Bahia: potência energética do Nordeste

Publicado: 10/10/2011 Última atualização: 06/10/2026 às 09:00

A Bahia tem um papel importante no cenário político e econômico brasileiro. Pelo lado econômico, o estado é conhecido por sediar o primeiro pólo petroquímico planejado no Brasil - o Pólo de Camaçari _ e também por estar concentrada naquela região a maior parte da produção brasileira de urânio, na Mina de Caetité, material usado para abastecer as usinas nucleares de Angra 1 e Angra 2 e deverá fornecer também o combustível para Angra 3, que já está em construção. Mas o potencial energético da Bahia vai além do petróleo e do urânio. Na energia elétrica, o estado tem um papel preponderante na região Nordeste.



O Plano Decenal de Expansão de Energia 2020, da Empresa de Pesquisa Energética, mostra que a carga de energia baiana responde

por uma fatia de 32% do total da região Nordeste. As usinas daquele estado têm capacidade instalada de 6.892 MW. Cerca de 65% desse total, provém de hidrelétricas. Em capacidade instalada de geração, o Nordeste conta com 15.615 MW em volume total.


Desde 1993, o consumo de energia elétrica na Bahia vem crescendo a uma taxa de 3,66% ao ano, segundo dados da Secretaria de Indústria, Comércio e Mineração, conforme divulgado no Balanço Energético relativo a 2010. Segundo o documento, esse avanço se manteve graças ao crescimento socioeconômico, sobretudo o observado no setor industrial que é o responsável pela maior parte do

consumo elétrico baiano, com 48,8% do total. O residencial responde por 20,5% e o comercial, 11,7%.


Os leilões realizados desde 2007 refletem essa importância crescente do mercado baiano. Naquele ano, o certame A-3 contratou 1.304 MW médios e dois empreendimentos térmicos estavam na Bahia _ Itapebi (103 MW médios contratados) e Monte Pascoal (104 MW médios de contratação). No leilão A-3 do ano seguinte, já foram seis térmicas que venderam energia no certame, totalizando 611 MW médios de volume contratados destas unidades, mais da metade do volume total negociado, que chegou a 1.076 MW médios.


Em 2009, no primeiro leilão voltado exclusivamente para compra de energia proveniente dos empreendimentos de energia eólica, a Bahia se consolidou como o terceiro estado com o maior número de projetos e potência instalada, atrás do Rio Grande do Norte e Ceará. Na Bahia, foram negociados 18 projetos, representando 25,4% do total. Em potência instalada, a Bahia teve 390 MW, o que significa 21,6% do total vendido. Essa tendência de crescimento se manteve no certame de fontes alternativas de 2010, quando totalizou 587,4 MW de empreendimentos negociados, ficando atrás somente do Rio Grande do Norte, que teve 1.064,6 MW vendidos. Mas no leilão A-3 deste ano, a Bahia negociou um volume maior do que Ceará e Rio Grande do Norte, chegando a 266 MW, contra 104 MW dos projetos cearenses e 53 MW dos potiguares.


Entre as principais empresas que atuam na região, está a Chesf, que tem uma previsão de investimentos de R$ 2,2 bilhões na Bahia para os próximos cinco anos. Nos atuais investimentos, R$ 800 milhões serão empregados na futura Central Eólica de Casa Nova e mais R$ 600 milhões nas obras de transmissão, totalizando algo em torno de R$ 1,4 bilhão. A empresa considera que há uma grande possibilidade de expansão no mercado energético baiano, sobretudo na área eólica. Porém, a estatal vê problemas com relação ao licenciamento ambiental. _A principal dificuldade encontrada é a obtenção das licenças ambientais. Os processos de licenciamento têm sido longos e imprevisíveis ocasionando comprometimento nos prazos previstos para a entrada em operação dos empreendimentos, relata o diretor de Engenharia da Chesf, José Aílton de Lima.


Dos 10.618 MW de capacidade instalada que a empresa tem, quase metade desse total _ 5.331 MW estão na Bahia, conforme detalhou Lima. A grande parte desses pouco mais de 5 mil MW em capacidade instalada é proveniente de fonte hidráulica, com um total de 4.981 MW. O restante, 350 MW, é representado pela geração de fonte termelétrica. Na parte de transmissão de energia elétrica, a Chesf tem dez lotes no estado, de um total de 23 arrematados nos leilões de transmissão promovidos pelo governo nos últimos leilões. Esses dez lotes situados em solo baiano representa 923 km de linhas. Das 17 novas subestações arrematadas pela empresa, cinco ficam na Bahia. Entre os projetos para os próximos cinco anos estão a implantação de quatro linhas de transmissão: Ibicoara _ Brumado II, com extensão de 105 km; Funil _ Itabepi, com 198 km de extensão; e Sapeaçu _ Santo Antônio de Jesus, com 31 km. Estas três têm 230 kV de capacidade. Já a LT Sapeaçu _ Camaçari IV, terá 500 kV extensão de 105 km. Além disso, existem seis subestações previstas para o período.


