29/09/2017
Potencial solar elevado, terrenos disponíveis com preços competitivos e geografia favorável para implantação de novas usinas. Esses são apenas alguns dos trunfos da Bahia para assumir a liderança na atração de projetos para geração de energia fotovoltaica - a partir da luz do sol. De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), responsável pelos leilões de energia, a Bahia figura como maior número de projetos para geração de energia solar, com 160 candidatos cadastrados.
Em todo o país, as usinas fotovoltaicas inscreveram, até o dia 13 de setembro, mais de 550 projetos, superando 18 mil MW (megawatts) de capacidade instalada. Pelo menos, quase 30% dessas concessões devem se converter em novas usinas no interior do estado. Marcado para o dia 18 de dezembro, o Leilão A-4 é destinado às fontes renováveis com participação de projetos de energia eólica, solar fotovoltaica, termelétricas a biomassa (incluindo bagaço de cana, biomassa florestal, biogás e resíduos sólidos urbanos), além de pequenas centrais hidrelétricas.
“Os montantes a serem efetivamente contratados dependerão da demanda projetada pelas concessionárias de distribuição de energia para os próximos anos”, diz o superintendente de Projetos de Geração da EPE, Thiago Barrai.
A expectativa da Associação Brasileira de Energia Solar (Absolar) é de que a Bahia possa atrair de R$ 4,5 a 5 bilhões em investimento no próximo leilão. “Todo extremo Oeste baiano e a região do São Francisco são áreas de capacidade elevada, com bastante espaço para desenvolver grandes projetos. O estado tem um potencial imenso, mas que ainda não foi aproveitado”, afirma o presidente da entidade, Rodrigo Sauaia.
GARGALOS
No entanto, alguns gargalos ainda podem comprometer o desempenho da Bahia no leilão. Isto porque a falta de linhas de transmissão continua sendo um problema. A falência da Abengoa (empresa espanhola que foi contratada pelo Ministério de Minas e Energia para implantar a linha de transmissão ligando a hidrelétrica de Belo Monte à Bahia) ainda não foi resolvido. Entrave que tem, inclusive, impedido o estado de participar de leilões.
“A obra foi iniciada, a empresa faliu e isso está paralisado. E necessário retomar isso o mais rápido possível para que uma outra empresa ganhe e conclua essa obra. A linha é fundamental para viabilizar muitos projetos na energia eólica e solar na Bahia e tirar do papel muitos projetos”, afirma o governador Rui Costa.
Os últimos leilões em que a Bahia marcou presença aconteceram em 2015, quando atraiu, ao todo, a instalação de 21 usinas de energia eólica, 18 usinas solares fotovoltaicas, uma termelétrica a biomassa florestal e uma pequena usina termelétrica a gás natural.
Ainda de acordo com a EPE, o leilão de relicitação das linhas de transmissão da Abengoa teve as concessões cassadas, pode acontecer ainda este ano no mês de dezembro, junto com o leilão de transmissão. O Ministério de Minas e Energia (MME) já assinou a caducidade dos ativos, cujas obras estão paralisadas desde novembro de 2015, quando a controladora da Abengoa pediu proteção contra credores na Espanha.
CADEIA PRODUTIVA
Os projetos inscritos no próximo leilão estão em fase de análise de viabilidade técnica, que deve ser concluído em 16 de novembro. O espaço para novos empreendimentos de geração também depende da ampliação da capacidade de distribuição, que deve ser conhecida em 10 de novembro.
Vai ser necessário mais do que sol forte para animar os investidores. Uma das saídas para elevar esse potencial é promover o adensamento da cadeia com a atração de fornecedores, como aconteceu com a energia eólica. Para o próximo leilão, a Bahia também agrega o maior número de projetos eólicos, somando mais de 320 candidatos.
“O painel fotovoltaico aqui ainda é mais caro que o importado, por contada cargatributária. Quem domina o mercado é a China. Temos que ter políticas que tornem essas condições mais atrativas”, afirma o superintendente da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE), Paulo Guimarães.
O estado não tem ainda uma cadeia de fabricantes que fornecem equipamentos para a instalação dessas usinas. Com a expectativa de novos projetos, a Bahia abre espaço para atrair fornecedores de módulos, painéis e materiais elétricos. Segundo o superintendente, até o final do ano, deve ser assinado um protocolo de intenção com a empresa AN Solar para implantação de uma fábrica de inversores, com a tecnologia da alemã Ka -co New Energy. Também está sendo negociado com uma outra empresa a implantação de uma fábrica para produção do módulo fotovoltaico.
“São perspectivas que estamos trabalhando com oferta de benefícios fiscais, celeridade na implantação desses projetos, apoio ao licenciamento e regularização fundiária para que a gente possa consolidar esta cadeia. A energia solar fotovoltaica veio para ficar e tem muito a contribuir com o desenvolvimento econômico, sobretudo, da região do semiárido”.
MERCADO SE CONSOLIDANDO
Para o especialista em Energias Renováveis Rafael Valverde, fechar a cadeia produtiva da energia solar na Bahia vai ser mais um desafio para o estado, até que os entraves relacionados às questões de infraestrutura estejam efetivamente resolvidos. “Estamos falando de um mercado que está se consolidando. Os principais projetos estão aqui. Sem definir os entraves das linhas de transmissão você não tem como absorver projetos sem capacidade para escoar esta energia”, defende.
Por isso, a Absolar deve pro -por o desenvolvimento de um programa estadual voltado para atender essa demanda, como adianta o presidente da Associação, Rodrigo Sauaia. “A Absolar está recomendando ao governo do estado a inclusão dessa energia nas edificações públicas. E um ano muito importante para a Bahia, porque projetos contratados em 2015 começam a entrar em operação e gerar, de fato, essa energia”, afirma.
