Polo Acrílico dará novo fôlego ao Polo Petroquímico

20/09/2011

Em entrevista exclusiva ao Bahia Econômica, o economista e professor-doutor da UFBA, Oswaldo Guerra, avalia a implantação do Polo Acrílico baiano, liderado pela Basf, e analisa os benefícios que serão proporcionados ao estado. Além disso, ele destacou que este polo “atenua o processo de esvaziamento pelo qual o polo petroquímico da Bahia vinha passando”.



OSWALDO GUERRA - ECONOMISTA E PROFESSOR DA UFBA





BAHIA ECONÔMICA - Em sua opinião, a implantação de um polo acrílico liderado pela Basf coloca a Bahia de novo no cenário petroquímico do país?



OSWALDO GUERRA -
Considero que o polo acrílico atenua o processo de esvaziamento pelo qual o polo petroquímico da Bahia vinha passando. Afinal, o fato de nos últimos 10 anos, nenhum empreendimento de grande porte ter se instalado em Camaçari - o último foi o da Monsanto- aliado ao fechamento de algumas unidades produtivas, começaram a provocar grandes preocupações quanto ao futuro do setor petroquímico da Bahia. Um polo têxtil e um polo acrílico sempre foram vistos como duas possibilidades de adensamento e desdobramento para a petroquímica baiana, devido à disponibilidade de matérias-primas aqui existentes, produzidas pela Braskem ou pela Refinaria Landulpho Alves (RLAM) da Petrobras. A decisão da Petrobras de localizar sua fábrica de PTA em Pernambuco e o fechamento da unidade de PET da Braskem inviabilizaram a possibilidade de se ter um pólo têxtil na Bahia. Quando a Petrobras incluiu em seu Plano de Negócios 2008-2012, a instalação de um polo acrílico na Região Metropolitana de Belo Horizonte, integrado a uma unidade separadora de propeno da Refinaria Gabriel Passos (REGAP), imaginou-se que este seria um segundo projeto estruturante perdido pela Bahia. Negociações políticas, aliadas ao interesse explicito da Braskem de trazer o empreendimento para Camaçari, onde ela produz e possui excedente de propeno, provocaram uma reversão no processo, desagradando o governo mineiro, pois, em um curto espaço de tempo, Minas Gerais perdeu dois grandes empreendimentos para o Nordeste: a planta da FIAT para Pernambuco e o polo acrílico para a Bahia.





BE - Quais as possibilidades de desdobramentos dessa cadeia?



OG
- Os desdobramentos para frente localizam-se nas possibilidades de se produzir em Camaçari artigos como fraldas descartáveis, absorventes higiênicos e tintas acrílicas. Atualmente, toda a matéria prima (ácido acrílico grau éster, ácido acrílico glacial, acrilatos de etila, de butila e de 2-etil-hexila e polímero superabsorvente - SAP) para a produção desses artigos no Brasil é importada da Ásia e da Europa. Com o pólo baiano, o Brasil pode se tornar autossuficiente na fabricação dessas matérias-primas e exportar o excedente fabricado para toda a América Latina. Deve-se considerar também os desdobramentos para trás, uma vez que o excedente de propeno antes exportado pela Braskem passa a ser usado no próprio polo de Camaçari, aumentando a integração da cadeia petroquímica local e o desempenho operacional e financeiro da empresa.





BE - Havia a possibilidade da Braskem ter optado pela Elekeiroz, no entanto, ela preferiu a Basf. Em sua opinião, por que a Braskem preferiu a empresa alemã?