Além das áreas em que já atua, a Chesf busca por novos horizontes na Bahia. E eles são representados pelos projetos em energia eólica. Segundo dados da Secretaria de Indústria Comércio e Mineração baiana, o estado possui entre 10% e 15% de todo o potencial eólico no país. A Chesf está implantando a eólica Casa Nova, com 180 MW de capacidade instalada, considerada o maior empreendimento desse tipo de fonte na região. No momento, a estatal está em fase de conclusão da obtenção dos licenciamentos ambientais para as eólicas Casa Nova II, III e IV, com 28 MW, 24 MW e 28 MW, respectivamente. A Chesf tem intenção de incluir estas unidades nos próximos leilões da Agência Nacional de Energia Elétrica. Além disso, a estatal também está desenvolvendo o projeto da hidrelétrica Riacho Seco, em parceria com a Engevix, Desenvix e Odebrecht. Esta usina será construída no Rio São Francisco, entre os municípios de Curaçá (BA) e Santa Maria da Boa Vista (PE). Com 276 MW de capacidade instalada, esta é uma obra no âmbito do Programa de Aceleração do Crescimento _ PAC. Mas a usina tem problemas. No início de setembro, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis devolveu o estudo de impacto ambiental para a Chesf devido a _não conformidades identificadas com relação ao termo de referência. Isso pode fazer com que a U_E fique de fora do certame A-5, previsto para 20 de dezembro.


Sobre o certame, a Bahia tem o terceiro maior número de projetos eólicos inscritos. São 56 usinas situadas em território baiano, totalizando uma oferta de 1.340 MW só de energia dos ventos. Os demais estados com um número relevante de usinas eólicas são o Rio Grande do Norte (70 usinas, com 1.795,2 MW de oferta) e Ceará (60 eólicas, com uma oferta de 1.431,8 MW). A Bahia teve também inscritos para o certame termelétricas a gás natural (três unidade, com oferta de 1.224,7 MW) e uma a cavaco de madeira, que deverá ofertar 150 MW).


A capacidade de geração eólica é uma das principais características do futuro energético do mercado baiano, já que o Estado não poderá mais contar com um grande aproveitamento hidrelétrico. Esta é a análise do consultor Erik Eduardo Rego, diretor da Excelência Energética. Segundo o especialista, a Bahia tem uma característica importante que faz deste estado um local relevante para investimentos nessa fonte de energia: é o fator de potência.

Os estados que, em questão de ventos, deixam os projetos com uma eficiência melhor _ Rio Grande do Norte, Ceará e Bahia. Se pegar os dados cadastrados no leilão A-5, quase 18% dos eólicos incluídos são na Bahia, explica.


Para Erik Eduardo Rego, a Bahia leva vantagem porque o regime de ventos na região é de alta de velocidade e grande frequência. Essa característica levou para o estado empresas que buscam investir mais no setor, como é o caso da Alstom e da Renova Energia.


Ricardo Delneri, diretor-presidente da Renova, diz que hoje a Bahia tem um potencial eólico estimado em 30 GW e acredita que haverá espaço para que as empresas invistam nesse setor pelos próximos anos. Na Bahia, o vento ocorre mais no interior, diferentemente de outros estados onde está concentrado na parte litorânea, destaca Delneri. A empresa tem investimentos de aproximadamente R$ 2,5 bilhões em projetos de geração de energia a partir dos ventos naquele estado, com 29 parques eólicos em desenvolvimento, sendo que 14 venderam energia em leilão realizado em 2009; outros seis no certame de 2010 e mais nove obtidos no certame de energia realizado neste ano. Todos estes empreendimentos devem entrar em operação entre 2012 e 2014.


