Sonoelane Anunciação da Silva achava distante o sonho de ver no sul da Bahia uma fábrica de chocolates finos envolvendo agricultores familiares. Administradora de empresas, ela sempre viveu no campo e se acostumou à rotina da colheita, secagem e venda da amêndoa de cacau. A partir de amanhã, às 9h, essa história vai mudar no município de Ibicaraí, na região cacaueira, onde acontece a inauguração da primeira fábrica de chocolates finos da agricultura familiar do Brasil.
Trabalhadora do empreendimento, que funcionará em sistema cooperativado, Sonoelane enfatiza: "Nasci agricultora, sou filha de agricultores e não esperava essa mudança. Vamos agregar valor à matéria-prima e produzir um chocolate de qualidade", disse.
Com investimento de R$ 1,5 milhão, a unidade beneficiará, aproximadamente, 300 famílias de pequenos produtores de cacau de Ibicaraí e outros municípios da região, a exemplo de Coaraci, Buerarema, Itajuípe, Uruçuca e Floresta Azul.
A indústria será inaugurada pelo governador Jaques Wagner, o prefeito de Ibicaraí, Lenildo Santana, e o secretário estadual de Desenvolvimento e Integração Regional, Edmon Lucas.
Diversificação – A nova indústria segue os moldes de desenvolvimento e diversificação da economia sul-baiana do PAC do Cacau.
Por ano, a fábrica possibilitará o beneficiamento de 14,6 mil arrobas de amêndoas de cacau, gerando a produção de 438 mil quilos de cacau e receita de R$ 4 milhões.
Segundo o secretário Edmon Lucas, o modelo previsto promoverá a agricultura familiar, "com agregação de valor ao produto final e o consequente aumento da renda."
União – Para que o projeto saísse do papel, houve união de agricultores familiares com os governos municipal, estadual e federal. Os produtores se cadastraram na Cooperativa dos Agricultores Familiares da Bacia do Almada (Coafba), que será responsável pela gestão da indústria; a Prefeitura de Ibicaraí entrou com os recursos para elaboração do projeto, infraestrutura, aquisição e doação de terreno; e o Governo do Estado participa com os recursos para aquisição de equipamentos e construção do empreendimento.
"A fábrica representa uma mudança de mentalidade", assinala o prefeito Lenildo Santana, enfatizando o papel indutor e de financiamento à agricultura familiar desempenhado também pelos governos estadual e federal. Já a presidente da Coafba, Maria do Carmo Tourinho Nunes, lembrou que a fábrica vai permitir a revitalização da agricultura familiar no sul da Bahia e será um divisor de água para a região.
Novo conceito de qualidade e sustentabilidade
Biólogo da Ceplac e pesquisador de pós-colheita, Raimundo Mororó é especialista em projetos voltados à produção de chocolate. Ele define a primeira fábrica de chocolate fino da agricultura familiar, como "um novo conceito de qualidade e sustentabilidade", e lembra que o chocolate produzido em Ibicaraí terá teor de até 70% de cacau.
O engenheiro de alimentos da empresa, Aluysio Lemos, informa que a capacidade da indústria é para diversificação de até 300 quilos de cacau quando estiver operando em toda a sua condição, o que significa produção de 600 quilos de chocolate fino. "É a primeira indústria de chocolate no sul da Bahia que faz todo o processo, desde o descasque da amêndoa à torrefação, tempeiro e embalagem."
Cacau orgânico – A garantia da qualidade do chocolate produzido em Ibicaraí começa no campo. O cacau é orgânico e há atenção redobrada nas etapas de colheita, fermentação e secagem das amêndoas, o que garante mais dinheiro ao produtor.
Cláudio dos Santos assinará o primeiro contrato para venda de cacau à indústria. "A cotação do cacau comum está na faixa dos R$
Por mais que ofereça amêndoas selecionadas, lembra Cláudio, o mercado não paga pelo investimento. "Agora, essa realidade muda". Ele é um dos cooperativados da indústria e ganha também com a participação nos lucros obtidos com a venda do chocolate.