09/01/2014
Rio - Automóveis e combustíveis impulsionaram a indústria nacional de janeiro a novembro de 2013. Foi o ano do incentivo ao trânsito. Dos quatro itens mais produzidos no período, apenas um não teve relação direta com o setor automotivo: o de máquinas e equipamentos agrícolas, favorecido pela supersafra de grãos. A Produção Industrial Mensal - Produção Física (PIM-PF), divulgada nesta quarta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela alta expressiva da fabricação de veículos automotores; de combustíveis (sobretudo, gasolina, óleo diesel e óleo combustível); e de outros equipamentos de transporte. No grupo de automotores estão incluídos, além dos carros de passeio, caminhões, ônibus e partes e peças.
Com a ajuda de desoneração tributária para a compra de veículos e da facilitação do crédito pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES) para a aquisição de caminhões, o setor de automotores cresceu 9% de janeiro a novembro, a maior alta da indústria nesse intervalo. Os combustíveis vieram logo em seguida, com crescimento de 7,7%. Nesse caso, o avanço foi motivado não só pelo aumento do número de veículos nas ruas e estradas, mas também pela estratégia da Petrobras, produtora dos combustíveis, de reduzir a importação e os custos a partir da operação de suas refinarias em patamares altos, segundo o gerente de Coordenação de Indústria do IBGE, André Macedo.
De janeiro a novembro, a produção nas refinarias cresceu 6,1%, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). A maior alta foi a da fabricação de gasolina, de 9,6%, comparada a igual período do ano anterior, o que representou uma produção de 26,3 bilhões de litros. A produção de óleo diesel cresceu 9,2% (5,4 bilhões de litros) e a de óleo combustível, 9,1% (13,5 bilhões de litros). Como consequência, caíram as importações da gasolina (-21%) e do óleo combustível (-49,3%). Mas a compra no mercado externo de óleo diesel, utilizado nas estradas principalmente para o transporte de agrícolas, continua crescendo. Nos 11 meses do ano passado, a importação subiu 49,3%.
"É claro que o dinheiro público seria melhor aplicado em transporte coletivo do que subsidiando a compra de automóveis e de combustíveis fósseis. Mas, o automóvel não é um mal em si. A aspiração à mobilidade individual é legítima. Seria perverso com a dita classe C, de novos consumidores, dizer o contrário. O que não pode é usar o carro para ir e voltar ao trabalho diariamente. Tem que ter mais inteligência de transporte", opina o ex-presidente do IBGE e ambientalista, Sérgio Besserman.
O incentivo ao setor automotivo e, consequentemente, ao de combustíveis desagrada também a outros segmentos industriais. O secretário da presidência da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Carlos Pastoriza, considera as medidas do governo de facilitação a um privilégio concedido. "A proteção tarifária é pornográfica", contesta ele, em referência à desoneração do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).
Os bens de capital, representados pela Abimaq, no entanto, foram os que mais cresceram de janeiro a novembro, 14,2%, frente à média das categorias de uso da indústria de 1,4%. Pastoriza argumenta, contudo, que essa alta está relacionada ao avanço das máquinas e equipamentos agrícolas e não àquelas voltadas ao segmento industrial."O segmento de máquinas agrícolas é um dos poucos que demonstram resultado positivo neste ano, por causa da supersafra e porque não sofreramtanto com a concorrência de importados", diz Pastoriza.
Pelas contas da Abimaq, a categoria de bens de capital acumulou queda de faturamento de 5% em 2013, em relação ao ano anterior. Para 2014, a expectativa é de desaceleração, já iniciada no fim deste ano. A produção de bens de capital caiu 2,6% de outubro para novembro, a primeira queda desde julho (-4,5%).
Pelas sondagens do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), a intenção de investimento em máquinas e equipamentos pela indústria começou a perder ritmo ainda no segundo semestre do ano passado, tendo alcançado o menor patamar registrado desde 2009. A motivação está, segundo o economista Aloisio Campelo, na desaceleração da economia e também na antecipação de compras nos primeiros meses de 2013.
Já para combustíveis, a expectativa do economista é de continuidade do crescimento da produção. Mas, para automóveis, não. "Seja por causa da antecipação das compras, do endividamento das famílias ou da maior dificuldade de acesso ao crédito", afirma.
Queda da produção em novembro poderia sinalizar um movimento de baixa neste primeiro trimestre
O desempenho da indústria em novembro contrariou o perfil do setor ao longo do ano, gerando questionamentos sobre uma possível reversão do crescimento no primeiro semestre de 2014. A produção caiu 0,2%, ante outubro, a primeira queda registrada desde julho do ano passado (- 2%). Ainda assim, a avaliação do gerente de Coordenação de Indústria do IBGE, André Macedo, é que o acumulado dos meses de outubro e novembro representaram uma ligeira melhora em relação ao terceiro trimestre do ano passado. Nos dois meses, a produção cresceu 0,9%.
De outubro para novembro, predominou o avanço dos bens intermediários, do qual participam 55% de toda indústria. A categoria de uso avançou 1,2%, por causa, principalmente, da utilização das capacidades das refinarias da Petrobras em patamares elevados. Além disso, melhoraram os segmentos de metalurgia e de outros produtos químicos, este último no Nordeste, após um período de baixa produção, provocada por eventos de desabastecimento de energia que atrapalharam as petroquímicas.
Ao contrário do que ocorreu até outubro, em novembro prejudicaram o resultado total da indústria os segmentos de veículos automotores (carros de passeio e caminhões) e de máquinas e equipamentos agrícolas - exatamente os que sustentam o crescimento de 1,4% acumulado pelo setor até novembro.
Macedo atribui o resultado à formação de estoque pelas montadoras de veículos, caminhões e tratores. "O estoque está um ponto acima do desejável. É uma arrumação natural do caminho, após crescimentos sucessivos em meses anterior", afirma. Os automóveis estão permanecendo 30 dias nos pátios das montadoras, enquanto o período considerado positivo é de até 28 dias.
A avaliação do economista do IBGE é que parte da queda da produção pode estar relacionada também ao câmbio, embora essa não seja a principal motivação.
Apesar da melhora do desempenho dos bens intermediários em novembro, no acumulado do ano, a categoria de uso permanece imóvel, repetindo 2012, ano de estagnação. Aloisio Campelo, do Ibre/FGV, diz que a tendência é que o total da indústria venha a fechar o quarto trimestre melhor do que o terceiro, mas que o segundo semestre não deverá crescer nada, comparado ao primeiro.