O governador Rui Costa inaugura, nesta quinta-feira (21), às 9h30, em Uauá, município do nordeste baiano, uma agroindústria para processamento de frutas. O evento acontece no Parque Industrial, Km 235, na BR-235, onde está localizado o empreendimento. O presidente do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola da ONU (Fida), Kanayo Nwanze, acompanhará o governador durante a inauguração da agroindústria.
Foram investidos R$ 4 milhões em obras, equipamentos, capacitações e assistência técnica para fortalecer a cadeia produtiva do umbu, maracujá do mato e outras frutas nativas da caatinga. Com capacidade instalada parta fabricar anualmente de 800 toneladas, a agroindústria irá modernizar a produção, diversificar o mix de produtos e proporcionar aumento da renda dos agricultores familiares da região.
A unidade beneficiará 3.225 famílias expandindo o número de 872, que atualmente são assistidas pela cooperativa. A agroindústria da Coopercuc é a primeira unidade implantada pelo Pró-Semiárido, projeto do Governo do Estado a partir de acordo de empréstimo com o Fida, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), que é executada pela Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR). “O Pró-Semiárido vem com esse apoio, dando subsídio ao trabalho de 13 anos da Coopercuc, fortalecendo as comunidades e ajudando na melhoria da qualidade de vida da região”, afirma a presidente da Coopercuc, Denise Cardoso.
Fruta sagrada - Todo baiano aprende desde cedo quando está chegando o verão: nas ruas e feiras livres das cidades, na capital e no interior, balaios carregados de umbu – ou imbu – anunciam um delicioso dezembro doce-azedo. Essa fruta verde, redonda, de polpa carnuda, suculenta, rica em vitamina C e caroço muito duro, secularmente sempre ajudou a sustentar a economia do semiárido, seja na Bahia, Sergipe, Pernambuco, Alagoas, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Piauí e norte de Minas Gerais.
Batizada de “árvore sagrada do sertão”, por Euclides da Cunha, na obra “Os Sertões”, o umbuzeiro deve ser protegida por lei. No ano passado, a deputada Neusa Cadore apresentou o projeto de lei estadual nº 21.135/2015, que tramita na Assembléia Legislativa da Bahia, com o objetivo de torná-la como espécie de interesse comum e imune de corte. Além disso, propõe também que a planta seja considerada rara e ameaçada de extinção.
O sagrado umbuzeiro, árvore com até 7 metros de altura, de galhos retorcidos e copa frondosa, é a aposta principal da Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc) nos três municípios do alto sertão da Bahia, para que a convivência com a seca – e não contra ela – seja ainda menos agreste.
Riqueza para o caatingueiro - Com capacidade de se desenvolver sob sol forte e com pouca água, a árvore é um exemplo de sustentabilidade e fonte de renda para mais de 500 famílias e 262 associados ligados à Cooperativa, fundada em 2003. “O umbu é fonte de riqueza para o caatingueiro, mas não queremos somente uma riqueza temporã. Queremos que ela ajude o nosso sustento o ano inteiro, a vida toda. O semiárido é viável e dá pra viver aqui, sim”, diz Adilson Ribeiro, presidente e um dos fundadores da Coopercuc.
Para que o umbu não seja apenas uma fruta exótica nos cestos das feiras baianas, nos meses de dezembro, janeiro, fevereiro e março – distribuído por atravessadores – e possa agregar valor e render dividendos econômicos sempre, a Cooperativa apostou na industrialização, criando a linha de produtos Gravetero e transformando o fruto em polpa, nego bom (doce típico servido em pequenos pedaços com açúcar cristal), suco, doces, compotas, geléia, pasta concentrada e, até, numa improvável cerveja de umbu.
Mulheres à frente - Apesar de existir há 13 anos, a Coopercuc não dá vencimento na produção de umbu. “Industrializamos entre 170 e 200 toneladas/ano, o que nem é 1% da produção de umbu na região. É uma quantidade muito pequena, mas ainda assim é um ganho muito importante para as famílias”, explica o presidente da cooperativa.
Antes da Cooperativa, os atravessadores pagavam menos de R$ 5,00 na saca de umbu. Hoje, por causa da regulação de preços feita pela Coopercuc, não pagam menos de R$ 40,00. “A nossa vida mudou. Nasci na roça, na comunidade de Testa Branca, em Uauá. Desde menino ia pequeno com um gamela de umburana catar umbu. Vivíamos sem luz, sem água encanada. Não pude estudar, porque não tinha escola. Hoje, a nossa vida mudou. Vivemos melhor, de modo mais digno e confortável, e ninguém mais morre de fome. Éramos os ‘flagelados da seca’, vivíamos das esmolas das cestas básicas e das frentes de trabalho das obras contra a seca. Hoje, vivemos do nosso trabalho na caatinga”, diz Ribeiro.
Os produtos derivados do umbu são a grande aposta da cooperativa, mas outras frutas produzidas pela agricultura familiar, como a goiaba, a manga, o maracujá e a banana também entram na composição de geléias e doces mistos, produzidos na sede, em Uauá, e em 18 comunidades que possuem 15 pequenas fábricas instaladas nas roças de Canudos, Uauá e Curaçá.