Influenciada por um maior número de dias úteis e por bom desempenho do setor automotivo, a produção industrial marcou em fevereiro seu segundo mês de alta consecutivo, ao avançar 0,4% sobre janeiro, feitos os ajustes sazonais.
Com o aumento de 3,8% da produção no primeiro mês do ano na comparação mensal - revisado de uma alta de 2,9% - economistas avaliam que a contribuição da indústria para a atividade será positiva no primeiro trimestre e deve evitar revisões mais pessimistas para o crescimento em 2014. Os dados são da Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física (PIM-PF), divulgada ontem pelo IBGE.
Nos cálculos da Tendências Consultoria, o índice de difusão da indústria, que mede o percentual de setores que elevaram sua produção, subiu de 63% em janeiro para 74%. Na análise por categorias de uso, apenas a de bens semiduráveis e não duráveis teve retração na passagem mensal, de 0,1%.
Analistas ponderam, no entanto, que o "efeito calendário" impede uma leitura mais otimista dos dados, enquanto os antecedentes já disponíveis referentes a março apontam para desaceleração da indústria. Como os fatores que ajudaram a produção no começo do ano foram considerados transitórios, está mantida a percepção de que o setor não terá retomada forte em 2014.
Segundo André Macedo, gerente da coordenação da indústria do IBGE, o fato de o Carnaval ter sido comemorado em março, e não em fevereiro, elevou a produção não só naquele mês, mas também em janeiro. O primeiro bimestre de 2014 teve dois dias úteis a mais do que o mesmo período do ano passado, disse Macedo, para quem o bom comportamento da indústria precisa ser relativizado.
"O ritmo da produção industrial no fim de 2013 foi caracterizado por menor dinamismo. Nesse início de ano, a situação melhorou, mas há ainda um longo espaço a ser percorrido para que o setor opere em níveis mais elevados", disse Macedo.
Para o especialista do IBGE, a atividade nas fábricas ainda está 2,7% abaixo de seu pico histórico, registrado em maio de 2011, apesar de ter compensado, nos dois primeiros meses do ano, a perda de 4,2% acumulada em novembro e dezembro de 2013.
Fernanda Consorte, do Santander, afirma que todas as estatísticas de atividade são afetadas pelo efeito calendário, que nunca é totalmente neutralizado pelos ajustes sazonais. "Por causa desse efeito, não estamos otimistas com os números do primeiro trimestre e acreditamos que março vai ser um mês com dados muito ruins, revertendo as altas anteriores", diz.
Assim como o maior número de dias úteis, a economista avalia que a evolução mais favorável da indústria no primeiro bimestre também foi impulsionada por uma recomposição de estoques no segmento automobilístico após o período de desaquecimento observado no fim do ano passado, quando as montadoras frearam a produção para esvaziar os pátios. O ganho de fôlego, porém, não deve continuar nos próximos meses.
De acordo com dados divulgados pela Anfavea (entidade que reúne as montadoras do país), as vendas domésticas e as exportações não acompanharam o ritmo da produção em fevereiro, o que provocou um maior acúmulo de estoques. O giro dos veículos parados em pátios de montadoras e concessionárias avançou de 31 para 37 dias na passagem mensal.
Para Rafael Bacciotti, da Tendências Consultoria, o setor manufatureiro terá influência positiva sobre o Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre, período para o qual projeta alta de 0,2% na atividade em relação aos últimos três meses de 2013. Baccciotti calcula que, se a produção ficar estável em março, terá crescido 1,2% na comparação trimestral. Já para os próximos meses, o economista afirma que é difícil prever uma recuperação mais consistente da indústria.
A confiança em baixa do setor, o maior volume de mercadorias paradas relatado pelas empresas nas sondagens da Fundação Getulio Vargas (FGV) e a deterioração da Argentina indicam um quadro ainda complicado para a indústria, afirma o analista. Além desses fatores, Fernanda, do Santander, acrescenta que o ciclo de aperto monetário e a retirada de incentivos fiscais também impedem reação expressiva da atividade industrial em 2014. Ela trabalha com alta de 1,5%, "no máximo", para a produção industrial na média do ano.
A LCA Consultores sustenta que os indicadores antecedentes da indústria continuam apontando um cenário de "letargia" do setor nos próximos meses. O nível de utilização da capacidade instalada que caiu para 84,4% em março, após ter ficado em 84,6% por dois meses seguidos, o Índice de Confiança da Indústria (ICI) diminuiu de 98,5 pontos em fevereiro para 96,2 pontos no mês passado e o índice de produção prevista passou de 124,8 pontos para 119,5 pontos no mesmo período, segundo a Sondagem Conjuntural da Indústria de Transformação, da FGV.
Nas projeções preliminares da LCA, a produção vai encolher 2,4% em março sobre fevereiro. "Assim como o fato de o Carnaval ter caído em março ajudou o resultado de fevereiro, consequentemente deverá atrapalhar o desempenho do terceiro mês do ano", afirmam os economistas da consultoria em relatório.