Projeto de fomento reanima produção de cacau na Bahia

04/02/2011







As indústrias produtoras de cacau instaladas no Brasil começam a obter os primeiros resultados de um projeto de fomento à produção da amêndoa na Bahia. Os 25 produtores participantes da iniciativa, que entra agora em seu terceiro ano de execução, conseguiram mais que dobrar a produção por hectare somente com adoção do manejo e das tecnologias preconizadas no projeto.


A iniciativa tem coordenação da Associação da Indústria Produtora de Cacau (AIPC), que representa as cinco maiores produtoras mundiais da amêndoa - Cargill, ADM, Barry Callebaut, Delfi Cacau e Indeca. A duração total é de oito anos, sendo que os aportes financeiros serão realizados nos primeiros quatro. O orçamento total é de € 673 mil, sendo € 500 mil aportados pelo fundo do governo alemão Buffer Stock Fund, e o restante pela AIPC. As fazendas selecionadas participam com 15% do total dos insumos gastos no projeto.






Antes da fase de implantação nas fazendas, explica Walter Tegani, secretário-executivo da AIPC, foi feito um levantamento das melhores práticas de manejo da lavoura realizadas na região sudeste da Bahia. Com ele em mãos, iniciou-se a multiplicação dessas práticas em cinco hectares de cada fazenda escolhida - o tamanho médio das propriedades na região é de 20 a 60 hectares. O critério, diz Tegani, foram as áreas com produção mais deficiente e com terras mais degradadas. Por conta dessa base pequena, pondera Tegani, os resultados foram muito altos.


Apesar disso, as produtividades atingidas já estão acima da média da Bahia, o maior Estado produtor da amêndoa. As primeiras dez fazendas que aderiram ao programa saíram do patamar de 11,5 arrobas por hectare para algo em torno de 32 arrobas. As 15 fazendas que entraram mais tardiamente já conseguiram avançar para 28,5 arrobas por hectare, ante o desempenho anterior de 11,5 arrobas.


Segundo Thomas Hartmann, da TH Consultoria e Estudos de Mercado, a média alcançada nesta safra por toda a região da Bahia foi menor, de cerca de 25 arrobas por hectare. No entanto, recorda, o sudeste baiano já atingiu no passado desempenho de 40 a 45 arrobas por hectare, antes da incidência da doença vassoura de bruxa, causada por um fungo que quase dizimou as lavouras cacaueiras da região. Há ainda, segundo ele, fazendas que atingem níveis de produtividade muito superiores, na casa de 100 arrobas por hectare. "Mas são plantações isoladas e que recebem tratos excepcionais", pontua.


Para chegar aos avanços preliminares no projeto liderado pelo AIPC, batizado de Phoenix, foram implementadas algumas mudanças no manejo, explica Laerte Moraes, diretor da área de Cacau e Chocolate da Cargill no Brasil, que participa do projeto como associada da AIPC. Entre elas, o aumento da densidade de plantas por hectare. "Muitas dessas fazendas tinham 400 plantas por hectare, população que foi elevada para 1.200 plantas", diz Moraes.


Além do adensamento, as práticas contemplaram a criação de viveiros e enxertia com variedades de clones resistentes à vassoura de bruxa e altamente produtivos, explica Moraes.


Nas primeiras 10 propriedades, diz ele, foi possível avaliar dois momentos da lavoura: temporão e safra principal. Nas outras quinze, só se tem da principal. Apesar dos preliminares, os resultados finais serão conhecidos apenas ao final dos oito anos, diz Moraes. "O cacaueiro é uma árvore perene que leva cinco anos para começar a dar frutos", diz.


Ainda não foi definido o modelo de difusão das tecnologias testadas e que obterão êxito no projeto. "Mas vamos discutir isso nos próximos anos. Pode ser por meio da associação, via fundo ou com apoio do governo", diz Moraes.