O vice-presidente de Energia da Alstom, Marcos Costa, lembrou que a companhia está investindo cerca de R$ 50 milhões na construção de uma unidade de fabricação de aerogeradores no pólo industrial de Camaçari. Esta fábrica terá capacidade de produzir até 300 MW em equipamentos. Esta será a oitava fábrica que a Alstom está instalando no Brasil e ela será um ponto de distribuição de equipamentos para todo o mercado brasileiro e deve atender também a pedidos de encomendas de toda a América Latina. Se tivermos uma ocupação plena da fábrica de Camaçari, o faturamento que essa unidade vai agregar é de cerca de R$ 700 milhões por ano, afirma.


Costa ressalta que, a princípio, a nova unidade produzirá equipamentos equivalentes a 150 MW _ a metade da capacidade de produção projetada para ela. O executivo diz que atingir a plena capacidade de produção dependerá dos contratos que serão assinados no futuro. Segundo o vice-presidente da Alstom, a nova fábrica poderá chegar a sua plena potência em um período de até dois anos. _Entre contratos assinados e em vias de assinatura, temos um volume de produção da ordem de 400 MW. Desse volume, 100 MW já estão em fase final de instalação. Então ainda há a produzir 300 MW, que devem ocorrer em um período de dois anos, detalha.


Além da Alstom, a espanhola Gamesa também se instalou no estado. A companhia investiu cerca de R$ 50 milhões na construção de sua unidade que deverá produzir 200 equipamentos por ano, totalizando 400 MW. E a espanhola já pensa em ampliar a unidade recém-inaugurada. O objetivo da companhia é se tornar uma das três maiores fabricantes de aerogeradores do país. Recentemente, outra gigante do setor anunciou que está se preparando para entrar no mercado baiano. Trata-se da GE, que anunciou investimentos de aproximadamente R$ 45 milhões na construção de sua fábrica no estado voltada para atender ao setor eólico.


Com a chegada destas empresas, o secretário Executivo da Câmara de Energia do Conselho de Desenvolvimento Industrial e Comercial da Bahia, Rafael Valverde, adianta que o governo baiano tem o projeto de criar um cluster industrial, com foco na produção de equipamentos para atender a indústria de energias renováveis. Para Valverde, a implantação desse cluster será importante para a Bahia oferecer aos empreendedores uma vantagem comparativa do ponto de vista da logística, já que as unidades de fabricação dos equipamentos estarão localizados próximos às usinas em construção. A competitividade alcançada nos leilões é muito elevada e sabemos que, de uma maneira geral, o custo do equipamento não vai diferir muito de um parque para outro. Mas o custo logístico, esse sim, pode diferenciar bastante se esse projeto estiver aqui na Bahia. Então a proximidade do fornecedor do cliente será algo fundamental nos próximos anos para definir a competitividade dos empreendimentos, diz.


O potencial baiano não está restrito apenas à energia eólica. As empresas que investem no setor de energias renováveis também estão de olho na implantação de projetos de energia solar. Ricardo Delneri, da Renova Energia, enfatiza que a companhia tem um departamento de pesquisa e desenvolvimento (P&D), com verba anual de R$ 3 milhões, que está estudando, entre outras linhas de pesquisa, a energia solar. Delneri ressalta que o objetivo é o de encontrar o potencial e as tecnologias para essa geração de energia, e não ainda desenvolver um projeto solar, propriamente dito. Existem diversas linhas tecnológicas, então a gente vem acompanhando tudo. O foco das pesquisas está em encontrar uma tecnologia e não em encontrar o lugar ainda, explica.


Outra companhia que também está apostando no desenvolvimento do setor solar da Bahia é a Kyocera, fabricante de equipamentos fotovoltaicos. Miriam Fonseca, gerente de vendas da Kyocera Solar, afirmou que a empresa tem hoje uma filial na Bahia para atender ao projeto de instalação geração de energia por meio de painéis solares da Coelba, que atendeu 22 mil residências entre 2006 e 2010, dentro do programa Luz Para Todos. Miriam disse que atualmente o setor está em compasso de espera pelo desenvolvimento da geração de energia solar e a inserção dela na matriz energética e vê bastante potencial na Bahia nesse. Com certeza terá bastante sucesso e uma quantidade de energia bastante satisfatória, comenta.


Rafael Valverde, da Câmara de Energia baiana, diz que o estado também aposta na geração solar. Segundo ele, a estratégia adotada para incentivar a expansão da energia solar no estado é a mesma adotada para atrair as usinas eólicas. Ele informou que já existem projetos solares em fase de licenciamento. Porém, como ainda não existe uma legislação ambiental específica para empreendimentos solares, o secretário adiantou que dos projetos em licenciamentos, alguns estão utilizando a base para empreendimentos eólicos e outros, para térmicos. Na conclusão deste processo, será elaborada uma legislação própria para empreendimentos de energia solar.


