Secretário fala de projetos para o desenvolvimento da Bahia

11/05/2015

Donaldson Gomes (Editoria de Economia/Correio da Bahia)



O engenheiro químico Paulo Guimarães assumiu interinamente o comando da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE) após seis anos no governo. Recebeu do governador Rui Costa a incumbência de substituir o ex-secretário James Correia, o responsável por levá-lo para o governo. Se vai permanecer ou não no cargo, só o próprio Rui pode dizer. Econômico nas palavras, o governador responde apenas: “(Paulo Guimarães) agrada bastante”. Parte do trabalho do atual secretário é manter a estrutura para atração de investimentos. Foi ela quem tornou a Bahia uma potência em energia renovável, acredita ele. Em uma hora e meia de conversa, Guimarães lembra o trabalho ao lado do antecessor, garante o interesse na implantação das montadoras JAC Motors e Foton, além de defender a renovação de contratos do interesse da indústria baiana.


O governador lhe fez algum pedido especial quando lhe escolheu para assumir a SDE?


As linhas mestras continuam a ser diversificação, descentralização, com interiorização, e adensar cadeias. Em paralelo, o governador acrescentou uma prioridade, que era pano de fundo. É a questão de tecnologia. No passado, o principal pilar eram os incentivos fiscais. Há algum tempo tentamos tirar a importância disso. Outros pilares podem fazer os incentivos perderem importância porque não é o que mantém a empresa. A gente precisa desenvolver o mercado para as empresas venderem aqui os seus produtos. Outro pilar é o ambiente de negócios. Não enrolamos ninguém. É tudo muito objetivo, se pode, pode. Se não pode, avisamos que não dá. Associado a isso tudo, precisamos investir em ciência e tecnologia. Não dá para o estado continuar com uma indústria baseada apenas na produção de commodities.


Mas o senhor acredita que é possível modificar isso apenas com uma política estadual?


Não, a gente consegue avançar, mas não consegue resolver. Enquanto o Brasil não tiver política de desenvolvimento que priorize a agregação de valor, o país vai ser exportador de commodities. A gente continua com a mesma política econômica de Pedro Álvares Cabral, de exportar commodities. Era pau brasil, cana de açúcar e agora é minério de ferro, soja e polpa de celulose. O valor é agregado lá fora, o emprego é gerado lá fora. É na ponta da cadeia que se geram mais empregos. A Basf fez um investimento de quase R$ 1 bilhão, que será inaugurado no dia 19 de junho, que vai gerar 200 empregos diretos e outros 600 indiretos. No setor de calçados ou no termoplástico, com um investimento de R$ 2 milhões, contrata-se 500 pessoas. Veja, acabamos de ocupar todos os galpões que foram deixados vagos pela Azaleia na região de Itapetinga. Ao fazermos isso, ajudamos a criar empregos na região, conseguimos diversificar os empreendedores - vieram empresas que fabricam calçados femininos.


Mas para termos o final da cadeia, precisamos oferecer a matéria-prima, que é produzida pela indústria de base.


Para o setor industrial não é interessante apenas produzir commodities. Hoje, com o câmbio alto, importar ficou muito mais caro. Exportar é ruim tanto para a empresa, quanto para o estado. A empresa vai batalhar lá fora com o mundo inteiro. Para o estado, se a empresa exporta, o produto sai sem ICMS por causa da Lei Kandir. Teoricamente, o dinheiro seria devolvido, mas não é. O governo federal diz que não tem condições de devolver e vai devolver quando puder. Nós trabalhamos na medida do possível para proteger a indústria que está implantada aqui. Essa é uma questão crucial para o Polo de Camaçari. O Polo é um castelo de cartas, se eu tirar uma peça, afeto várias outras. Quando uma fábrica fecha, traz reflexos negativos para uma série de outras. Garantir a saúde de quem está aqui significa, por exemplo, garantir consumidor para os produtos aqui fabricados. Quer um exemplo? Temos a Flopan, que está se instalando em Camaçari e vai fabricar um produto chamado poliacrilamida, que será usado no pré-sal e serve para o tratamento de água. Esse produto vai consumir acrilonitrila, produzido pela Acrinor, da Unigel. O que estava acontecendo? A Unigel estava exportando esse produto porque a fábrica que comprava dela em São Paulo fechou. Perdia a Unigel e perdia o estado porque exportava sem ICMS. Na hora em que a Flopan entrar em operação, será bom para todo mundo.


Falando em indústria de base, existem duas questões que afligem empresas importantes para a economia do estado, caso dos contratos entre as eletrointensivas e a Chesf e do contrato de fornecimento de nafta entre a Petrobras e a Braskem. A solução destes problemas é prioridade para o governo?


