Adriano Villela
Para que o desenvolvimento econômico ocorra, a gente precisa dar condições para que a indústria amplie a sua capacidade econômica naquela região. E dar condições passa por um processo de formação básica e técnica desta mão de obra”, afirmou o coordenador do programa e gerente geral do Cieb, Evandro Mazo, em entrevista à Tribuna da Bahia.
Tribuna da Bahia – Este Programa de Interiorização prevê quais ações por parte da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb)?
Evandro Mazo –
TB – Como foram escolhidas as três regiões-piloto? São as que mais se desenvolvem no estado?
EM – Não teve um critério cartesiano na escolha destas regiões. Poderia afirmar hoje que são regiões que tem um desenvolvimento industrial e uma atração de investimentos mais significativa. Não vou ser leviano de esquecer Vitória da Conquista e Juazeiro, mas as três regiões escolhidas apresentaram dados que demonstram ter um desenvolvimento econômico - em que eu posso considerar comércio e serviços - mais significativo.
TB – Já foram definidos metas e objetivos no Programa de Interiorização?
EM –
TB –A participação da Fieb envolverá quais outras atividades além de capacitação?
EM – A participação da Fieb será muito mais abrangente, apoiada nas causas executivas. Vamos levar desde capacitação profissional, que é o papel do Senai. Ações de educação básica, educação continuada, bem como segurança e saúde do trabalho, que é de responsabilidade do Sesi, e do IEL, que é responsável por trabalhar a interação universidade-indústria, promovendo estágios nas indústrias assim como programas de competitividade e capacitação de fornecedores. A indústria precisa deste suporte para encontrar um ambiente de desenvolvimento mais favorável.
Não há uma receita melhor para o desenvolvimento do estado do que promover a interiorização da indústria. É uma maneira de trazer pessoas de outros setores para trabalhar na indústria e formar uma mão de obra em número suficiente. É melhor do que trazer a mão de obra de outros estados, deixando a população local à margem do desenvolvimento. Quando você chega na região e prepara a mão de obra, você faz com que ela seja melhor absorvida.
TB – Qual a matriz conceitual do Programa de Interiorização?
EM – Primeiramente, definir as metas de atuação em sintonia com as lideranças locais. Elas é que nos orientam sobre o que fazer. Nós já temos atuação em diversas cidades, mas temos que atuar de uma forma mais intensiva neste processo de interiorização. O que a gente chama de interiorização do sistema é oferecer produtos e serviços de maior valor agregado., respeitando a demanda que vem de lá e ampliando o número de vagas.
Numa análise econômica, o desenvolvimento do estado só ocorre quando ele cresce como um todo. É difícil você concentrar o ICMS em uma região e depois ter que distribuir para todo o estado. Essa decisão vai ao encontro da necessidade de possibilitar ao estado que ele cresça como um todo na industrialização. Acredito que o desenvolvimento econômico leva ao desenvolvimento social. Para que o desenvolvimento econômico ocorra, a gente precisa dar condições para quer a indústria amplie a sua capacidade econômica naquela região. E dar condições passa por um processo de formação básica e técnica desta mão de obra.
O Sistema Fieb tem um papel neste processo, mas outras instituições também estão envolvidas, como o Sebrae e os bancos de fomento.
TB – Como este programa se articula com a Secretaria da Indústria, Comércio e Mineração?
EM – Existem na federação hoje diversos conselhos que discutem temas relevantes para o desenvolvimento da indústria – conselhos temáticos de meio ambiente, infraestrutura, e outros. É nestes conselhos que se pensa estratégias de atuação. Quando o assunto é pertinente ao poder público, que pode contribuir para o desdobramento desta ação, o governo é convidado a participar desses conselhos. O poder público está envolvido na governança destas ações. Este documento que estamos elaborando no Programa de Interiorização está sendo construído com o apoio do governo do Estado. Tem algumas ações de responsabilidade do governo do Estado, como infraestrutura, por exemplo. Não é possível se trabalhar um programa de desenvolvimento, de interiorização, que não seja liderado pela indústria local e que não envolva a iniciativa privada, no caso a Fieb, em cooperação com o poder público, que é o governo, onde cada um tem o seu papel. O governo é estratégico no Programa de Interiorização, que vai delimitar quais as metas do sistema e o que é esperado do governo.
A parceria com o governo do estado é bastante intensa.
TB – Em que medida obras como a Ferrovia Oeste Leste e o Porto Sul contribui para a interiorização do desenvolvimento industrial?
EM - Para que a indústria seja competitiva, a gente tem que dá condições de logísticas. Estamos falando de comoditties – minério de ferro, soja,... É fundamental que a gente tenha um modal logístico extremamente competitivo. Tanto o porto como a ferrovia. Vão garantir um maior nível de competitividade para as indústrias, sobretudo aquelas localizadas no oeste e algumas empresas que vão se localizar em Ilhéus, de mineradoras. Vai viabilizar a exportação destas matérias-primas. Eu classificaria como fundamental para garantir o desenvolvimento da indústria do estado da Bahia.
TB – Somando todas estas ações, o percentual de interiorização do ano passado (65%) pode ser maior?
EM – Pode. Hoje a indústria é muito concentrada na Região Metropolitana de Salvador. O governo do Estado vem tendo um papel fundamental na política tributária, de incentivos para as empresas que vierem a se localizar no interior. A tendência, por conta da política tributária e das condições do interior, e que as indústrias se instalem cada vez mais do interior. A Região Metropolitana tem problema de infraestrutura e transporte, aí é preciso crescer em outras regiões. O desafio é preparar mão de obra qualificada para poder atender as empresas.
TB - A Copa de 2014, que tende a atrair investimento para a sede dos jogos – Salvador –, pode atravancar o processo de interiorização?
EM – Com certeza não vai concorrer. Eu entendo que vai apoiar o processo de interiorização no que se refere ao fornecimento de bens – produtos e serviços - por empresas que por uma característica tributária se localizem no interior.a empresas que vão construir projetos da Copa. Eu estou dizendo isso, mas não há uma definição, até porque este desenho precisa ser feito, se o governo desejar.
TB – Após a definição de metas, quais as próximas etapas do Programa de Interiorização?
EM – Definir metas é alinhavar as nossas metas com a demanda local. Validada a meta pelas lideranças locais e por nossa capacidade de realização, haverá um evento formal em que o nosso presidente vai entregar um documento, que é um compromisso da nossa federação. A próxima fase, então, é a entrega deste documento ao governo do Estado e às lideranças locais. A gente espera que em março tenhamos o início das ações. É claro que hoje, quando a gente fala do oeste, já há ações do Sesi, Senai, IEL. O que nós queremos hoje é, para sustentar o crescimento da indústria, ampliar a oferta de bens e serviços.
TB - Qual o principal desafio deste programa?
EM – Uma das barreiras é garantir mão de obra qualificada para suprir as necessidades das indústrias. Eu classificaria hoje como principal desafio. A mão de obra do interior tem um histórico de ser do setor de agricultura. Ela não está preparada, em algumas regiões, para trabalhar na indústria. Um dos desafios, talvez o principal, é preparar mão de obra na quantidade e nas competências demandadas por essas empresas. Outro ponto importante para garantir a industrialização no interior do estado é garantir a infraestrutura adequada. Estou falando de rodovias, energia elétrica, de telefonia. Temos problemas reais hoje em estradas e segurança no fornecimento de energia e serviços telefônicos. Este não é um papel só do estado, mas o poder público tem um papel de protagonista neste aspecto.