“Precisamos de um programa estruturado com redução de carga tributária sobre insumos produtivos e maquinários, melhor infraestrutura para escoar essa energia e assim trazer mais confiança ao empresário que quer investir no estado”, acrescentou ele.
Bahia tem maior parque da América Latina
O maior parque solar fotovoltaico da América Latina está na Bahia, com capacidade instalada total de 158 MW. Foram inauguradas pela italiana Enel Green Power, as usinas Bom Jesus da Lapa (80 MW) e Lapa (78 MW). Localizadas no município que dá nome às unidades, o Parque Solar Lapa começou a operar no mês de junho e já atingiu sua capacidade plena de geração de energia, transformando a região, em que nada se plantava, em uma grande fazenda de placas solares.
“Em Bom Jesus da Lapa temos um sol com qualidade de intensidade que é um dos melhores do mundo. Encontramos também uma terra que não tem uma vocação agrícola forte, o que evita a competição com este setor, e também estamos em um município onde os caminhos ficam próximos das linhas de transmissão, o que permite um escoamento melhor dessa energia”, destacou o presidente da Enel no Brasil, Cario Zorzol.
As unidades geram energia suficiente para atender as necessidades de consumo de, pelo menos, 166 mil residências, evitando a emissão de 198 mil toneladas de C02 na atmosfera. São mais de 500 mil painéis de geração de energia fotovoltaica instalados próximo à entrada da cidade. Ao todo, US$ 175 milhões de dólares foram investidos na implementação do sistema, que é direcionada para o abastecimento do sistema nacional. Na época das obras, foram gerados 1,2 mil postos de trabalho, 44% ocupados pela mão de obra local.
A empresa está agora na expectativa da aprovação de viabilidade técnica dos que foram inscritos para participar no próximo leilão de energia, que acontece em dezembro. Apesar de evitar precisar, por questões competitivas, os municípios baianos onde os próximos investimentos desse tipo estão sendo planejados, Zorzol garante que há planos de trazer mais projetos tanto na área de energia solar como eólica para a Bahia. De 2013 para cá, desde que foi implantada a primeira usina de energia eólica da Enel, foram investidos cerca de US$ 2 bilhões no estado, que concentra o maior volume de recursos concentrados na Região Nordeste.
Setor de alumínio é beneficiado
O que ainda é perspectiva na Bahia se tornou alternativa para a indústria de Alumínio em São Paulo, que viu na demanda uma maneira de reverter as perdas provocadas pela crise nos setores de construção civil, transportes, embalagens e automóveis. Visando atender à demanda de mercado criada pelos leilões, a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA/Votorantim Metais), localizada no município de Alumínio, iniciou em janeiro deste ano a operação de uma unidade para a fabricação de frames de painéis fotovoltaicos. Parte da matéria-prima é proveniente da reciclagem de 150 mil toneladas do metal.
“O fornecimento dos frames é algo novo, somos os únicos no país hoje. Antes o que entrava no Brasil tinha que ser importado”, afirma o gerente de Transformados da CBA, Fernando Varela.
Com capacidade para produzir mais de 22 milhões de frames por ano, 90% da produção, atualmente, é destinada para atender à fábrica de painéis solares da Canadian, em Sorocaba.
A Associação Brasileira do Alumínio (Abai) espera ganhos para o setor com a participação direta no adensamento da cadeia de geração de energia fotovoltaica. De acordo com o presidente executivo da entidade, Milton Rego, a frequência de leilões para a contratação de energias renováveis nos próximos três anos pode significar a produção de 50 mil toneladas de alumínio para a construção de painéis solares e suportes. “Um módulo fotovoltaico consome em torno de 3 kg do metal. Para gerar 1MW são necessários 360 painéis. Temos que lembrar que tão importante quanto os grandes investimentos em usinas solares será a microgeração, em casas”, destaca.
Produtores do Oeste discutem geração própria
A aposta nas energias renováveis não deve ficar restrita à região do semiárido do estado. Produtores da região Oeste também devem aproveitar o potencial de geração de energia sustentável para não apenas resolver problemas de suprimento de energia nas unidades produtivas, mas também enquanto oportunidade de negócio como nova fonte de rendimento. O tema foi discutido no Workshop de Energias Renováveis no Agronegócio, realizado pelo Sindicato dos Produtores Rurais de Luís Eduardo Magalhães (SPRL).
O evento, que aconteceu ontem, foi o pontapé inicial para o envolvimento do setor e da região na área de energias renováveis, como afirma o professor e responsável pelo Centro de Energias Renováveis na Agricultura da Universidade Estadual da Bahia (Uneb), Danilo Gusmão. “O agronegócio não quer só produzir grãos e fibras, mas também energia sustentável. Somos carentes de energia, tanto no suprimento quanto na distribuição”, destaca.
Não é de hoje que o agronegócio vem enfrentando diversos problemas com a falta de regularidade, distribuição, oscilação na intensidade da energia fornecida, bem como custo elevado. Para o vice-presidente da Faeb, Humberto Miranda, a expansão em energias renováveis cria alternativas para a expansão da agroindústria. “O produtor poderá gerar energia na propriedade”, afirma.
O painel fotovoltaico aqui ainda é mais caro que o importado, por conta dos tributos Paulo Guimarães
158 MW é a capacidade instalada pela Enel Green Powel nos dois parques que foram implantados na cidade baiana de Bom Jesus da Lapa
166MIL residências podem ser abastecidas por ano pela energia que vai ser gerada nos dois parques instalados na Lapa