador Miroval Ribeiro Marques, que foi membro da equipe do IRPAA e articulador da Rede Sabor Natural do Sertão.


A ideia inicial era aproveitar a fruta alem do período da safra, apropriando-se da tradição sertaneja dos doces, do vinho de umbu e da umbuzada. Deu tão certo, que começaram a chegar mais e mais pedidos de encomendas. As mulheres, que representam cerca de 75% dos cooperados da Coopercuc, perceberam que o negócio era bom e gerava renda. Em 2003, com recursos da CRS (Catholic Relief Services), dos Estados Unidos, e da ONG Horizont 3000, da Áustria.


Apesar de existir há 13 anos, a Coopercuc não dá vencimento na produção de umbu. “Industrializamos entre 170 e 200 toneladas/ano, o que nem é 1% da produção de umbu na região. E uma quantidade muito pequena, mas ainda assim é um ganho muito importante para as famílias”, explica o presidente da Cooperativa.


Antes da Cooperativa, os atravessadores pagavam menos de R$ 5,00 na saca de umbu. Hoje, por causa da regulação de preços feita pela Coopercuc, não pagam menos de R$ 40,00.


“A nossa vida mudou. Nasci na roça, na comunidade de Testa Branca, em Uauá. Desde menino ia pequeno com um gamela de umburana catar umbu. Vivíamos sem luz, sem água encanada. Não pude estudar, porque não tinha escola. Hoje, a nossa vida mudou. Vivemos melhor, de modo mais digno e confortável, e ninguém mais morre de fome. Éramos os ‘flagelados da seca’, vivíamos das esmolas das cestas básicas e das frentes de trabalho das obras contra a seca. Hoje, vivemos do nosso trabalho na caatinga”, diz Ribeiro.


No semiárido não há muitas opções econômicas. A caatinga desafia o empreendedorismo, mas os filhos das terras da Guerra de Canudos não desistem. “Temos que conviver bem com ela. A prova de que ela e viável, e a Coopercuc. O que era subsistência, passa a ser também industria, emprego, desenvolvimento”, diz Santos.


Agricultura familiar


Os produtos derivados do umbu são a grande aposta da Cooperativa, mas outras frutas produzidas pela agricultura familiar, como a goiaba, a manga, o maracujá e a banana também entram na composição de geléias e doces mistos, produzidos na sede, em Uauá, e em 18 comunidades que possuem 15 pequenas fabricas instaladas nas rocas de Canudos, Uauá e Curaçá.


Os produtos da Coopercuc estão presentes no programa de alimentação escolar, comercializados via Programa de Aquisição de Alimentos e Programa Nacional de Alimentação Escolar, do Governo Federal. A cultura do umbu também é referência na agricultura familiar, no Plano Brasil Sem Miséria, ação coordenada pelos ministérios do Desenvolvimento Agrário (MDA) e do Desenvolvimento Social e Combate a Fome (MDS), com o apoio direto do Governo da Bahia.


Além da industrialização, a Cooperativa também foi responsável pela mudança de mentalidade no manejo do umbuzeiro. A retirada das batatas das raízes diminuiu e a colheita feita com golpes de vara de madeira e cada vez menos freqente. E que com a quebra dos galhos, o umbuzeiro cada vez mais vai produzindo menos.


O umbu agora é colhido com a mão, sem permitir que os frutos caiam no chão. Na própria colheita já passam por uma triagem: os maduros, de casca amarela e polpa doce, são separados para fazer geléia e umbuzada; os verdes, ácidos e crocantes, servem para compotas; e os “inchados”, nem verdes nem maduros, pouco ácidos e firmes, se destinam aos doces e umbuzadas.
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