É prioridade máxima. Ontem em São Paulo (terça-feira, dia 5), após a visita do governador à Feiplastic, estivemos reunidos com os outros governos envolvidos na questão. Nós não temos dinheiro para pagar a conta, mas temos mostrado ao governo federal a importância desta indústria. Se não tivermos condições de manter essas empresas funcionando e com perspectivas de trazer novos investimentos, não seremos os únicos a perder. O Brasil perde. Nosso setor químico tinha US$ 1,5 bilhão de déficit em 1999 e hoje tem US$ 33 bilhões. Não incorporamos produtos que hoje são necessários aqui. Existem projetos a se implantar em Camaçari que dependem do contrato para o fornecimento de nafta para a Braskem. Se não houver uma solução, todo mundo vai perder.


Existe uma ação concreta?


Em relação às eletrointensivas, o governador está levando uma proposta para o Ministério de Minas e Energia. Ele está propondo uma solução alternativa. Existem incertezas em relação à participação do setor privado no fundo. Essa alternativa não precisaria do aporte privado. E não precisaria de nenhuma discussão em relação a governança. Porque a questão não é apenas de criação do fundo. Após a criação, precisa-se de 30 dias para determinar a governança. Não é algo simples.


Qual é o panorama em relação a novos investimentos em energia eólica e solar?


A energia eólica vai continuar crescendo muito rapidamente porque é uma necessidade. A Bahia tem potencial e viabilidade. Hoje temos uma cadeia produtiva de equipamentos consolidada.


O estado já produz todos os equipamentos da cadeia?


Todos, não. Mas estamos produzindo os principais e estamos entrando numa segunda etapa, junto com as montadoras que já estão aqui para atrair o restante da cadeia. Na semana que vem, vai ser a inauguração da Acciona, que é nossa terceira montadora. A fábrica da Gamesa amplia em junho e inaugura no início de julho. Temos a Tecsis, fabricante de pás, que é a última grande peça do aerogerador. Essa fábrica está em implantação. Com a Tecsis, fechamos o circuito das grandes peças. A segunda etapa, que estamos iniciando é de trazer o restante da cadeia.


Essa cadeia de equipamentos já tem uma relevância econômica significativa, não é?


Eu acredito que nós estamos vivenciando o início de uma revolução que pode transformar o interior da Bahia, sobretudo. Nós temos uma estimativa de que só os arrendamentos de área para produção da energia eólica e solar que já foi contratada até 2018 vão render uma injeção direta de R$ 40 milhões por ano para os habitantes do semiárido. O mais interessante é que essas pessoas não precisam abrir mão de suas áreas, ou deixar de produzir para isso.


Qual é a perspectiva da Bahia para a energia solar?


A Bahia foi campeã em projetos de energia solar no primeiro leilão. Deve ganhar o próximo leilão a um preço muito mais baixo do que era há dois ou três anos. Isso vai tornar o investimento cada vez mais interessante e com esse volume vendido, temos empresas se implantando para fabricar os painéis fotovoltaicos. Continuamos focados em eólica, mas vamos trabalhar também para desenvolver a cadeia solar.


É possível repetir com a solar o sucesso com a eólica?


Eu tenho certeza. Para se ter uma ideia, nós tínhamos zero de energia eólica em 2009. De lá para cá, fomos avançando. Hoje, se fizer apanhado de energia contratada, que é o que está em operação e vai entrar até 2018, a Bahia já é o estado que tem a maior quantidade, em torno de 30%. Temos uma média de 40% dos projetos. No caso da solar, já tivemos 40% no primeiro leilão.


Secretário, os investimentos das montadoras JAC Motors e Foton Motors ainda são prioridade para o governo?


São, sim. Os projetos continuam a ser prioritários para a gente e as empresas se encontram em processo de tramitação dos pedidos de financiamento na Desenbahia.


Mas não está demorando?


Existem algumas regras que precisam ser cumpridas, do ponto de vista de garantias, que são exigências não apenas da Desenbahia, mas do sistema bancário. O que acontece é que essas demandas de garantias foram feitas e as empresas não conseguiram apresentar todas. Eu poderia até dizer que a gente poderia fazer o processo mais rápido, mas não é função do Estado... Isso tudo tem acontecido em um momento muito turbulento. A gente pode dizer que houve alguma demora na hora de fazer as coisas, mas é como o governador disse, as empresas precisam cumprir o papel delas e dar as garantias para o gestor público ter segurança de que não vai ter problemas mais tarde. .


Como está o processo?


A última informação que eu tenho é de que as coisas estão se encaminhando para que as garantias sejam resolvidas. As empresas continuam interessadas, o processo está caminhando.


Existe algum prazo?


É difícil falar porque depende de consolidar as garantias. Posso dizer que a situação está muito melhor que há dois ou três meses. E eu acho que ajuda o fato de o mercado automotivo estar em dificuldades, porque cria um espaço para a consolidação desses investimentos. Agora, não existe nenhuma má vontade no governo. O empenho é geral.

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