OG
- Desde a época do anúncio da intenção da Petrobras de instalar o pólo acrílico em Minas Gerais, a estatal iniciou negociações para a escolha do parceiro tecnológico: o sócio internacional que iria fornecer o conhecimento necessário à montagem da unidade. Até o final de 2005, esse parceiro parecia ser a Dow Química, mas a Petrobras acabou rompendo a parceria por discordar do preço que a empresa americana queria cobrar pela transferência da tecnologia. Na verdade, a dificuldade residia no fato dos dois detentores internacionais da tecnologia, e com forte e reconhecida expertise na área, Dow e Basf, preferirem ser sócios do projeto a simplesmente venderem o pacote tecnológico, pois elas abasteciam o mercado brasileiro a partir de bases localizadas em outros países. Entrando no Brasil como meros vendedores de um pacote tecnológico, essas companhias estariam, ao mesmo tempo, criando um competidor para si próprias e perdendo um mercado até hoje importador. A estatal parece ter mudado de estratégia, passando a aceitar um sócio internacional e não um mero fornecedor de tecnologia. Com isso, as negociações avançaram. Creio que a Elekeiroz tenha tido dificuldades de concorrer com esses dois pesos-pesados e que a Basf tenha oferecido a Braskem, da qual a Petrobras é minoritário relevante, melhores condições para participar do projeto do que a Dow, que sofreu muito, do ponto de vista financeiro, com a crise de 2008.





BE - Em sua avaliação, a Bahia tem possibilidade de atrair mais uma indústria automobilística? Fala-se da Jac Motors.



OG
- Como baiano, gostaria muito. A vinda de outra montadora criaria uma maior escala produtiva na indústria automobilística baiana e poderia ensejar a vinda de fornecedores que alegam que a escala produtiva da Ford, mesmo levando em conta a ampliação prevista, não justifica a produção local de certos tipos de peças e componentes automotivos. A Bahia parece ter chances, juntamente com Goiás e Pernambuco.





BE - Pernambuco tem tido muitos investimentos industriais. O senhor acha que este estado está se tornando um polo industrial capaz de competir com a Bahia?



OG
- Sem dúvida. Pernambuco possui hoje uma infraestrutura logística, nucleada em torno de Suape, superior a da Bahia. Esta vantagem competitiva, somadaà concessão de incentivos fiscais, ao êxito das gestões políticas realizadas por seu governador, Eduardo Campos, durante o Governo Lula, e o aparente interesse do governo federal em desconcentrar o investimento industrial no Nordeste -até então fortemente concentrado na Bahia -resultaram na ida para Pernambuco de diversos empreendimentos de porte. Isto não deve ser visto como algo irreparável para a Bahia, pois não é viável desejar que todos os empreendimentos industriais localizem-se aqui. Resta, todavia, uma lição: supondo que mais cedo ou tarde a guerra de incentivos fiscais acabe, a capacidade para atrair investimentos repousa em infraestrutura logística, educação, pesquisa tecnológica, empreendedorismo, e capacidade de interlocução política.





BE - O que o senhor aponta como maiores entraves para ampliação dos investimentos na Bahia?



OG - Mercado consumidor limitado em termos de poder aquisitivo - quadro que só agora começa a se reverter -infraestrutura deteriorada, baixos níveis educacionais, acanhada produção de ciência e tecnologia, e redução da capacidade de oferecer incentivos fiscais e financeiros, tendo em vista as concessões já feitas cujos prazos de fruição estão ainda em vigor. Nesse sentido, para estados que assumiram maiores compromissos no passado, como foi o caso da Bahia, a concessão de vantagens de natureza fiscal e financeira pode simplesmente não ser possível em virtude de seu impacto orçamentário.





BE - Como o senhor avalia a política industrial do governo JaquesWagner até o momento?



OG
- É preciso ter claro que o espaço, no Brasil, país que não é uma federação como os EUA, para governos estaduais terem uma política industrial é muito limitado. Além disso, a Bahia padece das limitações mencionadas por mim. Os frutos dos esforços dos governos federal e estadual em curso para melhorar a infraestrutura logística e ampliar o poder de compra de parcelas importantes da população baiana -especialmente a que vive no imenso semi-árido da Bahia -só agora começam a ser colhidos. Esses esforços precisam ser reforçados por ações mais incisivas nas áreas de educação, ciência e tecnologia, cruciais para que se possa pensar em uma autêntica política industrial que mire a construção de vantagens competitivas duradouras e não vantagens efêmeras, baseadas apenas em incentivos fiscais e financeiros.

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