Além desse projeto com a AIPC, no Brasil, a Cargill, que é a maior processadora de cacau do mundo, também desenvolve uma outra iniciativa com a ONG Care, mas com foco em pequenos produtores - com área inferior a 10 hectares. "Diferentemente do outro, que tem apelo econômico, a abordagem desse é mais técnica".








Clima e manejo colaboram e importação tem forte queda




De São Paulo

04/02/2011










Ana Paula Paiva/Valor




Moraes: "Do total de amêndoa processada no Brasil, 70% a 75% são de cacau nacional. Esse percentual era de 50% há dez anos"


Com a produção maior de cacau nacional, as indústrias processadoras reduziram a importação da amêndoa. Segundo dados do Ministério de Desenvolvimento Indústria e Comércio (MDIC), em 2010 foram compradas do exterior 47,6 mil toneladas, 35% menos do que em 2009.


De acordo com estimativas da TH Consultoria e Estudos de Mercado, nesta temporada, 2010/11, que termina em abril, a safra brasileira deve atingir 195 mil toneladas, 26% mais do que na safra anterior, quando o país colheu 154,9 mil toneladas. Além de o produtor ter aprendido a controlar a vassoura de bruxa, fungo que ataca o cacaueiro, ele também vem sendo estimulado pelos preços mais remuneradores da cultura.


Nos últimos três anos, a tonelada da amêndoa vem se mantendo valorizada, sendo que somente neste ano a alta acumulada é de 8,65%, de acordo com levantamento do Valor Data.


Apesar do avanço da área e dos projetos de fomento à melhoria da produção, o Brasil não deve ainda ser autossuficiente pelo menos, nos próximos cinco anos, diz Laerte Moraes, diretor da área de Cacau e Chocolate da Cargill.


Mas ele reconhece que a necessidade de importação foi muito reduzida nos últimos anos. "Do total de amêndoa processada no Brasil, 70% a 75% são de cacau nacional. Esse percentual era de 50% há dez anos", diz Moraes.


Com capacidade para processar 85 mil toneladas em sua planta em Ilhéus (BA), a Cargill usa nessa unidade cacau de quatro origens diferentes, conta o executivo. São elas Bahia, Pará, África (Costa do Marfim e outros países africanos) e Ásia (Indonésia).


A importação, diz ele, não se justifica apenas por uma questão de volumes, mas para atender demandas específicas dos clientes. "Normalmente, fazemos misturas de matérias-primas, mas dependendo do tipo de produto que será fabricado pelos nossos clientes, temos que ter cacau de origens específicas", detalha Moraes.


Do cacau, retira-se basicamente três produtos: o líquor, a manteiga e o pó. O cacau da Bahia, por exemplo, tem um pó mais vermelho, muito usado em bebidas lácteas e na elaboração de achocolatados. O paraense, por outro lado, tem um pó mais claro, mas com um sabor mais suave que o baiano, característica muito demandada nas sobremesas lácteas. "Temos uma infinidade de pós de coloração e intensidade de sabor diferentes para atender diversas empresas com seus produtos específicos.


A Cargill não revela qual o seu volume processado de cacau por ano em Ilhéus, que foi a primeira unidade de cacau da empresa no mundo. Hoje, a fábrica responde por 15% da capacidade total da múlti, que é de 600 mil toneladas.


Apesar de essa área representar apenas 5% das receitas totais da empresa no Brasil, quando se trata de resultado esse percentual sobe para algo na ordem de 10%. "Apesar de os volumes serem menores do que de outras commodities, o valor agregado dos subprodutos do cacau são mais elevados", explica Moraes.


Além da indústria de Ilhéus, que processa a amêndoa, a Cargill tem uma unidade de chocolate em Porto Ferreira (SP). De tudo o que a empresa vende, 65% seguem para o mercado interno e 35% para a exportação, parte para compensação tributária do imposto de importação do cacau, e também para desovar o volume de manteiga de cacau que não é absorvido no mercado brasileiro. (FB)






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