Até 31 de agosto, o Brasil voltará a assistir um cenário de pujança no mercado de automóveis zero quilômetro. Como ocorre todas as vezes em que o governo mexe no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) do setor, a reação imediata será o aumento da demanda, calcada, sobretudo, na redução do valor das prestações dos financiamentos.
Por ter, no entanto, adotado uma série de medidas em doses separadas nos últimos meses, desta vez o governo causou muita confusão antes de chegar ao que a indústria sempre prega: a redução da carga tributária.
As dúvidas em torno da possibilidade de o mercado brasileiro de veículos novos alcançar um novo recorde em 2012 desaparecem à medida que a redução de preços ao consumidor é suficiente para desencalhar estoques nas fábricas e concessionárias.
Atender aos apelos do setor num momento em que quase todos os maiores fabricantes de veículos do mundo já estão no Brasil ou prestes a inaugurar suas primeiras fábricas no país também funciona como uma maneira de o governo referendar a política de estímulo à produção local.
Entre 2012 e 2014 serão inauguradas fábricas de marcas como Hyundai, Toyota e as chinesas JAC Motors e Chery, sem contar os elevados volumes de investimentos na ampliação das linhas já existentes.
Há algumas semanas, os dirigentes das montadoras já não contavam com uma possível redução de impostos, já que o governo havia decidido, ao final de 2011, justamente elevar a carga tributária para veículos que não cumprissem a nova exigência de conteúdo local.
Mas, quando os estoques começaram a subir, o grupo de representantes do setor já conhecido pela equipe econômica voltou a bater às portas em Brasília.
Para dissimular, os dirigentes do setor, repetiam publicamente que não era redução de impostos que estavam pedindo em Brasília, mas sim medidas para estimular a liberação de crédito. Fingiram que desta vez se contentariam com ações mais brandas.
No fundo, queriam as duas coisas: uma mãozinha na liberação de crédito e também corte na carga tributária. E conseguiram ambas. Essa estratégia tem sido usada com frequência por uma indústria que não quer perder sequer um único dia de vendas.
As palavras de um executivo do setor servem para explicar a necessidade de dissimular: “Se eu vendo presunto e sei que o imposto do presunto vai cair, eu não posso antecipadamente comentar sobre isso porque aí eu paro de vender presunto”.