Foi enviado um ofício ao Conselho de Política Ambiental do Estado solicitando que se estabelecesse um grupo de trabalho e um planejamento para que fosse realizado esse tipo de ação. De fato, a necessidade é atual e precisa ser respondida agora, diz. Mas nem tudo são flores. Existem problemas e eles são ligados justamente à logística e à conexão dos novos projetos de geração de energia, embora este último não seja exclusividade do mercado baiano. Na avaliação de Erik Eduardo Rego, da Excelência Energética, muitos sistemas estão sobrecarregados e o principal risco é o eventual descasamento do cronograma da usina e da linha que irá escoar a produção. O leilão A-3 é para projetos que entreguem energia em março. As ICGs [instalações compartilhadas de geração estão previstas para ficarem prontas até fevereiro. Um mês de diferença. Se atrasar um pouco no licenciamento, ocorrer algum imprevisto, pode ocorrer um descasamento, afirmou.


Já Marcos Costa, da Alstom, aponta que os problemas são relacionados à falta de infraestrutura adequada para transportar os equipamentos e diz que a questão precisa ser devidamente equacionada. O transporte de equipamentos eólicos exige uma infraestrutura adequada, seja portuária, seja rodoviária. Então a gente acredita que estes investimentos no Brasil precisam ocorrer na

medida que isso pode vir a ser um gargalo em termos de custos e em termos de prazos, detalha.


Valverde admite que o questão da conexão é um problema real e destacou que o governo baiano está tomando diversas ações para equacionar esse obstáculo. Um deles está na interiorização do desenvolvimento de forma a distribuir melhor a renda do estado, que

hoje está muito concentrada na região metropolitana de Salvador. A expansão da rede básica não tem acompanhado nos últimos anos o crescimento industrial. Então alguns locais estão sofrendo com relação a esse assunto e algumas ações estão sendo tomadas, explica. Além disso, ele esclarece que estão sendo negociados junto à Empresa de Pesquisa Energética estudos para implantação de uma linha transmissão que irá ligar a região dos parques ao Sistema Inteligado Nacional, facilitando o escoamento da energia destes empreendimentos. Segundo Valverde, esse pedido precisa ser validado para que possa fazer parte do plano de expansão da transmissão brasileira. O governador da Bahia, Jaques Wagner esteve reunido em setembro com o presidente da EPE, Maurício Tolmasquim, onde ele pontuou essa questão e a necessidade de expansão para o setor de transmissão, completa Valverde.


A responsabilidade da distribuição da energia elétrica naquele estado é da Coelba, concessionária que está presente em 415 dos 417 municípios baianos, atendendo a uma população estimada em 14 milhões de habitantes. Ela é responsável por 61% do fornecimento direto, sendo que o restante está dividido entre a Chesf e autoprodutores da região. Segundo o relatório do desempenho da empresa, a universalização da energia, por meio do Luz para Todos foi o principal responsável pelo incremento de 203 mil novos consumidores incluídos na classe de consumo residencial. Isso fez com que o número de consumidores ativos da distribuidora registrasse uma elevação de 4,5% no segundo trimestre deste ano. Porém, as perdas de energia são um problema. A distribuidora baiana registrou uma elevação de 0,6% entre o segundo trimestre do ano passado até o mesmo período deste ano, passando de uma taxa de perdas de 12,74% para 13,38%. Desse total, a Coelba informa, em seu relatório financeiro, que as perdas não técnicas, relacionadas aos furtos de eletricidade, correspondiam a 2,69% e 3,21%, respectivamente. Para combater essas perdas a companhia tem como ações programadas intensificar as inspeções a unidades consumidoras, acompanhar os clientes com fornecimento cortado e do consumo de iluminação pública, entre outros fatores.


Até o fim do ano, a companhia pretende investir cerca de R$ 1,3 bilhão em melhorias para aprimorar a qualidade do fornecimento. Esse montante será aplicado em atendimento a clientes, ampliação do sistema elétrico, novas ligações rurais e urbanas, além da aquisição de novos equipamentos, inclusão de novas tecnologias e continuidade do desenvolvimento do projeto de automação do sistema. É vedada a utilização e/ou reprodução total ou parcial do conteúdo gerado pelo CanalEnergia sem prévia autorização.
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