James Correia Secretário da Indústria, Comércio e Mineração, é Doutor em Engenharia Elétrica pela USP e autor do Plano de Racionamento de Energia Contra os Apagões, de 2001
Quando nós acionamos um interruptor ou ligamos um televisor, na prática estamos nos conectando a uma usina geradora de energia elétrica. Como no Brasil mais de 80% dessa energia é produzida em usinas hidrelétricas, que estão localizadas onde a natureza determinou, em geral bem longe dos grandes centros urbanos, transportála é um grande desafio em um Paíscomdimensões continentais.
Para se ter uma ideia da complexidade desta operação, se colocarmos a nossa rede elétrica sobre o mapa da Europa, ela ocupará um espaço que vai de Portugal até a Rússia. Nessa rede estão conectadas as usinas hidrelétricas, termoelétricas, nucleares etc. Na prática, não podemos nem mesmo dizer de onde vem a energia que faz girar o seu liquidificador. Portanto, o desafio cotidiano é manter residências e indústrias conectados fisicamente nessa rede.
Desequilíbrios nos investimentos ou graves influências de fenômenos naturais secas ou descargas atmosféricas de grandes proporções que incidam sobre pontos vitais, afetam qualquer sistema elétrico com essas dimensões, porque o nosso principal combustível para gerar eletricidade é a água. Em 2001, vivemos o maior racionamento deenergia elétricade todos os tempos no Brasil.
Todos se lembram das cotas (20%) estabelecidas para que cada consumidor reduzisse suas contas de energia. O setor produtivo teve que absorver grandes prejuízos – apurados pelo TCU e Aneel em R$ 45 bi e novos investimentos foram postergados, ou ainda pior, cancelados. Por trás desse racionamento estava uma visão de “Estado mínimo”, que levou ao abandonodequalquer atividadedeplanejamento desse complexo sistema elétrico brasileiro.
Com isso, tínhamos energia em Itaipu, mas não havia linha de transmissão para transportála para o Sudeste. O governo de então, por razões de natureza política, postergou medidas que poderiam ter minimizado o problema. Sem alternativas, por fim, queria economizar energia realizando uma série de desligamentos setoriais, que ficou conhecido como “apagões”. Aliás, os primeiros apagões datam de 1999.
A Bahia teve um papel fundamental nesse processo, porque vários especialistas em energia elétrica, notadamente professores da Unifacs, conseguiram demonstrar ao governo federal que era possível economizar energia de outro jeito e, afinal, da forma como foi feita.
Quando o presidente Lula assumiu, sob o comando da ministra Dilma Rousseff, o Ministério das Minas e Energia mudou rápida e radicalmente de postura. Foi criada a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) para executar o planejamento da geração e transmissão. Os leilões de transmissão são considerados um sucesso em todo o mundo. Em razão das dificuldades para se aproveitar o potencial hidrelétrico principalmente aquele localizado na Amazônia o governo iniciou um programa de licitação de usinas termoelétricas (óleo e gás) como medida preventiva contra novos blecautes, já que outras alternativas, como a energia eólica e pequenas centrais hidrelétricas, politicamente corretas do ponto de vista ambiental, são incapazes de atender às demandas da sociedade.
Por isso, comparar os problemas ocorridos no governo FHC com esse fato isolado ocorrido nesta semana é demonstrar um total desconhecimento da evolução do sistema elétrico brasileiro na era do presidente Lula, independentemente da causa do blecaute raio ou falha nosistema de automação– e éóbvio que é importante apurar as causas para se evitar novas ocorrências.
Portanto, misturar alhos com bugalhos é tentar apagar da memória do povo brasileiro as dificuldades vividas durante o racionamento de energia no período 2001-2002.
A Bahia tem uma orientação clara do governadorJaquesWagner paraaumentarainteração com a EPE, com quem estamos constituindo um grupo de trabalho para acompanhar o planejamento e os impactos decorrentes na matriz energética baiana. Os desafios são grandes. As usinas termoelétricas não são a melhor opção do ponto de vista ambiental, mas podem garantir back up para as grandes cidades, embora, é misterquese ressalte,que não exista sistema imune a falhas.