Marcos Rozen
Mesmo em uma eventualidade de nada mais daqui para frente dar certo, ou se por uma razão inesperada tudo desmoronar – o que, definitivamente, não parece ser o caso – Sérgio Habib e sua Jac Motors Brasil já têm do que se orgulhar. Na segunda-feira, 14, em Salvador, BA, nada menos do que noventa fabricantes de autopeças instaladas no País atenderam chamado para candidatar-se a um posto de fornecedor da futura fábrica Jac Motors em Camaçari, BA, cujo início de produção está previsto para outubro de 2014.
Boa parte delas, nomes de peso na indústria nacional, e também global, de autopeças: Aethra, Bosch, Bridgestone, Continental, Delphi, Denso, DuPont, Eaton, Faurecia, Goodyear, Iochpe Maxion, Johnson Controls, Lear, Magneti Marelli, Magna, Mangels, Mann Hummel, Pirelli, Plascar, Sabó, Saint Gobain Sekurit, Shaeffler, Shell, Takata, Tenneco, TRW, Umicore, Valeo, Visteon e ZF lá estavam, além de muitas outras.
O encontro promovido na sede da Fieb, Federação das Indústrias do Estado da Bahia, com apoio do governo local e do Sindipeças, revelou interessante cenário de seriedade. Por um lado a própria Jac Motors, ao convocar tal encontro, deu mostras de o quanto é sério, e para valer, seu projeto de construir fábrica no País. E, por outro, a própria presença dos fornecedores, tanto em volume quanto relevância, deixou claro que eles acreditam que o projeto é, mesmo, sério.
Outra descoberta foi a da peculiaridade do projeto Jac Motors e Grupo SHC, de Habib. Ao contrário da compatriota Chery, que também pretende ter sua fábrica no Brasil, a Jac local é muito mais brasileira do que chinesa – 66% a 34% é a divisão da joint venture. A Chery em Jacareí, SP, é de capital todo da matriz chinesa.
Assim, enquanto a Chery tem preferência por trazer da China seus fornecedores para montar seus veículos no Interior paulista, a lógica da Jac Motors baiana é totalmente oposta: Habib quer montar seus veículos utilizando-se integralmente de peças de fabricantes de autopeças já instalados no País. "Pois os fornecedores da Jac na China são globais, e a maior parte já está aqui também."
O que não significa que o fornecimento será automaticamente repicado no País. O executivo garantiu em seu discurso de apresentação aos presentes que a Jac Motors, no Brasil, "não tem absolutamente nenhum fornecedor pré-selecionado". Por isso, está aberta a todo e qualquer interessado.
Há, entretanto, uma bela encrenca à frente para estes. "Precisamos produzir no Brasil mantendo nossa competitividade atual. E a referência de preço é a chinesa." Ou seja: a Jac quer comprar aqui, sim, mas pagando no máximo preço que pelo menos empate com a mesma peça fabricada na China mais impostos e frete. O limite é esse e nada além. "É um desafio para todos nós, e todas as idéias são bem vindas."
Algumas partes, como estamparia de peças grandes e bancos, certamente serão adquiridas no Brasil pelas dificuldades logísticas para estes itens. Além disso motor e câmbio serão importados, e a Jac Motors precisa alcançar o limite mínimo de nacionalização necessário.
O cronograma montado pela Jac Motors é apertado e por isso a fabricante tem pressa. Prevê recebimento dos moldes de estamparia já neste outubro, escolha dos fornecedores em dezembro, assinatura de contratos até junho de 2013 e recebimento das primeiras peças definitivas em março de 2014 – para iniciar a produção em série de veículo em outubro.
Venham! – O workshop da Jac Motors, que se estende até a terça-feira, 15, também tem participação ativa do governo do Estado da Bahia. Cujos representantes deixaram muito claro que a intenção não é só que as empresas forneçam à fábrica, mas que o façam a partir de novas unidades naquele Estado.
Na lista de benefícios estão nada menos do que os mesmos concedidos à própria Jac, como desconto de 75% no Imposto de Renda por 10 anos, isenção de ICMS e muitos outros, para aqueles que escolherem Camaçari. Quem optar pela região do semi-árido ganha coisa parecida e financiamento com juros de menos de 1% ao ano – válido até mesmo para construção de casas para os funcionários no entorno.
Mas Habib já deixou claro que não quer nem ouvir falar em fornecedor instalado junto à planta, no mesmo complexo – como o é na vizinha Ford, distante apenas 10 quilômetros. "Cada um com seu local e com seus problemas."
A primeira escala de atração está justamente nas empresas que hoje atendem apenas à Ford, e que desejam expandir operações fora daquele complexo, bem como as que negociam com a Fiat em Pernambuco. Alguns destes fornecedores poderão escolher a Bahia, por um pacote de incentivos mais interessante. E aí a fabricante de origem chinesa pegaria uma carona.
A Jac pretende ainda realizar dois novos workshops com fornecedores, em datas a definir, para as áreas específicas de serviços – logística, informática etc – e de máquinas e equipamentos.
Neles, assim como neste primeiro encontro, participa também um novo executivo da linha de frente da Jac Motors Brasil, nomeado vice-presidente – o que finalmente desvincula um pouco a marca apenas e tão somente da figura de Sérgio Habib. É Tarcisio Telles, ex-Delphi e PSA Peugeot Citroën, antes responsável pela unidade de Porto Real, RJ. A ele caberá a mão na massa do dia-a-dia, desde a fábrica até o produto final.
Telles é novo na Jac Motors mas conhece o presidente há uma década: muito negociaram quando Habib era o presidente da Citroën, e pedia modificações nos produtos e volumes produzidos na unidade fluminense.